Três religiões curdas: yazidi, yarsan e alevi

No alto da Mesopotâmia curda, uma região marcada por séculos de densa pluralidade cultural e religiosa, encontram-se três comunidades espirituais entrelaçadas com o povo curdo: os yazidis, os yarsanis e os alevi curdos.

Cada uma dessas tradições representa um universo de crenças e práticas que resistem a meras categorias. Embora compartilhem origens e características culturais comuns, essas etnorreligiões do Iraque, Irã, Turquia e Síria contrastam-se por suas teologias únicas, sua cosmologia complexa e sua persistência frente à perseguição e ostracismo. Coletivamente, são chamadas de cultos dos anjos, devido a complexa angeologia.

OS YAZIDI

Os yazidi ou yazidis constituem uma das comunidades religiosas mais enigmáticas e perseguidas do Oriente Médio. Fiel a uma tradição espiritual e esotérica, essa religião aproxima de elementos do zoroastrismo, mitologia mesopotâmica, antigo gnosticismo, sufismo islâmico, cristianismo e judaísmo. São conhecidos pela veneração a Melek Taus, o “Anjo-Pavão”, que é uma figura central em sua cosmologia e símbolo da reconciliação divina.

Autodenominados Êzîdî ou Êzîdîya, o nome “yazidi” possivelmente deriva do persa “Yazata”, que significa “ser divino”, ou do califa omíada Yazid I, cujos descendentes foram associados ao culto popular. Diferentes teorias traçam a origem dos yazidis à antiga Mesopotâmia, onde elementos de suas práticas, como os ritos do fogo, ecoam tradições pré-zoroastrianas e cultos pré-islâmicos.

História

A história yazidi é complexa e marcada por marginalização. Tradicionalmente, os yazidis situaram-se na região do Monte Sinjar, no norte do Iraque, e em áreas da Síria, Turquia e Armênia. Sua religião, vista por muitos como herética devido à veneração de Melek Taus, frequentemente é alvo de incompreensão e perseguição.

O escritor zoroastriano Ziya Gökalp argumentava que os yazidis preservavam práticas ancestrais anteriores à islamização. Outra hipótese, amplamente defendida por estudiosos como Philip Kreyenbroek, é que a religião emergiu como uma adaptação do sufismo entre curdos pré-islâmicos.

Yazidis historicamente enfrentaram dilemas para preservar sua identidade. Durante o período otomano, foram considerados hereges; sob o domínio islâmico, mantinham a prática endogâmica rigorosa para evitar a assimilação. Apesar disso, mantiveram costumes como o culto ao fogo sagrado, a transmissão oral de hinos e a rígida hierarquia espiritual.

A origem dos yazidis é complexa e frequentemente envolta em mistério. Embora não haja um fundador histórico claramente definido, a religião se desenvolveu ao longo dos séculos em resposta a contextos sociopolíticos variados. A tradição yazidi afirma que eles descendem dos antigos habitantes da Mesopotâmia, preservando práticas e crenças que datam de milênios atrás. Acredita-se que sofreram ao menos 74 massacres ao longo de sua história, sendo o mais recente o genocídio perpetrado pelo Estado Islâmico em 2014.

A perseguição resultou em massacres, sequestros e deslocamentos forçados de milhares de yazidis. Apesar dessas adversidades extremas, a comunidade continua lutando pela preservação de sua identidade cultural e religiosa.

Escrituras e Cosmologia

Os dois textos sagrados principais dos yazidis são o Mushaf Resh (“Livro Negro”) e o Kitab al-Jilwa (“Livro da Revelação”). A cosmologia yazidi é dualista, com Deus como o criador supremo, que confiou o governo do mundo a Melek Taus e a outros seis anjos. Melek Taus é simultaneamente reverenciado como símbolo de poder e iluminação e mal interpretado por outros grupos religiosos como uma representação de Satã.

Os yazidis acreditam que o universo foi criado a partir de uma pérola divina. Deus enviou Malak Taus como seu representante na Terra, com papel central na formação do mundo e na relação entre Deus e a humanidade. Ele é o mediador entre o divino e os yazidis, sendo invocado em suas orações diárias.

