Simone Weil

A filósofa Simone Weil (1909-194 ) era filha de pais judeus secularizados. Nascida e criada na cosmopolita Paris do fin-de-siècle, seria uma voz lúcida meio aos erráticos anos que levaram à ascenção do totalitarismo, deshumanização e a Segunda Guerra.

Pensamento de Simone Weil

A jornada intelectual de Weil combinou influências diveras, incluindo Platão, Pitágoras, os estóicos e a filosofia oriental. Weil traduziu o “Timeu” e escreveu sobre geometria pitagórica. Seu platonismo não era “místico” apenas.

Em suas obras notáveis, como “La Pesanteur et la Grâce” (Gravidade e Graça) e “L’Enracinement” (A Necessidade de Raízes), Weil mergulhou nos meandros das questões sociais, defendendo um programa de justiça e reorganização social do trabalho. Weil escreveu sobre “índios americanos” e sobre o império britânico. Criticou as organizações industriais por desumanizarem os trabalhadores e apelou a uma reestruturação que incluísse valores espirituais e a consciência dos trabalhadores sobre a sua dignidade e responsabilidade.

A filosofia de Weil estendeu-se além do domínio sócio-político, atingindo o religioso e o místico. Sua conversão ao cristianismo em 1937 marcou uma mudança significativa. A filósofa explorou a relação entre espiritualidade e vida terrena. Weil acreditava na importância do crescimento espiritual, enfatizando a necessidade de os indivíduos se sentirem enraizados tanto na comunidade quanto no reino espiritual.

O tema central da filosofia de Weil era a dupla natureza da humanidade, ameaçada por forças externas e pelo coletivismo. Defendeu o reconhecimento dos deveres eternos e a importância da responsabilidade individual para com os outros. As percepções de Weil sobre os efeitos da cultura material de massa sobre o espírito humano, o papel do sofrimento no crescimento espiritual e as limitações do conhecimento humano deixaram um impacto duradouro no discurso filosófico. Refletiu sobre o impacto da cultura material de massa no espírito humano, particularmente em termos de erosão da liberdade e fragmentação do conceito de comunidade.

O pensamento de Weil também ressoa em suas reflexões sobre estética, enfatizando o significado da beleza em revelar verdades sobre o mundo e inspirar as ações humanas. As suas opiniões sobre a importância da arte e da poesia, especialmente na superação do sofrimento, refletem uma compreensão matizada da experiência humana.

Curiosamente, Weil optou por não ser autora de nenhum livro, mas expressou suas percepções por meio de cartas, diários e ensaios.

A combinação destes dois fatos – o anseio profundo do coração pelo bem absoluto e o poder, ainda que apenas latente, de dirigir a atenção e o amor para uma realidade além do mundo e de receber dela o bem – constitui um elo que une todo homem, sem exceção, a essa outra realidade. Quem reconhece essa realidade também reconhece essa ligação. Por causa disso, ele considera todo ser humano, sem exceção, algo sagrado, ao qual é obrigado a mostrar respeito.

Esta é a única razão possível para o respeito universal por todos os seres humanos. Independentemente da formulação de crença ou descrença que um homem escolha adotar, se o seu coração o inclinar a sentir este respeito, então ele de fato também reconhece uma realidade diferente da realidade deste mundo. Quem de fato não sente esse respeito é alheio também a essa outra realidade. -Rascunho de uma Declaração de Obrigações Humanas (1943).

Alguns pilares de sua filosofia:

  • Atenção (attention): para Weil, a atenção é a forma suprema de oração e o método fundamental para o conhecimento e a justiça. É um “esperar vazio” e desinteressado, oposto à concentração voluntarista. É através dela que podemos “ouvir” o sofrimento do outro e perceber a verdade.
  • Raízes (enracinement): mais do que uma metáfora, é uma necessidade da alma. São os mediadores (cultura, comunidade, trabalho significativo, ligação com o passado) que permitem ao ser humano participar do sagrado e se proteger da “gravidade” das forças sociais desumanizantes (o Estado, o Dinheiro, o Partido).
  • Gravidade e graça (Pesanteur et la grâce): são as duas forças que regem o universo espiritual. A gravidade é a lei mecânica do egoísmo, da violência, do poder, que puxa tudo para baixo. A graça é a força descendente de Deus, que interrompe essa mecânica através do amor desinteressado, da beleza e do sofrimento aceitado (a “des-criação” do eu).
  • Des-criação (décréation): conceito central. Não é aniquilação, mas um esvaziamento do “eu” para que Deus possa habitar o espaço. É o oposto da auto-afirmação; é um consentimento em não ser, para que a verdade e o amor do outro possam ser.

