A reflexão crítica sobre a natureza da religião não é privilégio da modernidade. Séculos antes da era cristã, filósofos gregos já especulavam sobre as origens e funções das crenças religiosas, antecipando temas que ressoariam nas teorias modernas da religião. Estas investigações antigas — que vão da crítica antropomórfica à hipótese política da religião como controle social — revelam uma tradição intelectual sofisticada que questionava a literalidade das narrativas divinas sem necessariamente abandonar toda dimensão do sagrado.
Este ensaio examina quatro abordagens gregas clássicas para compreender a religião: a crítica da projeção antropomórfica (Xenófanes), as hipóteses psicológicas do medo e da gratidão (Demócrito e Pródico), a teoria política da religião como invenção para controle social (Crítias) e a interpretação evemerista dos deuses como humanos divinizados (Euhêmero). Cada uma dessas perspectivas oferece insights que antecipam debates contemporâneos sobre natureza, função e origem das crenças religiosas.

A crítica antropomórfica: Xenófanes e a projeção cultural
Xenófanes de Colofão (c. 570–478 a.C.), poeta-filósofo da tradição pré-socrática, oferece talvez a primeira crítica sistemática do antropomorfismo religioso. Embora ele próprio fosse crente — defendia a existência de um deus supremo, imóvel e não-antropomórfico —, sua observação sarcástica sobre a diversidade das representações divinas revelava uma consciência aguda da projeção cultural:
Os etíopes dizem que os seus deuses são de pele escura e possuem o nariz achatado, os trácios, que os seus são ruivos e de olhos azuis… Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pintariam os deuses sob forma de bois.
A ironia é notória. Xenófanes não apenas identifica que diferentes povos representam os deuses à sua própria imagem, mas extrapola o princípio ad absurdum: se animais pudessem criar arte religiosa, fariam deuses animais. A implicação é clara — as representações divinas dizem mais sobre os adoradores do que sobre qualquer realidade transcendente.
Essa crítica antecipa em mais de dois milênios a teoria da projeção desenvolvida por Ludwig Feuerbach no século XIX, segundo a qual a religião é um espelho onde a humanidade contempla suas próprias qualidades idealizadas. Xenófanes, porém, não conclui que os deuses são ilusões totais. Sua crítica visa o antropomorfismo — a tendência de atribuir características humanas ou culturalmente específicas ao divino — não a existência de uma realidade sagrada em si.
Platão, séculos depois, ecoaria preocupações similares ao criticar seus antecessores que defendiam que “os deuses são invenções humanas que não existem na natureza, mas apenas pelo costume e pela lei, que, aliás, diferem de um lugar para outro” (As Leis, 10). Para Platão, a variação cultural das crenças religiosas não invalidava a realidade do divino, mas exigia uma teologia mais sofisticada — menos antropomórfica, mais filosófica.
Hipóteses Psicológicas: Medo, Gratidão e as Raízes Emocionais da Religião
Demócrito e a teoria do medo
Demócrito de Abdera (c. 460–370 a.C.), contemporâneo de Sócrates e fundador do atomismo, ofereceu uma das primeiras teorias psicológicas da religião. Vivendo em um período de intensa circulação cultural na Grécia — Atenas absorvia influências de todo o mundo helênico —, Demócrito testemunhava o choque entre diferentes sistemas de crenças e práticas.
Como Xenófanes, ele distinguiu entre conhecimento genuíno e conhecimento convencional. As “imagens” (εἴδωλα) dos deuses pertenciam à última categoria — produtos de finos filmes de átomos que emanam dos objetos e impressionam os sentidos. Mas Demócrito identificou um mecanismo psicológico específico na formação dessas representações: o medo diante de fenômenos extraordinários.
