Becker: Geopolítica da Amazônia

BECKER, Bertha K. Amazônia: geopolítica na virada do III milênio. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

Muitos pensam na Amazônia como espaço vazio, exótico, intocado, aguardando ser ocupado ou protegido. Bertha Koiffmann Becker (1930–2013) passou quarenta anos desarmando essa imagem. Geógrafa formada na Universidade do Brasil e professora por décadas na UFRJ, ela construiu uma das interpretações mais compreensivas sobre as relações entre Estado, território e desenvolvimento na Amazônia. Perspicaz, combinava geopolítica, geografia crítica e engajamento direto com a formulação de políticas públicas. Becker ensinava que a Amazônia não se reduz a um problema de natureza. Seus problemas resultam do poder.

Em sua obra em epígrafe, buscava compreender as relações entre Estado, território e desenvolvimento na Amazônia. Superava a visão da região como vazio demográfico ou fronteira de exploração. Ao invés disso, propunha uma concepção dinâmica que incorporava a multiplicidade de atores, escalas e conflitos que operam sobre ela, do global ao local.

Tese

A Amazônia não é um espaço homogêneo nem estático. É uma região internamente diversa, densamente urbanizada e estrategicamente posicionada na geopolítica global. A inserção da Amazônia nas dinâmicas econômicas e políticas passou por três grandes fases ao longo do século XX: fronteira na exploração recursos minerais, fronteira móvel de expansão do capital e, mais recentemente, fronteira do capital natural. Cada fase gerou seus próprios conflitos, seus próprios atores e suas próprias lógicas de ordenamento territorial. Compreender essa evolução é condição para formular políticas que não reproduzam os erros das anteriores.

Trajetória intelectual e método

O pensamento de Becker evoluiu em resposta às transformações do próprio objeto. Nos anos 1970, seus trabalhos sobre a Amazônia seguiam a tradição da geopolítica clássica, focada no Estado como ator central e no planejamento territorial como instrumento de controle e desenvolvimento. Eram os anos dos grandes projetos militares de integração com rodovias, hidrelétricas, projetos de colonização. A geopolítica disponível era, em larga medida, a de Golbery do Couto e Silva, a qual preconizava que a Amazônia como fronteira a ocupar, como espaço a defender da cobiça estrangeira.

A virada vem nos anos 1980, quando a reestruturação econômica global e o surgimento de novos movimentos sociais tornam insuficiente qualquer análise centrada exclusivamente no Estado. Becker incorpora então a geografia política crítica. Sua análise se abre para incluir a sociedade civil organizada, os governos estaduais, a cooperação internacional, os povos tradicionais e as organizações ambientais como atores com agência real no território. O Estado permanece central, mas não é mais o único protagonista. É uma transição metodológica que acompanha, e ao mesmo tempo antecipa, as transformações do próprio cenário amazônico.

As três fronteiras

O conceito de fronteira é o fio condutor da análise de Becker, mas ela o usa de modo muito mais complexo do que a tradição geopolítica convencional, onde fronteira significa apenas limite territorial a defender. Para Becker, fronteira é uma zona de expansão do capital, um espaço em disputa onde diferentes lógicas econômicas, sociais e ambientais se confrontam.

A fronteira de recursos minerais, predominante na primeira metade do século XX, tratou a Amazônia como fornecedora de matérias-primas para o mercado nacional e internacional. Borracha, castanha, minério: o padrão é o mesmo que Caio Prado Júnior identificaria como o “sentido da colonização”. Isto é, extrair, exportar, não fixar população produtiva nem construir estrutura econômica interna.

A fronteira móvel, a partir dos anos 1960, é a fase dos grandes projetos do regime militar. A Transamazônica, os projetos de colonização dirigida, o Polo Amazônia, Carajás, Tucuruí: a Amazônia torna-se um espaço em constante deslocamento, onde a expansão do povoamento e a circulação da força de trabalho servem à acumulação de capital, especialmente no setor agropecuário. É aqui que o “arco do desmatamento” se forma. Becker faz uma distinção importante. Considera, também, o arco do povoamento, porque reconhece que se trata de uma área de ocupação consolidada, com atividades agropecuárias que têm sua lógica produtiva própria. Nomear o arco apenas pelo que destrói impede que se entenda o que ele constrói e, portanto, impede políticas eficazes.

A fronteira do capital natural, que se consolida no fim do século XX, representa uma transformação qualitativa. A Amazônia passa a ser valorizada estrategicamente não pelo que pode ser extraído dela, mas pelo que ela é: um repositório de biodiversidade, um regulador climático global, um patrimônio de serviços ambientais que o mercado internacional começa a precificar. A natureza torna-se mercadoria de novo tipo. Novos atores entram em cena. São ONGs internacionais, organismos multilaterais e governos do hemisfério norte interessados em créditos de carbono. Contudo, os conflitos se sofisticam. A soberania nacional sobre a floresta, que antes se afirmava contra a ameaça militar, passa a se afirmar contra formas mais sutis de ingerência externa disfarçadas de preocupação ambiental.

