Casanova: A religião pública

Este é o mistério que desafiou as certezas do século XX: a religião não morreu na modernidade; metamorfoseou-se.

Há pouco mais de meio século, na década de 1960, a certeza era absoluta. Sociólogos, filósofos e jornalistas de todo o mundo ocidental concordavam em uma única profecia: à medida que as sociedades se complexificavam, desenvolviam sistemas de saúde pública, educação universal e mercados globalizados, a religião entraria em coma irreversível. Desligaríamos os aparelhos, aceitaríamos o luto e seguiríamos em frente com a racionalidade iluminista como única bússola. A religião seria, no máximo, um hobby privado, uma coleção de hábitos domésticos para os domingos de chuva, inofensiva e silenciosa como um murmúrio em um confessionário vazio.

Mas a história gosta de ironias. Hoje, como observa o sociólogo José Casanova, acredita-se exatamente o contrário. A religião persistiu; ela floresce, reivindica espaço e recusa o confinamento. O que surpreende não é que os poloneses ainda rezem, que os brasileiros encham estádios evangélicos ou que os norte-americanos debatam o cristianismo nas urnas. O verdadeiro enigma reside na vitalidade das tradições religiosas, em sua capacidade de adaptação e na recusa obstinada de aceitarem o papel de relicários museológicos. A religião não sobreviveu à modernidade como uma múmia preservada; aprendeu a falar a língua da democracia, dos direitos humanos e da justiça social, e a falá-la alto o suficiente para ecoar nas praças públicas.

Para compreender essa mutação, é preciso desmontar o velho edifício teórico da secularização. Casanova propôs uma arqueologia intelectual meticulosa. O que se chamava de “secularização” era, na verdade, um aglomerado de três teses distintas, confundidas em uma só narrativa de declínio. A primeira, a tese da diferenciação, sustenta que as esferas da sociedade — economia, ciência, política e religião — desenvolveram linguagens próprias e lógicas autônomas, separando-se como órgãos em um corpo complexo. Esta, admite Casanova, mantém sua validade empírica: vivemos em um mundo no qual a bioética hospitalar não segue os dogmas teológicos e no qual a bolsa não fecha em dia de santo.

As outras duas teses, porém, colapsaram diante da evidência. A ideia de que a religião perderia relevância social, tornando-se irrelevante para a organização coletiva, e, sobretudo, a tese da privatização, a noção de que a fé deveria confinar-se ao espaço doméstico, ao coração individual, como preço pela entrada na modernidade democrática, não se sustentaram. A religião não se recolheu; desprivatizou-se.

A “desprivatização” é um conceito-chave que ressoa como um manifesto. Designa a recusa das tradições religiosas em aceitar o gueto privado que a teoria lhes reservava. Trata-se de uma reivindicação democrática de voz pública. Quando movimentos católicos poloneses reivindicam dignidade laboral, quando igrejas evangélicas brasileiras debatem reforma urbana e quando comunidades muçulmanas americanas exigem reconhecimento político, estamos diante de algo mais profundo que a mera persistência do arcaísmo. Assistimos à transformação da própria natureza do espaço público.

Casanova conduziu o leitor por cinco laboratórios dessa transformação. Na Polônia pós-comunista, a Igreja Católica sobreviveu à repressão estatal e tornou-se arquiteta de uma nova esfera pública, ao aprender a falar a linguagem dos direitos humanos que antes lhe era estranha. Na Espanha pós-franquista, o catolicismo transmutou-se de braço ideológico da ditadura em interlocutor democrático em uma sociedade plural. No Brasil, o pentecostalismo organizou-se como ator político de massa e reconfigurou o eleitorado e os debates sobre moralidade pública. Nos Estados Unidos, tanto os cristãos conservadores da “Moral Majority” quanto as igrejas negras do movimento pelos direitos civis demonstraram que a religião pode ser conservadora e progressista, mas nunca silenciosa.

A obra Public Religion in the Modern World, de José Casanova, inseriu-se em um momento de inflexão teórica no estudo da religião. Casanova identificou uma reversão do consenso vigente na década de 1960: longe de desaparecer, a religião demonstrou vitalidade e capacidade de adaptação às condições da modernidade. O ponto central de sua argumentação não reside apenas na persistência da religião na esfera privada, mas sobretudo em sua reemergência no espaço público. Nesse contexto, Casanova formulou o conceito de “religião pública”, entendida como aquela que assume ou busca assumir um papel, uma função ou uma presença no domínio público. A modernidade, em sua análise, não elimina a religião; redefine suas condições de atuação. Em vez de desaparecer, a religião se reconfigura e assume novas formas de visibilidade e intervenção, passando a intervir em questões políticas, morais e sociais e a disputar legitimidade no espaço público, inclusive em contextos considerados secularizados.