Quando “homens de antigamente experimentavam medo de fenômenos extraordinários”, ao perceberem essas imagens aterrorizantes, “imaginaram que cada um era um deus, embora Deus, na realidade, seja apenas aquilo que tem natureza imperecível”. A religião, nesta perspectiva, emerge como resposta emocional — especificamente o terror — diante do incompreensível: trovões, eclipses, terremotos, morte.
Crucialmente, Demócrito não era ateu no sentido moderno. Embora os deuses antropomórficos fossem produtos da imaginação humana motivada pelo medo, ele acreditava que as próprias imagens divinas tinham base em algo real — aquelas “emanações” atômicas que, embora não fossem divindades conscientes, possuíam natureza eterna e imperecível. Há, portanto, uma distinção entre as formas culturais da religião (contingentes, humanas, nascidas do medo) e uma dimensão física real subjacente (as configurações atômicas imperecíveis).
Esta teoria antecipa, em estrutura, abordagens evolucionistas posteriores que localizam as origens da religião em respostas adaptativas ao medo e à incerteza. David Hume, no século XVIII, argumentaria similarmente que a religião natural emerge do medo e da esperança diante de forças incontroláveis. No entanto, a comparação com Ludwig Feuerbach exige cautela: embora ambos vejam na religião uma projeção humana, Feuerbach, no século XIX, desenvolveu sua teoria da projeção dentro de um contexto de idealismo alemão e antropologia filosófica — moldes conceituais ausentes na Grécia antiga. Onde Feuerbach via a religião como espelho da essência humana alienada, Demócrito via o medo diante de fenômenos naturais gerando ilusões sobre configurações atômicas reais. A semelhança estrutural existe; a genealogia conceitual, não.
Pródico e a teoria da gratidão
Pródico de Ceos (c. 470–400 a.C.), sofista contemporâneo de Demócrito, ofereceu uma hipótese psicológica alternativa: a religião surge não do medo, mas da gratidão.
Embora Pródico tenha sido incluído em listas antigas de “ateus”, outras indicações sugerem que, como Demócrito, ele provavelmente reconhecia uma dimensão autêntica do sagrado, mesmo criticando as formas convencionais da religião. Sua teoria propunha que os humanos divinizaram elementos naturais benéficos — o sol que aquece, a água que sacia, o pão que nutre — em reconhecimento de seus benefícios vitais.
Onde Demócrito via medo, Pródico via gratidão. Ambas são emoções primordiais que conectam humanos ao que os transcende. E ambas as teorias reconhecem que a religião, em suas formas culturais específicas, é mediada pela psicologia humana — o que não exclui necessariamente uma realidade transcendente subjacente.
As duas hipóteses não são mutuamente exclusivas. Tradições religiosas frequentemente combinam elementos de medo reverente (o tremendum de Rudolf Otto) e gratidão amorosa (a “dependência absoluta” de Schleiermacher). O terror diante da tempestade e a gratidão pela colheita podem coexistir, gerando sistemas religiosos complexos que articulam ambas as dimensões emocionais.
A hipótese política: crítias e a religião como controle Social
Uma perspectiva radicalmente diferente emerge na obra do dramaturgo e político ateniense Crítias (c. 460–403 a.C.). Em sua peça Sísifo, um personagem proclama:
Um homem de espírito sagaz e sutil inventou para os homens o medo dos deuses, de modo que possa haver algo para assustar os maus, mesmo que eles ajam, falem ou pensem em segredo. A partir deste motivo, ele introduziu a noção de divindade… Há, segundo ele, um espírito gozando a vida sem fim, ouvindo e vendo com sua mente, superando sábio e todo-observador, portador de uma natureza divina. Ele ouvirá tudo falado entre os homens e poderá ver tudo o que é feito.
Para o personagem de Crítias, a religião não emerge espontaneamente do medo ou da gratidão, mas é deliberadamente inventada por um legislador astuto para estabelecer controle social. Os deuses oniscientes são construções políticas — mecanismos de vigilância sobrenatural que regulam o comportamento mesmo na ausência de autoridades humanas.