A cosmologia yazidi é rica em simbolismo, incluindo a ideia de reencarnação e a importância da pureza espiritual. Os yazidis também têm um forte vínculo com a natureza, considerando-a sagrada.

Rituais e Práticas

As práticas yazidis incluem rituais que enfatizam a purificação e a conexão com o divino. O batismo em águas sagradas, o casamento comunitário e o peregrinagem anual ao santuário de Lalish, no norte do Iraque, são eventos fundamentais. Em Lalish, os yazidis reverenciam o túmulo de Sheikh Adi, uma figura histórica central que reformulou a religião no século XII.

Celebram festivais que marcam eventos importantes em sua cosmologia, como o Novo Ano Yazidi (Çarşema Sor) e o Festival do Sol (Şêx Sin). A ética yazidi enfatiza valores como a paz, a harmonia e a solidariedade entre os membros da comunidade.

A transmissão oral é crucial na cultura yazidi. Os qewls, hinos sagrados, preservam a história, a mitologia e a ética yazidi, sendo recitados pelos sacerdotes conhecidos como qewals. Entre os símbolos sagrados está a lamparina de óleo, que representa a luz divina.

OS YARSANI

Os yarsani, yarsanis ou yâresân, conhecidos em persa como Ahl-e Haqq (povo da Verdade), constituem uma comunidade religiosa esotérica originária do Irã e do Iraque. Essa tradição mística convive com elementos do sufismo islâmico, zoroastrismo, mitologia persa antiga e crenças populares. A religião centra-se busca espiritual, na pureza moral e na união com o divino.

Os adeptos do Yarsanismo acreditam que a verdade espiritual transcende as interpretações literais das escrituras e que o objetivo último da vida é alcançar a proximidade com Deus, chamado frequentemente de Haqq (“Verdade”) em seus textos sagrados.

História

A origem do yarsanismo remonta ao século XIV, com a figura carismática de Sultan Sahak, considerado seu fundador e um profeta enviado para renovar a relação da humanidade com o divino. Sultan Sahak estabeleceu as bases teológicas e rituais da religião na região de Hawraman, no Curdistão iraniano, onde seus ensinamentos foram passados oralmente por gerações.

A religião desenvolveu-se em um contexto de diversidade cultural e religiosa no Oriente Médio, absorvendo influências do sufismo, especialmente nas ideias de unidade com Deus (Tawhid) e na centralidade da música e da poesia como ferramentas de elevação espiritual. A interação com tradições pré-islâmicas, como o zoroastrismo, é evidente na veneração do fogo como símbolo de pureza.

Os yarsanis enfrentaram séculos de marginalização devido à sua abordagem esotérica da espiritualidade e à rejeição de formalismos religiosos. Em muitos casos, foram identificados como heréticos por comunidades majoritariamente muçulmanas, levando a períodos de perseguição e discriminação.

Escrituras e Cosmologia

A teologia yarsani é profundamente simbólica e baseada em um ciclo eterno de manifestações divinas chamadas de Mazhar. Segundo os ensinamentos, Deus se manifesta em diferentes épocas por meio de figuras humanas para guiar a humanidade. Essa crença se reflete na doutrina dos “Sete Guardiões” (Haft Tan), seres divinos que ajudam a mediar entre Deus e os crentes.

Os textos sagrados do Yarsanismo incluem coletâneas de hinos conhecidos como Kalâm-e Saranjâm (“Palavras Conclusivas”), atribuídos a Sultan Sahak e seus sucessores. Esses hinos são recitados em cerimônias espirituais e contêm instruções éticas, mitológicas e místicas.

A cosmologia yarsani enfatiza o conceito de um ciclo contínuo de reencarnação, onde as almas buscam purificar-se e reaproximar-se de Deus. A vida humana é vista como uma oportunidade para superar o ego e demonstrar fidelidade à Verdade.