A floresta urbanizada

A contribuição de Becker que mais contraria o senso comum é a mais simples de enunciar: a Amazônia é uma floresta urbanizada. Cerca de 70% da população amazônica vive em cidades. A imagem do habitante da floresta como índio ou seringueiro isolado no interior da mata não é falsa. Essas populações existem e merecem proteção, mas são minoritárias. A maioria dos amazônidas vive em Belém, Manaus, Santarém, Porto Velho, Rio Branco e em dezenas de cidades menores. Essas zonas urbanas cresceram rapidamente nas últimas décadas sem o planejamento e a infraestrutura correspondentes.

Ignorar essa urbanização é produzir políticas que protegem a floresta abstrata enquanto deixam sem resposta as demandas concretas de saúde, educação, mobilidade e emprego da população real. Em seu último livro, A urbe amazônida (2013), publicado poucos meses antes de sua morte, Becker aprofunda essa análise e a conecta às crises energética e climática: qualquer política amazônica que não leve a sério as cidades está construindo sobre areia.

Gestão do território como soberania

Para Becker, conhecer o território em sua diversidade não é objetivo acadêmico; é condição de soberania. A Amazônia não é homogênea. Na região residem diferentes dinâmicas econômicas, diferentes populações, diferentes ecossistemas, diferentes formas de pressão. Políticas uniformes aplicadas a esse mosaico produzem resultados uniformemente inadequados. Fez uma proposta de regionalização interna da Amazônia, distinguindo áreas consolidadas, áreas de transição e áreas de floresta densa, cada uma exigindo instrumentos próprios. Esta foi uma das contribuições mais práticas de seu trabalho e influenciou diretamente a formulação de planos de desenvolvimento regional nas décadas de 1990 e 2000.

A gestão do território é, nesse quadro, espaço de soberania: um campo onde se compatibilizam — ou não — os interesses globais sobre a floresta, os projetos nacionais de desenvolvimento, as demandas regionais por infraestrutura e os modos de vida das populações locais. Quando esses interesses não são compatibilizados por políticas conscientes, são compatibilizados pelo conflito. No caso, o conflito, na Amazônia, tem um custo social e ambiental que o mundo inteiro paga.

Recepção e legado

Bertha Becker não é um nome tão presente no cânone da brasiliana quanto Freyre, Buarque ou Furtado. Isso em parte porque a geografia raramente recebe o mesmo prestígio cultural que a sociologia ou a economia, em parte porque seu objeto, a Amazônia, foi tratado por muito tempo como questão regional, não como tema central da história intelectual brasileira. Esse pouca valorização é injusta. Sua obra articula, com rigor comparável ao dos clássicos, dimensões que nenhum deles cobriu: o território como categoria analítica, a escala espacial como variável política e o ambiente como ator, sem reduzí-lo a mero cenário dos conflitos brasileiros.

O diálogo com outros intérpretes do Brasil é inevitável e produtivo. Onde Golbery via a Amazônia como fronteira a ocupar militarmente, Becker via uma região a ser governada com inteligência, não com força. Onde Furtado diagnosticava a dependência das exportações de produtos primários, Becker rastreava os mecanismos concretos pelos quais essa dependência se reproduzia no território. Via também as possibilidades de rompê-la pelo investimento em ciência, tecnologia e inovação. Onde Caio Prado descrevia o sentido colonial da exploração extensiva e predatória, Becker mostrava esse sentido ainda em operação, agora com tratores e soja onde antes havia enxada e mandioca.

Suas ideias permanecem atuais com perturbadora precisão. A noção de fronteira do capital natural ilumina os debates contemporâneos sobre créditos de carbono, pagamento por serviços ambientais e a pressão internacional sobre o desmatamento. A constatação da floresta urbanizada continua a desafiar políticas que tratam a Amazônia como santuário ecológico habitado por populações abstratas. O arco do povoamento segue avançando.

A autora

Bertha Koiffmann Becker nasceu no Rio de Janeiro em 1930, filha de imigrantes judeus. Formou-se em geografia na então Universidade do Brasil e construiu sua carreira inteiramente na UFRJ, onde chegou à cátedra de geografia humana. Recusou o conforto do pensamento importado. Em vez de aplicar categorias europeias ou norte-americanas ao Brasil, trabalhou para construir uma geografia do território nacional a partir das suas próprias contradições. Participou ativamente de comissões governamentais, assessorou ministérios e contribuiu para relatórios do IPEA e do Ministério do Meio Ambiente. Atuou convicta de que o papel do cientista não se encerra na publicação acadêmica. Morreu no Rio de Janeiro em 2013, aos oitenta e dois anos, com a Amazônia ainda em chamas e ainda incompreendida.

Saiba mais

BECKER, Bertha K. Amazônia: geopolítica na virada do III milênio. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

BECKER, Bertha K. A urbe amazônida: a floresta e a cidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2013.

BECKER, Bertha K.; EGLER, Claudio A. G. Brasil: uma nova potência regional na economia-mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

SOUZA, Márcio. A expressão amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo. São Paulo: Alfa-Omega, 1977.

WANDERLEY, Luiz Jardim. Repensando a noção de fronteira no contexto de reestruturação espacial da Amazônia no século XXI. Terra Livre, v. 1, n. 46, p. 13-48, 2016.

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