1. o que é a ciência cognitiva?
A ciência cognitiva é um campo multidisciplinar que reúne contribuições da psicologia, da neurociência, da linguística, da filosofia, da antropologia, da inteligência artificial e, de modo mais periférico, da educação. O campo costuma ser datado do simpósio do MIT de 1956 e da chamada “revolução cognitiva”, que se opôs ao behaviorismo. O termo é atribuído a Christopher Longuet-Higgins, na década de 1970, e a Cognitive Science Society e sua revista foram fundadas no final dessa década.
A ciência cognitiva funciona como ponte entre diferentes culturas intelectuais. Seu objetivo é permitir que disciplinas distintas compartilhem conhecimentos sobre o pensamento e o comportamento humanos, o que é importante porque cada disciplina aborda a cognição com seus próprios conceitos, métodos e problemas.
A definição do campo também mudou. Inicialmente, associava-se à investigação de modelos computacionais da mente (o paradigma computacional-representacional). Com o conexionismo e as abordagens corporificadas, situadas e enativas, tornou-se mais abrangente, passando a investigar as relações entre mentes, cérebros e comportamento sem depender necessariamente desses modelos.
2. Conceitos centrais: cérebros, comportamento e mentes
O cérebro é uma entidade física, mensurável e de extraordinária complexidade. A relação entre essa materialidade observável e os fenômenos mentais constitui um dos problemas fundamentais do campo.
O comportamento deve ser distinguido do simples movimento. Um movimento pode ocorrer sem finalidade atribuível, enquanto o comportamento envolve intenção ou orientação a um objetivo. A distinção introduz o papel do observador, pois identificar um movimento como comportamento depende, em alguma medida, da interpretação de sua finalidade.
O conceito de mente é mais abstrato e problemático. Historicamente, associou-se a noções como alma, consciência, inteligência e experiência, cada uma com sua maneira de compreender a mente.
Em uma leitura possível, a cognição é uma espécie de epistemologia prática: envolve a relação entre quem conhece e aquilo que é conhecido. Essa formulação supõe uma separação entre sujeito e mundo, que as abordagens corporificadas e enativas contestam, ao tratar a cognição como dinâmica relacional entre organismo e ambiente.
3. Fundamentos filosóficos clássicos
As raízes filosóficas da ciência cognitiva remontam a problemas antigos sobre conhecimento, realidade, mudança e permanência. Entre os pré-socráticos, destaca-se a oposição entre Parmênides e Heráclito.
Para Parmênides, o ser é uno, imutável e eterno, e a mudança é aparência. Sua perspectiva privilegia a permanência e a estabilidade, e inspira modelos que descrevem a realidade por estados fixos.
Heráclito, em contraste, enfatiza o fluxo, o processo e a mudança contínua, regidos por uma ordem racional (logos). A ideia é associada à formulação, transmitida em paráfrases como a de Platão no Crátilo, de que ninguém entra duas vezes no mesmo rio: o rio permanece como referência, mas suas águas mudam sempre.
A oposição oferece duas maneiras fundamentais de compreender a realidade: uma por estados e modelos estáticos, outra por processos e transformação. Essa tensão reaparece na ciência cognitiva, entre representações simbólicas estáticas e abordagens dinâmicas, como o conexionismo e os sistemas dinâmicos.
4. A tradição racionalista e o dualismo cartesiano
Na tradição racionalista, René Descartes representa uma posição central. Ele atribui prioridade à razão e à dedução lógica sobre a percepção sensorial e busca um conhecimento seguro, que resista à dúvida.
Essa busca conduz ao cogito, expresso no Discurso do método (1637) como “penso, logo existo” e nas Meditações (1641) como “sou, existo”. Pela dúvida radical, Descartes encontra na própria atividade de pensar uma certeza fundamental: o ato de pensar demonstra a existência de quem pensa.
O dualismo cartesiano separa res cogitans, a substância pensante, da res extensa, a matéria extensa, física e espacial. Essa separação gera o problema da interação entre mente e corpo, formulado a Descartes por Elisabeth da Boêmia: se são substâncias distintas, como podem interagir? A decisão de mover uma parte do corpo parece pertencer à mente, e o movimento efetivo, ao domínio material. Descartes propôs a glândula pineal como ponto de contato, solução considerada insatisfatória.
Diversas soluções foram propostas depois: o interacionismo, o epifenomenalismo e o paralelismo psicofísico, que teve versões históricas no ocasionalismo de Malebranche e na harmonia preestabelecida de Leibniz. Todas enfrentaram dificuldades que impediram uma solução plenamente satisfatória.
