Beethoven: Sonata ao luar

Sonata para piano n.º 14, Op. 27 n.º 2, Beethoven

No começo do século XIX, Beethoven acostumava a passar temporadas na casa do janeiro do castelo de Unterkrupa, pertencente à família austro-húngara Brunsvik. Cercado pela beleza dessa área hoje na Eslováquia, compôs a sonata quasi una fantasia, mais tarde dedicada à sua aluna condessa Julie Guicciarde (seria sua Amada Imortal?). Logo, a sonata tornou-se popular e atencedeu o romantismo. É a música de uma saudade gostosa.

A sonata expressa uma emoção nostálgica. Suas harmonias delicadas e mudanças sutis no andamento remetem a um clima tranquilo e contemplativo, daí a designação póstuma de sonata ao luar. A sonata possui um melodia que prende por sua beleza. Sua tonalidade de dó sustenido menor (mesmo C# modo eólio) aumenta gradualmente em intensidade e complexidade à medida que avança. Aparecem arpejos, trinados e contrastes para criar uma sensação de movimento e tensão, ao mesmo tempo que a música expressa momentos de sublime tranquilidade.

Na Sonata “Quasi una Fantasia” em dó sustenido menor, Op. 27 nº 2, Ludwig van Beethoven realizou uma reorganização decisiva do modelo clássico de sonata para piano. A obra manteve a tripartição em movimentos, mas subverteu sua hierarquia interna, deslocando o centro de gravidade para o final. O resultado não seguiu o padrão tradicional rápido–lento–rápido (como nas sonatas de Haydn ou Mozart); apresentou, antes, um percurso progressivo, no qual a tensão foi acumulada desde o início e liberada apenas no desfecho explosivo.

A sonata foi composta em 1801, quando Beethoven tinha trinta anos, em um momento em que os primeiros sinais de sua surdez já se tornavam evidentes, adicionando uma camada de tragédia pessoal à criação. A obra foi dedicada à condessa Giulietta Guicciardi, jovem aristocrata de 17 anos que fora sua aluna e por quem o compositor se apaixonou. A relação afetiva não se concretizou em casamento devido à diferença de posição social, e Giulietta casou-se com o conde von Gallenberg em 1803. A sonata foi publicada em Viena, em 1802, pela editora Cappi, com o título “Sonata quasi una fantasia per il clavicembalo o pianoforte”.

A designação “quasi una fantasia” foi a chave para o rompimento consciente das convenções. Enquanto o modelo clássico exigia um primeiro movimento em forma-sonata normativa e afirmativa, Beethoven buscou uma abertura meditativa. O apelido “Ao Luar” (Mondscheinsonate), por sua vez, não pertenceu ao compositor. Foi atribuído apenas em 1832 (cinco anos após sua morte) pelo poeta e crítico Ludwig Rellstab, que comparou o primeiro movimento à imagem de um barco sob a luz da lua no lago de Lucerna, com “cisnes fantasmais”. Essa metáfora romântica moldou de forma duradoura a recepção da obra.

Franz Liszt sintetizou a disposição da obra ao descrevê-la como “uma flor entre dois abismos”.

I. Adagio sostenuto. O primeiro movimento, em dó sustenido menor, funciona como o primeiro “abismo” de introspecção. Ele foge da forma-sonata tradicional, assemelhando-se a uma “forma canção” ou sonata truncada. É construído sobre três camadas texturais distintas:

  • Baixo: Notas graves em oitavas sustentadas pela mão esquerda.
  • Plano Intermediário: Um fluxo ininterrupto e hipnótico de tercinas de semicolcheias pela mão direita.
  • Soprano: Uma linha melódica simples, lamentosa e espaçada que emerge no registro superior.

Beethoven incluiu a instrução revolucionária: “Si deve suonare tutto questo pezzo delicatissimamente e senza sordino” (deve-se tocar toda a peça delicadamente e sem abafadores). Isso indica o uso contínuo do pedal de sustentação para que as harmonias se fundam em um efeito etéreo. Formalmente, o movimento apresenta uma exposição que modula da tônica para a relativa maior (Mi maior), uma seção intermediária sobre um longo pedal de dominante (Sol#) e uma reexposição que consolida a tonalidade principal em dó sustenido menor. Hector Berlioz descreveu-o como um poema que a linguagem humana não sabe qualificar.

II. Allegretto. O segundo movimento assume a função de intermezzo, sendo a “flor” de Liszt. Escrito em Ré bemol maior (equivalente enarmônico da tonalidade maior paralela, Dó sustenido maior), introduz um contraste de luminosidade e alívio lírico. Sua forma é ternária (Minueto e Trio), com uma seção inicial graciosa em staccato. Sua posição estrutural funciona como uma suspensão necessária entre os dois extremos emocionais da obra.

III. Presto agitato. O terceiro movimento é o segundo “abismo”, onde a energia acumulada é liberada em uma explosão catártica. Estruturado em forma-sonata na tônica dó sustenido menor, apresenta caráter tempestuoso e escrita altamente virtuosística, com arpejos ascendentes rápidos, cromatismos e acentuações fortes (sforzando). Charles Rosen observou que sua ferocidade permanece espantosa mesmo após dois séculos. Há indícios de que o tema principal deriva, por transformação, do material do primeiro movimento: o que era um lamento contido converte-se em fúria desenfreada. Conta a lenda que, na estreia, Beethoven tocou com tal intensidade que chegou a partir várias cordas do piano.

A recepção da obra foi imediata e entusiática, o que por vezes exasperava o compositor. Beethoven afirmou a Carl Czerny: “certamente já escrevi coisas melhores”, mas o apelo da obra, definido por Joseph Kerman como um estado de mestizia (tristeza) romântica, capturou o público de modo direto.

Historicamente, a sonata influenciou a narrativa musical do século XIX, servindo de antecedente para obras como a Fantasie-Impromptu de Frédéric Chopin. Sua presença na cultura popular é vasta, figurando em filmes como O Pianista (2002) e Titanic (1997). Como observou o pianista Murray Perahia, a obra permanece um mistério que soa improvisado, mas onde cada nota está estritamente conectada, consolidando o Beethoven herói que transformou tragédia pessoal em arte revolucionária.

Atualizado em 18 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega. Toca violino.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2024)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2024)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Beethoven: Sonata ao Luar. Ensaios e Notas, 2024. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2024/04/21/beethoven-sonata-ao-luar/. Acesso em: 18 jan. 2026.

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