Houve um tempo em que os homens acreditaram que o deserto podia ser um templo, e que a fronteira, esse fio de poeira que separava o mundo civilizado do indômito, podia tornar-se terra prometida. Francisco Hermógenes Ramos Mejía foi um desses homens. Nascido em Buenos Aires em 1773, filho de um comerciante que orbitava os círculos elevados do vice-reinado, recebeu educação sólida: filosofia concluída e teologia interrompida em Chuquisaca. Casou-se em La Paz com a jovem María Antonia Segurola, de quinze anos, união que, além de afeto, lhe abriu horizontes e fortuna inesperada. Poderia ter seguido carreira confortável na capital, mas o destino, ou talvez sua vocação secreta, o empurrou para a borda do mundo.
Era um Moisés tardio. Levava não um povo inteiro, mas sua família e suas convicções, descendo dos altiplanos do Alto Peru em direção ao sul, até onde o mapa se dissolvia em vento. Aos 34 anos, tornou-se um Josué criollo ao cruzar seu Jordão, o rio Salado, que marcava o limite da cristandade e das certezas.
A região andina, tensa após as reformas bourbônicas e inquieta com o avanço das guerras de independência, já não oferecia o horizonte que ele imaginara quando estudara teologia em Chuquisaca. Ao decidir partir, não levou apenas bagagens e livros: levou mulheres que temiam abandonar as montanhas onde tinham enterrado seus mortos, crianças que choravam com o frio cortante das madrugadas e velhos que caminhavam devagar, respirando o ar ralo como quem luta por cada memória. A longa marcha para o sul exigiu coragem mais que força. Descer a cordilheira significava enfrentar penhascos que faziam os joelhos tremer, cruzar ravinas onde o vento zunia como aviso e avançar por vales em que o cheiro de terra seca misturava-se aos murmúrios aimaras e quéchuas. Indígenas que acompanhavam a caravana caminhavam em silêncio atento, percebendo no farfalhar das plantas e na cor do céu sinais que os demais não viam. Pequena e vulnerável, a comitiva seguia como um fio de esperança costurando geografias e medos, sustentada pela sensação de que, ao final do caminho, encontrariam algum lugar onde a vida pudesse recomeçar.
Além dali começava a terra dos pampas, tehuelches e ranqueles. Ramos Mejía atravessou essa linha com uma Bíblia na mão e entrou no território indígena como quem ingressa num outro século. E ficou. Assim como um agricultor que abandona a cidade para cuidar de um campo árido, confiando que a terra responde ao cuidado, acreditou que o futuro podia nascer ali.
Antes disso, porém, em Los Tapiales, a propriedade que comprara ao voltar do Peru, descobriu o livro que marcaria sua vida. Manuel Lacunza, jesuíta exilado que escrevia sob o nome enigmático de Josefat Ben Ezra, anunciava em La venida del Mesías en gloria y majestad uma leitura profética do cristianismo. Ramos Mejía não apenas leu, mas inflamou-se. Sentiu que o evangelho não era tese, e sim caminho. E que seu caminho passava pelos povos das planícies.
Assim nasceu a ideia, improvável e grandiosa, de fundar Miraflores, uma comunidade em Diez Lomas, no coração do que então era território indígena. Ali chegou aos 38 anos com María Antonia e o pequeno Matías. Não invadiu com as forças como fazia outros estancieros. Comprou as terras diretamente dos caciques, reconhecendo-lhes o direito originário. Exigiu recibos, contratos e testemunhas. Tratou-os como proprietários plenos, gesto que nenhum outro estancieiro ousara realizar. A notícia correu como fogueira pela pampa, e sua fama, como um vento cálido, subiu até além dos Andes.
Miraflores tornou-se abrigo. Todo sábado, indígenas e gauchos alçados reuniam-se para ouvir o homem do sul falar sobre o fim do mundo, sobre justiça e sobre o advento de uma nova era de paz. E o que impressionava não era apenas a doutrina, condensada no Abecedario de la Religión ou no manifesto El Evangelio de que responde a la Nación el Ciudadano Francisco Ramos Mejía, enviado às autoridades em 1820, mas a prática. Oferecia comida, teto e trabalho. Impunha regras severas: nada de bebida, jogo, concubinato ou múltiplas mulheres. Era uma comunidade sem excessos numa terra acostumada a todos os excessos.
Contra as expectativas, prosperou. Havia uma harmonia difícil de explicar mesmo para quem vivia ali. Talvez porque Ramos Mejía não confundira fé com força. Talvez porque via nos indígenas não inimigos da fronteira, mas parceiros de uma promessa comum. Talvez porque falava com eles e não sobre eles. Seu Pacto de Miraflores, firmado com dezesseis caciques, estabeleceu uma convivência que poderia ter redefinido toda a história da região. Poderia, mas não interessava à política.
Em Buenos Aires, seu nome começou a soar perigoso. Francisco de Paula Castañeda o atacava na imprensa. Rivadavia suspeitava da heresia, do sabatismo e do messianismo laico. Clérigos como José Valentín Gómez o denunciavam como possível agitador. Quando um malón devastou o norte da província, o governador Martín Rodríguez encontrou no estancieiro um bode expiatório conveniente. Soldados invadiram Miraflores. Indígenas — homens, mulheres e crianças — foram degolados sem resistência. María Antonia e os filhos foram levados à força. Ramos Mejía, preso, foi conduzido como criminoso.
Todos os seus manuscritos foram queimados.
Ali terminou o sonho. Em Los Tapiales, transformado em prisão domiciliar, caiu em melancolia profunda. Um homem para quem a fé era ação descobriu-se imobilizado, silenciado e desautorizado. Morreu em 1825, aos 52 anos, cercado não pelos povos que o haviam amado, mas por paredes que lembravam sua derrota.
O velório durou dois dias. As autoridades recusaram autorizar o sepultamento na própria estância. A família esperou, impotente. A cidade ignorou. A Igreja silenciou. O governo não interveio.
Então, numa noite sem estrelas, algo aconteceu.
Da escuridão das pastagens surgiram silhuetas quase imperceptíveis. Entraram na hacienda sem ruído, com pés descalços e passos lentos, como quem atravessa um templo. Eram pampas, tehuelches e ranqueles. Alguns velhos talvez fossem sobreviventes de Miraflores; outros, jovens que cresceram ouvindo histórias do homem que comprara suas terras e lhes falara de um mundo novo.
Não tocaram nada, não derrubaram portas e não disseram palavra. Apenas ergueram o corpo de Don Pancho com reverência. Pousaram-no sobre um carro de boi coberto com ponchos escuros. As rodas começaram a mover-se devagar e rangiam como se despertassem de um longo luto.
A família viu, mas não interveio. Havia no cortejo algo sagrado.
O carro avançou para fora da hacienda, atravessou o descampado e, aos poucos, tornou-se apenas sombra. Depois linha. Depois ponto. E finalmente desapareceu no horizonte, como se Don Pancho, enfim, voltasse ao deserto que sempre lhe pertenceu.


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