Rituais e Práticas

O yarsanismo realiza rituais comunitários, marcados pela recitação de hinos, música sagrada e o compartilhamento de refeições ritualísticas chamadas de Jam. Nessas ocasiões, os adeptos renovam seu compromisso com a fraternidade e com os ensinamentos espirituais.

A música desempenha um papel central nas práticas yarsanis, sendo usada para evocar estados de êxtase espiritual e para transmitir a sabedoria divina. Instrumentos tradicionais, como o tambor, são considerados sagrados e um meio de comunicação direta com o divino.

A ética yarsani é baseada na integridade pessoal e no respeito à comunidade. Valores como a honestidade, a solidariedade e a simplicidade de vida são altamente estimados. A pureza do coração e a intenção sincera são vistas como os verdadeiros critérios de devoção.

Identidade e Perseguição

Os yarsanis são predominantemente curdos, embora comunidades menores existam entre persas, luris e outras etnias. A discriminação histórica contra o Yarsanismo decorre, em parte, de sua rejeição às normas religiosas ortodoxas e de sua natureza mística, que desafia classificações claras dentro do Islã ou de outras religiões.

Nas últimas décadas, especialmente no Irã, os Yarsanis têm lutado pelo reconhecimento de sua identidade religiosa e por direitos iguais.

OS ALEVI CURDOS

Os Alevi Curdos são uma das comunidades religiosas mais singulares do Oriente Médio. Como parte do alevismo, uma corrente esotérica e mística do Islã, os Alevi Curdos preservam tradições que combinam elementos do xiismo, sufismo, zoroastrismo, maniqueísmo, cristianismo assírio e da antigo religião pré-islâmica curda. Sua visão espiritual valoriza a busca pela verdade interior, a igualdade e a convivência pacífica.

Os Alevi se autodenominam seguidores de um caminho místico conhecido como Yol (“o Caminho”), rejeitando interpretações rígidas da religião. Entre os curdos, o alevismo é não apenas uma identidade religiosa, mas também um elemento fundamental de resistência cultural e social, especialmente diante das adversidades históricas.

História

As raízes do alevismo remontam às primeiras divisões dentro do Islã, particularmente ao movimento xiita que apoiava Ali, primo e genro do Profeta Maomé. No entanto, o alevismo, especialmente em sua expressão curda, desenvolveu características próprias ao longo dos séculos, incorporando práticas e crenças das antigas tradições espirituais da Mesopotâmia.

O período do Império Otomano foi particularmente difícil para os Alevi Curdos, que frequentemente enfrentaram discriminação devido à sua recusa em adotar o Islã sunita ortodoxo. Muitos foram deslocados para regiões montanhosas, onde puderam preservar sua cultura e práticas religiosas. Essa marginalização contribuiu para que desenvolvessem uma forte identidade comunitária, baseada na solidariedade e na autonomia.

Escrituras e Cosmologia

Os Alevi Curdos possuem uma tradição predominantemente oral. Seus ensinamentos espirituais são transmitidos através de hinos e poemas sagrados conhecidos como Deyiş, frequentemente cantados em cerimônias religiosas. As escrituras centrais incluem o Buyruk, um compêndio de textos esotéricos que guia a prática espiritual.

A cosmologia alevi é fundamentada na crença de que Deus manifesta-se tanto na natureza quanto nos seres humanos. A santidade é vista em toda a criação, e os seres humanos são considerados reflexos da divindade. Essa visão é acompanhada pela doutrina dos Quatro Portais e Quarenta Passos, que simboliza a jornada espiritual do indivíduo para a perfeição e a união com o divino.

Rituais e Práticas

O principal ritual alevi é o Cem, uma cerimônia comunitária que combina oração, música, dança sagrada (semah) e compartilhamento de alimentos. Durante o Cem, homens e mulheres participam igualmente, em um ambiente que valoriza a harmonia e a conexão espiritual.

A música e a poesia desempenham papéis centrais, com o uso do saz (um tipo de alaúde) para acompanhar os cânticos espirituais. Essas práticas são vistas como formas de alcançar estados elevados de consciência e proximidade com Deus.

