Pirandello: O falecido Matias Pascal

Li em um jornal sobre um juiz que viveu quarenta e cinco anos sob uma nova identidade como um aristocrata britânico. Talvez a história tivesse surgido para disfarçar o R retroflexo, pois o juiz era, na verdade, um nativo do interior da Paulistânia. Mentira. Eu não assinava jornal. Mas lia livros. Um deles tratava do falecido Matias Pascal. Grafa-se também Mattia.

Imaginem, senhoras e senhores, uma pequena cidade italiana, Miragno, com seu calor mediterrâneo, sua poeira provinciana e seus habitantes mergulhados em um teatro de aparências. Nesse cenário que beirava o claustrofóbico vivia Mattia Pascal. Não se tratava de um herói clássico, mas de um sujeito comum, esmagado pela mediocridade das circunstâncias e pela herança maldita de uma mina de enxofre, resíduo econômico de um pai igualmente esvaído. Mattia avançava como quem empurra uma carroça numa estrada de terra: cada passo levantava mais poeira do que progresso.

Mattia, como muitos de nós em alguma fase da vida, estava condenado a ser o que não escolhera. Sua única companhia sincera era Pomino, o amigo tímido da infância. Mas, como Freud ensinou, e Pirandello leu Freud, até a amizade mais pura podia conter o germe da rivalidade.

A ruína econômica veio de forma quase didática: o administrador da fortuna da família, um senhor chamado Batta Malagna, cujo nome parecia saído de uma farsa romana, enganou a viúva crédula. O dinheiro desapareceu. A dignidade, também. E Mattia viu o irmão ir embora, enquanto ele permanecia preso à cidade, à mãe e à memória do que não fora.

Malagna não se contentava com a fortuna. Desejava também as mulheres ao seu redor, em especial Oliva, antiga paixão juvenil de Mattia. O casamento dos dois era estéril, literalmente. A esterilidade virou argumento: Oliva era culpada, e Malagna, cínico, já mirava a jovem Romilda, sobrinha da esposa.

Pomino, apaixonado por Romilda, ouviu de um criado que Malagna era, de fato, estéril. E começou a comédia trágica. Mattia, talvez em gesto altruísta, talvez por vaidade camuflada, incentivou Pomino a cortejar Romilda. Mas o destino, dramaturgo impiedoso, tinha outros planos: Mattia e Romilda acabaram se envolvendo. Amor? Paixão? Tédio? Pirandello jamais entregou todas as cartas.

Romilda engravidou. Malagna, preocupado com a reputação, fingiu que o filho era seu, numa tentativa patética de provar fertilidade retroativa. Oliva descobriu e, em retaliação, engravidou também, de Mattia. O jogo virou. Mas virou para pior.

Mattia casou-se com Romilda. A pobreza era agora uma companheira oficial. A sogra, Marianna Dondi, figura dantesca, instalou-se na casa e fez da vida de Mattia um suplício cotidiano. O lar era prisão, a esposa, ressentimento, e o passado, um peso.

Um dia, surgiu um lampejo: Pomino, já empregado, ofereceu a Mattia um cargo de bibliotecário. Um sopro de ordem em meio ao caos. Mas a tragédia não tirava férias. As filhas gêmeas nasceram e morreram. A mãe de Mattia morreu. O sentido da vida, também.

Eis que Roberto, o irmão ausente, retornou rico. Deu a Mattia uma quantia considerável. E Mattia, finalmente, fugiu. Foi a Monte Carlo, espaço mítico da fortuna e da fuga. Lá ganhou dinheiro no jogo. E lá, no décimo segundo dia, descobriu que um suicida fora encontrado em um moinho de Miragno. Um corpo irreconhecível fora identificado como o dele. Mattia Pascal estava oficialmente morto.

E aqui surgia o coração da genialidade pirandelliana: Mattia, morto para o mundo, decidiu tornar-se outro. Nasceu Adriano Meis. Um homem novo. Um sujeito livre das amarras sociais. Sem família, sem história, sem identidade. Um Rimbaud pós-moderno que ousava reinventar-se.

Mas havia um problema. Adriano Meis não existia juridicamente. Não podia casar-se, defender-se legalmente, ser cidadão. A liberdade total revelou-se um cárcere novo. O amor por Adriana, filha de seu locatário romano, era impossível. Ele era um fantasma. Estava morto demais para viver, vivo demais para morrer.

Então simulou outro suicídio, agora de Adriano Meis, e voltou para Miragno. Lá, dois anos depois, descobriu que Romilda casara-se novamente. Com Pomino. O ciclo fechou-se com uma ironia quase cruel: o amigo tímido, traído e traidor, tornara-se o novo Mattia Pascal.

Durante sua estada em Roma, sob a identidade de Adriano Meis, o protagonista encontrou abrigo na pensão do peculiar Anselmo Paleari, homem devotado às próprias elucubrações filosóficas e sessões espíritas. Foi Paleari quem expôs a Mattia e Adriano sua original “lanterninosofia”. Segundo essa teoria, a grande diferença, e talvez a maldição, do ser humano era a consciência de si, o sentir-se viver. Essa consciência funcionaria como um pequeno lampião, um lanternino que cada um carregava aceso. Ele iluminava um círculo restrito ao redor, definindo o que percebíamos como realidade, bem e mal. Ao mesmo tempo, projetava uma vasta sombra de medo e desconhecimento para além desse limite, uma escuridão que existia justamente por causa da luz. As grandes ideologias e sistemas de crença seriam como lampiões maiores e coloridos, mas, advertia Paleari, igualmente frágeis e propensos a apagar-se, deixando o indivíduo perdido no bujo, desorientado como formigas cujo formigueiro fora tapado.

O verdadeiro, ou o que sobrava dele, refugiou-se na poeira de uma biblioteca. E escreveu. Escreveu a história de sua duplicidade, de sua tentativa de ser livre, de sua falência como identidade. No túmulo, uma coroa com os dizeres: “Il fu Mattia Pascal”. O falecido Matias Pascal. Em italiano, o trocadilho “il fu il Mattia Pascal”: ele foi Mattia Pascal. Já não era.

Luigi Pirandello (1867-1936), agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1934, foi mestre do drama e da prosa italiana. Sua obra revolucionou o teatro e explorou as profundezas da psique humana. Nascido na Sicília, sua escrita transpirava as tensões sociais e a fragmentação da identidade na Itália moderna. O Falecido Mattia Pascal situa-se em uma transição quando se afastou do verismo inicial e abraçou o que chamou de humorismo. Isto é, a visão tragicômica que expunha o absurdo por trás das convenções sociais e da condição humana. Influenciado por filósofos e psicólogos de seu tempo, e por tradições literárias além da narrativa linear, como Laurence Sterne em Tristram Shandy, Pirandello usou a história de Mattia para investigar a máscara social, a relatividade da verdade e a busca infrutífera por uma identidade autêntica e livre.

Publicado em 1904, O Falecido Mattia Pascal consolidou a maturidade literária de Pirandello ao experimentar uma forma narrativa que articulava memória e consciência em tensão constante. O livro organiza a voz de Mattia como um depoimento escrito após o colapso de sua identidade, quando ele tenta reconstruir, pela linguagem, a lógica de sua própria metamorfose. Essa escrita retrospectiva permite observar como o protagonista revê cada episódio à luz do que perdeu e do que julgava ter conquistado, compondo um tecido narrativo que mistura análise, ironia e uma lucidez às vezes dolorosa. A estrutura, ainda que cronológica, se torce sob o peso das digressões, e o percurso de Mattia surge menos como relato linear e mais como a tentativa de ordenar fragmentos que teimam em escapar.

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