A radicalidade de Weil não está isenta de contestações. Críticos apontam que seu ascetismo extremo — uma busca pela pureza que a levou a recusar alimentos e confortos básicos — beirou o autoaniquilamento, tornando-se paradoxalmente uma negação da vida que tanto prezava. Outros questionam uma certa idealização do sofrimento em sua mística, que poderia ser lida como uma glorificação passiva da dor. No campo religioso, sua rejeição veemente ao judaísmo (que chegou a qualificar como uma religião de “proprietários” e não de “místicos”) e sua visão de um cristianismo desencarnado, desvinculado da história e das instituições eclesiásticas, são frequentemente vistas como problemáticas e até gnósticas. Contudo, é precisamente sua intransigência que garante sua atualidade. Weil antecipou, com rara lucidez, as críticas ao totalitarismo (seja de Estado, seja de mercado), à sociedade de consumo desenraizante e à razão instrumental que despreza o sagrado. Seu pensamento ressoa em autores como Albert Camus (que a admirava profundamente), Iris Murdoch (que desenvolveu sua noção de “atenção” como base ética) Giorgio Agamben (que retoma “des-criação” em Homo Sacer) ou Maria Zambrano (diálogo espanhol com Weil). Ressoa também em pensadores contemporâneos da ecologia profunda e da filosofia política, que nela encontram ferramentas para criticar a tecnocracia e defender uma relação humilde e enraizada com o mundo. Sua obra permanece, assim, um desafio vivo — incômoda, contraditória e indispensável para quem pensa os limites da justiça, da espiritualidade e da resistência em um mundo esmagado pela gravidade do poder.

A vida de Simone Weil: brilhantismo e desafios

A vida de Simone Weil foi um enfrentamento de vários desafios. Era desajeitada. Seus maneirismos e vestimentas peculiares deram-lhe a impressão de ser uma pessoa excêntrica. Lutava contra dores de cabeça insuportáveis, fragilidade e exaustão devido à deficiência nervosa e à desnutrição. As tribulações físicas de Weil ficaram evidentes desde o início.

A sua educação no Collège Henri IV e na École Normale Supérieure deu um funamento consolidado para suas investigações nas complexidades da condição humana. Na prestigiosa École Normale Supérieure entrou em primeiro lugar no vestibular e formou-se com a maior nota da sua turma.

De 1931 a 1934, iniciou a carreira docente em várias cidades francesas. Admirando os trabalhos manuais, trabalhou numa fábrica em Paris por quatro meses. Em 1936, ela se aventurou na Espanha com a intenção de se juntar às tropas republicanas e anarquistas da linha de frente como cozinheira de batalhão, mas desistiu logo.

A virada na vida de Weil ocorreu em 1937, quando, após uma série de experiências místicas, abraçou o cristianismo. Sumarizou essas experiências com uma frase: “O próprio Cristo desceu e me levou”. Este encontro espiritual transformador redirecionou seu foco e começou a escrever extensivamente sobre questões religiosas. Apesar da sua ligação de fé, ela recusou o batismo. Sua jornada espiritual seria íntima, solitária e reflexiva.

Apoiadora da França Livre, foi para Londres em 1942, onde contraiu tuberculose. Weil recusou a consumir mais alimentos do que os seus compatriotas, sucumbiu à anorexia nervosa e faleceu num asilo.

Sua recusa ao batismo simboliza a tensão permanente em sua vida: uma adesão fervorosa ao Cristo como Verdade, acompanhada de uma desconfiança radical perante todas as instituições — Igreja, partidos, nação — que, ao se organizarem, traem, segundo ela, o espírito que lhes deu origem.

SAIBA MAIS

Hellman, John. Simone Weil. Atlantic Highlands, N.J., 1982.

Kempfner, G. La Philosophie mystique de Simone Weil. La Colombe Paris, 1960.

McClellan, D. Simone Weil: Utopian Pessimist. Macmillan London, 1989.

Weil, Simone. Gravity and Grace. Plon Paris, 1947. Gravity and Grace. London: Ark Paperbacks, 1987.

Weil, Simone. L’Enracinement Gallimard Paris, 1950. The Need for Roots. London: ArkPaperbacks, 1987

Weil, Simone. L’Attente de Dieu. Gallimard Paris, 195). Waiting on God. London: Routledge & Kegan Paul, 1951.

Weil, Simone. La Condition ouvrière. Gallimard Paris, 1951.

Weil, Simone. Lettre à un religieux. Gallimard Paris, 1951.

Weil, Simone. Oppression et liberté. Gallimard Paris, 1955. Oppression and Liberty. London: Ark Paperbacks, 1988.

Weil, Simone. Oeuvres Complètes. 4 vols. Gallimard Paris, 1988.

White, George Abbott. “Simone Weil’s Bibliography: Some Reflections on Publishing and Criticism.” In Simone Weil: Interpretations of a Life. Amherst, Mass., 1981.

Winch, P. Simone Weil: The Just Balance. Cambridge University Press Cambridge, 1989.

Atualizado em 19 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2024)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2024)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Simone Weil. Ensaios e Notas, 2024. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2024/01/06/simone-weil/. Acesso em: 19 jan. 2026.

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