Os Alevi Curdos também celebram festivais como o Ashura, que rememora o martírio de Hussein, neto do Profeta Maomé, e o Hızır Lokması, dedicado a Hızır (Khidr), uma figura espiritual de proteção e ajuda divina.

Identidade e Perseguição

Como minoria religiosa e étnica, os Alevi Curdos enfrentaram séculos de marginalização. Em países como a Turquia, muitas vezes sofreram repressões políticas e culturais, especialmente durante períodos de nacionalismo exacerbado. Sua prática religiosa distinta, como a ausência de mesquitas formais e a rejeição de certas normas islâmicas tradicionais, frequentemente foi mal compreendida ou vista como herética.

O movimento alevi também desempenha um papel importante nas lutas por justiça social, igualdade de gênero e direitos das minorias na região. Para os Alevi Curdos, a espiritualidade está profundamente entrelaçada com a luta por dignidade e liberdade.

YazidisYaresanisAlevis Curdos
OrigensReligiões mesopotâmicas antigas, pré-ZoroastrianismoReligiões iranianas pré-islâmicas, Islã SufiIslã Shia, crenças populares da Anatólia
DivindadeDeus único, Tawûsê Melek (anjo principal)Deus único, encarnações divinas (avatares)Deus único, Ali (figura central)
Crenças-chaveReencarnação, pureza, hierarquia social rígidaReencarnação, “verdade”, “pureza”, guias espirituais (pirs)Conhecimento espiritual, luz interior, comunidade, justiça social
Textos SagradosKitêba Cilwe, Mishefa ReşKalam-e Saranjam, Daftar-e Khannagah, tradições oraisBuyruk, tradições orais, poesia de santos
PráticasPeregrinação ao Monte Sinjar, endogamia, rituais únicosEncontros Jam’khaneh, música, poesia, restrições alimentaresCerimônias Cem, música, dança, peregrinação
Estrutura SocialSistema de castas rígidoMais igualitáriaMais igualitária
Relação com o IslãIdentidade distintaLaços mais próximosLaços mais próximos

SAIBA MAIS

Açıkyıldız, Birgül. The Yezidis: The History of a Community, Culture and Religion. I.B. Tauris & Company, 2014.

Arakelova, Victoria. “Yezdistan versus Kurdistan: Another Legend on the Origin of the Yezidis.” Iran and the Caucasus, vol. 21, 2017.

Deniz, Dilşa. Kurdish Alevi Belief System, Rêya Heqî/Raa Haqi: Structure, Networking, Ritual, and Function. Lexington Books, 2019.

Hamzeh’ee, M. Reza. The Yaresan: A Sociological, Historical, and Religio-Historical Study of a Kurdish Community. K. Schwarz, 1990.

Kreyenbroek, Philip. God First and Last: Religious Traditions and Music of the Yaresan of Guran. Harrassowitz Verlag, 2020.

Kreyenbroek, Philip G. Yezidism—Its Background, Observances, and Textual Tradition. Texts and Studies in Religion 62, Edwin Mellen Press, 1995.

Kreyenbroek, Philip G., et al. Yezidism in Europe: Different Generations Speak About Their Religion. Harrassowitz Verlag, 2009.

Reshid, Tosine. “Yezidism: Historical Roots.” International Journal of Kurdish Studies, vol. 19, no. 1–2, 2005.

Rodziewicz, A. “Tawus Protogonos: Parallels Between the Yezidi Theology and Some Ancient Greek Cosmogonies.” Iran and the Caucasus, vol. 18, no. 1, 2014, pp. 27–45.

Rodziewicz, A.. “Yezidi Eros: Love as The Cosmogonic Factor and Distinctive Feature of The Yezidi Theology in the Light of Some Ancient Cosmogonies.” Fritillaria Kurdica, vol. 41, no. 3, 2014, pp. 42–105.

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Atualizado em 13 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é cientista da religião e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2024)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2024)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Três religiões curdas: Yazidi, Yarsan e Alevi. Ensaios e Notas, 2024. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2024/12/03/tres-religioes-curdas-yazidi-yarsan-e-alevi/. Acesso em: 13 jan. 2026.

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