Esta seria, se tomada literalmente, “a primeira declaração inequívoca ateia” da tradição ocidental. A religião é reduzida a ilusão feita pelo homem para manter ordem política. Não há emanação imperecível, não há dimensão autêntica do sagrado — apenas engenharia social sofisticada.
Contudo, devemos ser cautelosos na interpretação. O discurso ocorre em uma peça de teatro — gênero que gozava de considerável liberdade dramática — e nos lábios de Sísifo, personagem lendário conhecido por sua astúcia criminosa e punição eterna. Pode ser que Crítias esteja explorando uma hipótese provocativa sem necessariamente endossá-la pessoalmente.
Ainda assim, a teoria política da religião antecipa desenvolvimentos posteriores. Karl Marx veria a religião como “ópio do povo” — instrumento ideológico que legitima estruturas de poder e anestesia a consciência revolucionária. Michel Foucault analisaria como discursos religiosos produzem “sujeitos dóceis” através de tecnologias de confissão e auto-vigilância. Nietzsche denunciaria o cristianismo como moral de escravos que inverte valores aristocráticos.
A hipótese de Crítias — mesmo que dramática e não literal — identifica uma dimensão crucial: a religião funciona como mecanismo de controle social, independentemente de suas origens psicológicas ou de qualquer verdade metafísica que possa conter.
Evemerismo: deuses como humanos divinizados
Uma quarta abordagem emerge com Euhêmero de Messina (fl. c. 300 a.C.), que ofereceu uma teoria radicalmente historicizante da religião. Em uma obra de ficção de viagem — descrevendo uma jornada imaginária a uma ilha não mapeada no Oceano Índico —, Euhêmero narra a descoberta de uma inscrição sagrada que revela a verdadeira história dos deuses.
As divindades do Olimpo, segundo a inscrição, não eram seres sobrenaturais, mas pessoas reais que foram veneradas como deuses devido a sua força, inteligência e realizações excepcionais. Zeus, Hera, Apolo — todos eram originalmente humanos extraordinários que a memória cultural transformou em divindades.
O evemerismo, como esta teoria ficou conhecida, oferece uma explicação naturalista e histórica da religião. Não há projeção psicológica, não há invenção política deliberada — apenas o processo cultural de heroização e divinização de figuras históricas excepcionais ao longo do tempo.
Esta abordagem teria enorme influência posterior. Pensadores cristãos primitivos, como Lactâncio e Agostinho, usariam argumentos evemeristas para deslegitimar os deuses pagãos — se Zeus era apenas um rei antigo divinizado, não merece adoração. Mas a mesma lógica poderia, perigosamente, ser aplicada a figuras religiosas de qualquer tradição, incluindo santos cristãos ou até o próprio Cristo.
O evemerismo antecipa abordagens modernas da história das religiões que buscam núcleos históricos em narrativas míticas. A busca pelo “Jesus histórico” versus o “Cristo da fé”, as investigações sobre as origens históricas de figuras como Buda ou Confúcio — todos ecoam a intuição evemerista de que mitos podem preservar memórias distorcidas de pessoas reais.
Convergências e divergências
Essas quatro teorias — projeção antropomórfica, hipóteses psicológicas, instrumentalização política e historicização evemerista — não são mutuamente exclusivas. Todas podem capturar aspectos verdadeiros do fenômeno religioso.
A crítica de Xenófanes é empiricamente verificável: diferentes culturas de fato projetam suas características nos deuses. As hipóteses psicológicas de Demócrito e Pródico identificam emoções reais — medo e gratidão — que permeiam a experiência religiosa. A teoria política de Crítias reconhece corretamente que a religião funciona como mecanismo de controle social, mesmo que não seja apenas isso. E o evemerismo pode explicar casos específicos de divinização de heróis históricos.
O que une essas abordagens é o reconhecimento de que as formas culturais da religião — mitos específicos, representações divinas, práticas rituais — são mediadas pela experiência humana: psicologia, cultura, política, história. Isso não resolve a questão metafísica última — existe uma realidade transcendente além dessas mediações?
