CARVALHO, José Murilo de. Mandonismo, coronelismo, clientelismo: uma discussão conceitual. Dados, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, 1997. https://doi.org/10.1590/S0011-52581997000200003
Artigos acadêmicos raramente se tornam clássicos. Este é um deles. Em pouco mais de vinte páginas publicadas na revista Dados em 1997, o historiador José Murilo de Carvalho (1939–2023) não propõe uma nova teoria da política brasileira; faz algo mais necessário e, a seu modo, mais difícil. Isso porque exige que os termos já em uso signifiquem algo preciso. O alvo é a imprecisão que havia se instalado no vocabulário das ciências sociais brasileiras: mandonismo, coronelismo, clientelismo, patrimonialismo e feudalismo circulavam nos textos acadêmicos e no debate público como sinônimos intercambiáveis, quando designam fenômenos distintos, com causas, mecanismos e períodos históricos próprios. Confundi-los não é apenas um erro de taxonomia; é uma forma de não entender o que se está descrevendo.
Visva distinguir com rigor os conceitos de mandonismo, coronelismo e clientelismo. Para isso, Carvalho propôs definições que os separem analiticamente, identifiquem suas inter-relações possíveis e os ancorem nos períodos históricos a que pertencem.
Tese
Mandonismo, coronelismo e clientelismo não são variantes do mesmo fenômeno. São formas específicas de organização do poder, com bases materiais, mecanismos de funcionamento e durações históricas distintas. Tratá-los como equivalentes obscurece mais do que ilumina e impede que se compreenda por que certas práticas desapareceram com a estrutura social que as gerou enquanto outras atravessam regimes e contextos sem se dissolver.
Teoria e metodologia
O método é o da análise conceitual rigorosa, mais próximo da filosofia política analítica do que da sociologia histórica de longa duração praticada por Faoro ou Leal. Carvalho não constrói um novo argumento empírico; reconstrói o vocabulário disponível a partir de uma leitura crítica da literatura existente. A operação é a de um cartógrafo que descobre que os mapas em circulação confundem países diferentes sob o mesmo nome e decide redrawá-los com coordenadas precisas.
A contribuição metodológica central é a proposta de vincular cada conceito a um momento histórico específico. Isso não significa que o fenômeno não possa ter antecedentes ou desdobramentos, mas que sua forma acabada e mais característica pertence a uma conjuntura determinada. Aplicar “coronelismo” ao período colonial ou ao Brasil urbano contemporâneo não é ampliar o conceito; é esvaziá-lo.
Os três conceitos
O mandonismo é o mais antigo e o mais difuso dos três. Designa o poder pessoal e arbitrário de um indivíduo sobre um grupo social, baseado no controle de recursos materiais — terra, gado, armas, homens — e na imposição da vontade pela força ou pela autoridade tradicional. É uma relação de dominação pessoal e assimétrica que dispensa a mediação do Estado; pode existir com ele, ao lado dele ou apesar dele. O mandonismo atravessa o período colonial, o Império e boa parte do século XX, adaptando-se a diferentes contextos sem alterar sua lógica essencial. Todo coronel exercia mandonismo, mas nem todo mandonista era coronel. Essa distinção importa.
O coronelismo é um fenômeno historicamente delimitado à Primeira República (1889–1930). Carvalho retoma a definição de Victor Nunes Leal — a relação de compromisso entre poder privado decadente e poder público fortalecido — e a usa como ponto de partida para precisar o que torna o coronelismo um sistema político específico, e não apenas uma variante do mandonismo. O elemento definidor é o mecanismo eleitoral: o coronelismo pressupõe que o voto se tenha tornado o principal instrumento de legitimação do poder, mas que o eleitorado rural permaneça sob controle dos grandes proprietários. Sem eleições, não há coronelismo, mas há mandonismo. Quando as eleições desaparecem ou quando o eleitorado deixa de ser predominantemente rural e dependente, o coronelismo clássico se desfaz, ainda que seus hábitos possam sobreviver de outras formas.
O clientelismo é o mais persistente e o mais adaptável dos três. Define-se como uma relação de troca de favores entre atores políticos: benefícios públicos — cargos, verbas, obras, serviços — são trocados por apoio político — votos, lealdade, mobilização. O que distingue o clientelismo dos outros dois conceitos é, precisamente, sua plasticidade. Ele não exige uma figura central de poder; pode operar em redes difusas de intermediários. Não depende da estrutura agrária; sobrevive em contextos urbanos, industrializados e formalmente democráticos. Não é exclusivo da República Velha; persiste e se reinventa após 1930, atravessando o varguismo, a democracia populista, o regime militar e a Nova República. É, dos três fenômenos, o único que continua plenamente operativo na política brasileira contemporânea.
Inter-relações e sobreposições
A distinção analítica não implica separação empírica absoluta. Na prática histórica, os três conceitos se sobrepõem. O coronel da Primeira República era simultaneamente um mandonista local, um ator de um sistema clientelista e uma peça de um arranjo estamental que Faoro descreveria como patrimonial. A diferença entre confundir esses planos e distingui-los não é apenas terminológica: é a diferença entre atribuir à “cultura política brasileira” em geral o que resulta de estruturas específicas e historicamente datadas, e compreender por que certas práticas persistem enquanto outras desaparecem quando as condições que as sustentavam se transformam.
Carvalho alerta especialmente para o risco de anacronismo. Quando analistas contemporâneos falam em “coronelismo” para descrever um político municipal que distribui empregos em troca de votos, estão usando uma metáfora onde deveriam usar um conceito. O fenômeno descrito pode ser clientelismo ou mandonismo reinventado; dificilmente é coronelismo no sentido preciso de Leal, porque a estrutura agrária e a dependência total do trabalhador rural que sustentavam aquele sistema não existem mais da mesma forma.
Consequências para o estudo da democracia
A persistência do clientelismo — o único dos três fenômenos que Carvalho considera plenamente contemporâneo — ajuda a explicar uma das dificuldades mais duradouras da política brasileira: a construção de uma cidadania universal e de uma esfera pública fundada na lógica dos direitos. Onde o favor substitui o direito e a lealdade pessoal substitui o voto consciente, as instituições democráticas funcionam formalmente sem produzir seus efeitos esperados. As eleições ocorrem; a representação, em sentido substantivo, permanece precária.
Recepção
O artigo acumulou mais de centenas citações acadêmicas documentadas, número expressivo para um texto de ciências sociais brasileiras, e tornou-se referência obrigatória em cursos de ciência política, história e sociologia. Sua influência se estende aos estudos sobre federalismo fiscal. Com base nele, pesquisadores investigam se a Constituição de 1988 abriu ou fechou espaço para práticas clientelistas nas relações entre Executivo e Legislativo, Ainda é lido nas análises da administração pública municipal e aos debates sobre reforma política.
O autor
José Murilo de Carvalho nasceu em Santo Antônio do Rio Abaixo, Minas Gerais, em 1939. Formou-se em ciências sociais e fez doutorado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Academia Brasileira de Letras, é um dos mais rigorosos historiadores da política brasileira em atividade. Entre seus livros mais conhecidos estão A construção da ordem (1980), sobre a elite política imperial, Os bestializados (1987), sobre a não participação popular na proclamação da República, e Cidadania no Brasil: o longo caminho (2001), talvez sua obra de maior alcance público.
Saiba mais
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Campus, 1980.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. 7. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder. 3. ed. rev. São Paulo: Globo, 2001.

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