Também o mecanicismo moldou a discussão. O próprio Descartes concebia o corpo como uma máquina, e a mecânica newtoniana (Principia, 1687) reforçou essa visão, ao oferecer uma explicação sistemática do comportamento da matéria inanimada. O corpo passou a ser concebido, em parte, segundo o modelo de uma máquina sujeita a leis mecânicas.
5. A resposta dos empiristas britânicos
O empirismo britânico desenvolveu-se em oposição ao racionalismo, em particular à tese das ideias inatas, embora tenha raízes anteriores em Bacon e Hobbes. Seu princípio central é que o conhecimento se funda na experiência sensorial.
Seus principais representantes são John Locke, George Berkeley e David Hume. Cada um desenvolveu uma versão própria: Locke com a mente que recebe ideias da experiência, Berkeley com um idealismo (esse est percipi, ser é ser percebido) e Hume com um empirismo cético. Todos investigaram a origem e os limites do conhecimento humano.
Hume levou a abordagem a consequências radicais ao questionar um eu interno fixo. No Tratado da natureza humana, a experiência não revela uma entidade permanente por trás das percepções: o eu seria um feixe delas. A posição aproxima-o do ceticismo e, para alguns intérpretes, de concepções budistas do não eu, comparação frequente, mas controversa. ⚠
Outro problema clássico é o de Molyneux, formulado em carta a Locke (1688) e discutido no Ensaio sobre o entendimento humano. Pergunta se uma pessoa cega de nascença que aprendeu a distinguir uma esfera de um cubo pelo tato poderia, ao recuperar a visão, identificá-los imediatamente pela vista. O problema investiga a relação entre modalidades sensoriais e se o conhecimento adquirido por uma delas se transfere à outra. Estudos contemporâneos com pessoas que recuperaram a visão (Held e colaboradores, 2011) sugerem que a resposta imediata é negativa, com integração rápida depois.
6. Racionalismo e empirismo: comparação
A diferença entre as duas tradições pode ser compreendida em quatro questões: a fonte do conhecimento, a condição da mente no nascimento, o grau de certeza alcançável e o modo de avaliá-lo.
Para o racionalismo (Descartes, mas também Spinoza e Leibniz), a fonte é a razão, a dedução e as ideias inatas. Trata-se de uma concepção a priori (termos que Kant sistematizaria depois), segundo a qual certos conhecimentos independem da experiência sensorial.
Para o empirismo (Locke, Hume), a fonte é a experiência sensorial, a indução e a observação: concepção a posteriori.
Divergem também sobre a condição da mente. O racionalismo a concebe como dotada de faculdades e ideias inatas. O empirismo, sobretudo em Locke, aproxima-se da tabula rasa (a metáfora é de origem aristotélica), uma “tábula rasa” em que a experiência escreve as ideias; Locke, porém, admite capacidades da mente. Leibniz replicou que nada está no intelecto sem ter estado antes nos sentidos, exceto o próprio intelecto.
Quanto à certeza, o racionalismo busca verdades fundamentais indubitáveis. O empirismo tende a conceber o conhecimento em termos probabilísticos, aberto à revisão. A dicotomia é didática, pois Locke admite o conhecimento intuitivo e demonstrativo.
As duas tradições estabeleceram, assim, duas maneiras de pensar a cognição: uma que enfatiza razão, dedução, estruturas inatas e certezas fundamentais, outra que enfatiza a experiência, a indução e um conhecimento revisável. Kant propôs uma síntese, segundo a qual a experiência fornece o conteúdo e a mente, as formas que o estruturam. O debate prossegue na ciência cognitiva, por exemplo no inatismo de Chomsky (próximo, para ele mesmo, de Descartes) e no conexionismo, de orientação mais empirista.
SAIBA MAIS
Descartes, R. (1637). Discurso do método; (1641). Meditações.
Hume, D. (1739-1740). Tratado da natureza humana.
Kant, I. (1781). Crítica da razão pura.
Locke, J. (1689). Ensaio sobre o entendimento humano.
Miller, G. A. (2003). “The cognitive revolution: a historical perspective”. Trends in Cognitive Sciences 7(3).
Varela, F.; Thompson, E.; Rosch, E. (1991). The Embodied Mind.
Held, R. et al. (2011). “The newly sighted fail to match seen with felt”. Nature Neuroscience 14.
Recomendo as séries de vídeos do prof. https://www.youtube.com/@FredCummins

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