Notavelmente, a maioria desses pensadores gregos não conclui pelo ateísmo total. Xenófanes defende um deus não-antropomórfico. Demócrito reconhece algo como uma emanação imperecível. Mesmo Pródico, listado como ateu, aparentemente admitia alguma dimensão do sagrado. Apenas o personagem de Crítias — e mesmo assim em contexto dramático — parece negar completamente qualquer realidade religiosa autêntica.
Legado e ressonâncias modernas
Essas teorias antigas antecipam praticamente todos os debates modernos sobre a natureza da religião:
Feuerbach e Marx desenvolvem a crítica da projeção e da instrumentalização política iniciadas por Xenófanes e Crítias.
Freud reformula a teoria do medo de Demócrito em termos psicanalíticos — a religião como neurose coletiva que projeta a figura paterna no cosmos.
Durkheim reconhece, como Pródico, que a religião emerge de experiências coletivas de dependência e gratidão — não apenas a forças naturais, mas à própria sociedade.
História das religiões retoma o projeto evemerista de identificar núcleos históricos em narrativas míticas.
Teorias cognitivas contemporâneas exploram os mecanismos psicológicos — detecção de agência, teoria da mente, propensão a ver padrões — que subjazem à formação de crenças religiosas, ecoando as intuições de Demócrito sobre a psicologia do medo.
A ponderar
Os pensadores gregos antigos não ofereciam uma teoria unificada da religião — nem pretendiam fazê-lo. Suas contribuições são fragmentárias, especulativas, frequentemente preservadas apenas em citações ou contextos dramáticos. Mas coletivamente, revelam uma tradição intelectual que já problematizava a literalidade das narrativas religiosas há mais de dois milênios.
Crucialmente, essas críticas antigas não eram simplesmente destrutivas. Mesmo ao desmistificar formas culturais específicas da religião — antropomorfismos, mitos literais, instrumentalizações políticas —, a maioria desses pensadores preservava espaço para alguma dimensão autêntica do sagrado ou do divino.
Esta tensão — entre crítica das formas e reconhecimento de um fundo — permanece produtiva. Podemos reconhecer que deuses são representados à imagem de seus adoradores sem concluir que não há nada além da projeção. Podemos admitir que medo e gratidão motivam crenças religiosas sem reduzir a religião a essas emoções. Podemos reconhecer funções políticas da religião sem negar experiências autênticas do sagrado. Podemos identificar núcleos históricos em mitos sem dissolver completamente o transcendente no imanente.
As teorias gregas antigas nos ensinam que a reflexão crítica sobre a religião é, ela própria, uma tradição antiga — não uma invenção secular moderna. E que essa reflexão crítica não precisa culminar em niilismo ou ateísmo, mas pode ser integrada a uma compreensão mais sofisticada e menos literal do fenômeno religioso.
Neste sentido, Xenófanes, Demócrito, Pródico, Crítias e Euhêmero permanecem interlocutores valiosos — não porque tenham resolvido o enigma da religião, mas porque articularam com clareza e coragem as perguntas que ainda nos assombram.
Teorias filosóficas, como as de Platão, Aristóteles e do helenismo, merecem considerações separadas.
Saiba Mais
BARNES, Jonathan. The Presocratic Philosophers. Rev. ed. London: Routledge, 1982.
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LESHER, James H. Xenophanes of Colophon: Fragments. Toronto: University of Toronto Press, 1992.
As dimensões da religião: Ninian Smart
O que é religião? Uma perspectiva multidisciplinar
As múltiplas cosmologias gregas
Religiões ocidentais não teístas
Atualizado em 16 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Teorias gregas antigas da religião. Ensaios e Notas, 2023. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2023/02/06/teorias-gregas-antigas-da-religiao/. Acesso em: 16 fev. 2026.

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