FRANÇA, Francisco (Ilustr.). BAPTISTA, Josely Vianna (Ed.; Trad.). RECINOS, Adrián (Intr.). Popol Vuh: O esplendor da palavra antiga dos Maias-Quiché de Quauhtlemallan: aurora sangrenta, história e mito. São Paulo: Ubu Editora, 2019.
Entre os monumentos literários das Américas, poucos textos alcançam a amplitude cosmológica, a profundidade filosófica e a força poética do Popol Vuh. Redigido originalmente em k’iche’, a língua dos maias das terras altas da Guatemala, o texto é simultaneamente mito de criação, narrativa heroica e tratado teológico sobre a ordem do mundo. Sua importância transcende o valor literário: trata-se de um documento civilizacional, um testemunho da visão maia sobre a origem da vida, o funcionamento do cosmos e o destino humano.
Ainda que a forma escrita que chegou até nós date do período colonial — transcrita em alfabeto latino por um autor indígena anônimo e posteriormente copiada pelo frade Francisco Ximénez — o conteúdo do Popol Vuh repousa sobre tradições muito mais antigas, preservadas por séculos por meio da recitação ritual e da memória especializada.
A edição Popol Vuh: O esplendor da palavra antiga dos Maias-Quiché de Quauhtlemallan: aurora sangrenta, história e mito, publicada pela Ubu Editora em 2019, apresenta uma das mais cuidadosas traduções contemporâneas da obra maia-quiché. Organizada e traduzida por Josely Vianna Baptista, com ilustrações de Francisco França e introdução de Adrián Recinos, a edição estabelece um diálogo entre rigor filológico, sensibilidade poética e aparato crítico atualizado. Acompanha um encarte (que infelizemente não veio no meu exemplar) de um folio imitando o códice maia.
Cosmogonia: milho como base da humanidade
A narrativa da criação no Popol Vuh inicia-se na escuridão primordial, quando os Progenitores — Tepeu e Gucumatz — deliberam sobre a formação dos seres destinados a reconhecer, sustentar e honrar os deuses. A criação é um processo gradual, marcado por tentativas fracassadas: os animais compreendem o comando, mas não podem falar; os homens de lama se desfazem na água; os homens de madeira existem, mas carecem de alma e de memória.
A perfeição surge apenas quando os deuses encontram, nas terras de Paxil e Cayalá, as mazorcas amarela e branca. O maíz, fundamento da economia, da vida e da religião maia, torna-se o elemento constitutivo do corpo humano. O sangue provém do suco do grão, e a carne dos braços e pernas é moldada da massa de maíz.
Assim, a humanidade nasce como criatura agrícola, inseparável da planta que sustenta sua subsistência e define a própria identidade cultural maia.
Os primeiros seres — Balam-Qutzé, Balam-Acab, Mahucutah e Iqui-Balam — emergem plenos de visão, fala e entendimento. Contudo, seu conhecimento ilimitado preocupa os Progenitores: criaturas que veem o mundo inteiro como deuses podem igualar-se aos próprios criadores. Para restabelecer o equilíbrio, os deuses enevoam seus olhos, restringindo-lhes a visão ao que está próximo. A humanidade, imperfeita e limitada, encontra aí sua condição adequada.
Se a criação dos primeiros humanos oferece a metafísica do Popol Vuh, a saga de Hunahpu e Xbalanque fornece sua ética e sua estética. Filhos do deus Hun Hunahpu, os gêmeos heroicos sintetizam o ideal maia de bravura, engenhosidade e superação ritual da morte.
O cerne da narrativa é a descida dos heróis a Xibalba, o complexo e hostil submundo maia. Ali, os gêmeos enfrentam os Lords of Xibalba, entidades que governam pelo engano, pela doença e pela morte. A convocação para um jogo de bola — jogo sagrado em toda Mesoamérica — é, desde o início, uma armadilha.
Xibalba é um espaço de prova, onde a vida e a morte se entrelaçam, e onde o triunfo não se conquista pela força muscular, mas pela astúcia ritual.
O episódio central do capítulo heroico é o tenso jogo de bola. Os senhores do submundo tentam vencer por trapaças sucessivas, armando armadilhas e exigindo provas impossíveis aos visitantes. Os gêmeos respondem com engenho: substituem a pesada bola de borracha por uma feita do crânio de um antigo jogador, confundindo os adversários e controlando a partida.
A “vitória” dos heróis, porém, não encerra a narrativa. Os senhores de Xibalba, desrespeitando seus próprios pactos, executam Hunahpu e Xbalanque mediante ardilosos artifícios. A morte, entretanto, não é fim — é a etapa necessária de um ciclo.
O Popol Vuh concebe a morte como trânsito, não como aniquilação. Os Hero Twins são decapitados, desmembrados, pulverizados — e novamente reconstituídos. A própria avó desempenha papel crucial no retorno à vida, evocando os saberes de cura e os poderes regeneradores.
A ressurreição dos gêmeos marca a reviravolta cosmológica: eles retornam ao submundo disfarçados, manipulam os rituais funerários, enganam os próprios deuses da morte e, no momento decisivo, executam uma autossacrifício controlado. Ao reviverem diante dos olhos de Xibalba, demonstram um poder superior ao da própria morte, invertendo a hierarquia metafísica do submundo.
O triunfo final dos gêmeos estabelece a nova ordem do cosmos, assegurando o equilíbrio entre vida, morte e renascimento.
Um dos traços do Popol Vuh é a valorização da astúcia. Não se trata de engano como vício moral, mas como forma de inteligência própria das relações rituais com o sagrado. A ordem divina exige não apenas obediência, mas também esperteza, capacidade de interpretar sinais, manobrar perigos, e compreender que o mundo é movido por forças ambíguas.
Os gêmeos usam disfarces, manipulações, truques e jogos de aparência para superar adversários poderosos. O trickster maia não é mero trapaceiro: é agente de equilíbrio cósmico. A astúcia torna-se princípio de sobrevivência e de sabedoria.
Recepção
O caminho histórico do Popol Vuh é, em si, extraordinário. A obra, mantida por séculos exclusivamente pela oralidade performativa, foi registrada em escrita latina provavelmente na segunda metade do século XVI por um autor k’iche’ da elite local. O manuscrito que chegou ao presente é o exemplar copiado e preservado pelo frade Francisco Ximénez no século XVIII, o manuscrito Ximénez.
Sua sobrevivência atravessou a conquista, a evangelização forçada, a censura e a destruição sistemática de códices indígenas. É, portanto, testemunho da resiliência cultural maia, da memória indígena que persiste apesar da catástrofe colonial.