A revisão da teoria da secularização constituiu outro eixo fundamental de sua contribuição. A análise empírica conduziu Casanova a uma conclusão seletiva: apenas a tese da diferenciação mantém validade. De fato, a modernidade produziu crescente especialização das esferas sociais, cada qual operando com sua própria lógica e linguagem. A noção de diferenciação social descreve um arranjo no qual subsistemas relativamente autônomos coexistem — política, ciência, economia e direito — sem que nenhum detenha monopólio absoluto sobre a vida social. A religião, embora separada institucionalmente do Estado, não é excluída do debate público; sua presença passa a depender menos de autoridade tradicional e mais de sua capacidade de argumentação e mobilização em arenas públicas. Ao demonstrar que a presença pública da religião não é uma anomalia, mas um traço constitutivo das sociedades modernas, Casanova desafiou leituras linearmente secularizantes.

O que essas histórias revelam é que a modernidade não dissolveu a religião; forçou-a a modernizar-se. A diferenciação social não eliminou a religião, mas a expulsou de territórios nos quais exercia monopólio. Em contrapartida, a religião conquistou novos territórios: os direitos humanos, a bioética, a justiça social e a identidade cultural. Tornou-se, nas palavras de Casanova, uma voz pública entre outras, não mais a voz soberana, mas também não uma voz subalterna.

Isso nos apresenta um paradoxo sobre a natureza do espaço público liberal. Durante décadas, assumiu-se que a democracia moderna exigia uma espécie de “censura cordial” da religião: podeis existir, desde que não faleis demasiado alto, desde que não mistureis convicções teológicas com argumentos cívicos. Rawls e Habermas, cada um à sua maneira, tentaram delinear as regras dessa etiqueta secular. Mas o que se observa na prática é que as democracias vibrantes são aquelas nas quais o sagrado e o profano se encontram em diálogo, por vezes tenso, por vezes hostil, mas sempre dinâmico.

A desprivatização não significa o regresso da teocracia. Sugere uma condição mais complexa: a de um espaço público no qual múltiplas tradições, religiosas e não religiosas, competem pela definição do bem comum. A religião não regressa como dona da verdade absoluta, mas como interlocutora particular, carregada de histórias, rituais e comunidades que se recusam a ser reduzidas a preferências de consumo individual.

Quando olhamos para os debates contemporâneos sobre identidade de gênero, mudanças climáticas, migração ou bioética, frequentemente lamentamos a “polarização”. Mas talvez estejamos testemunhando algo mais estrutural: o fim da ilusão de que se podia segregar a existência humana em compartimentos estanques, como gavetas de um arquivo que nunca se misturam. O racional de um lado, o espiritual de outro; o público de um lado, o privado de outro. Ao reclamar seu lugar na praça pública, a religião força-nos a reconhecer que os seres humanos são criaturas híbridas, simultaneamente animais biológicos, agentes econômicos e buscadores de transcendência.

Quando anunciaram a morte de Deus, os profetas da secularização não estavam totalmente errados. Mataram, de fato, um deus: o deus garante do Estado, o deus monopolista da verdade, o deus que dispensava os crentes de argumentar, persuadir e conquistar suas posições pelo debate democrático. Mas dessa morte renasceu uma forma mais modesta, e talvez mais autêntica, de presença religiosa: aquela que sabe que a fé, para ser pública, não pode ser imposta; que, para ser relevante, deve ser traduzida em uma linguagem partilhável; que, para ser moderna, deve aceitar a pluralidade como condição, não como ameaça.

SAIBA MAIS

Casanova, José. 1994. Public Religion in the Modern World. London: University of Chicago Press.

Casanova, José. 2003. “Beyond European and American Exceptionalisms: Towards a Global Perspective.” In
Grace Davie, Linda Woodhead, and Paul Helas, eds. Predicting Religion: Christian, Secular and
Alternative Futures. Hampshire, UK: Ashgate Publishing, pp. 17-29.

Casanova, José. 2006. Secularization Revisited: A Reply to Talal Asad in Scott and Hirschkind (eds.) Powers of
the Secular Modern. Talal Asad and His Interlocutors. Stanford, CA: Stanford University Press.

Casanova, José. 2008. “Public Religions Revisited.” In Hent de Vries, ed. Religion: Beyond a Concept. New
York, NY: Fordham University Press, pp. 101-119.

Casanova, José. 2009. “Public Religions Revisited” Keynote Speech at “Religion Revisited- Women’s Rights
and the Political Instrumentalisation of Religion”. http://www.gwiboell.de/sites/default/files/assets/gwiboell.de/images/downloads/Religion_Revisited_Keynote_Casanova_June2009.pdf

Casanova, José. 2012. “Rethinking Public Religion.” In Timothy Samuel Shah, Alfred Stepan, and Monica Duff
Toft. Rethinking Religion and World Affairs. New York, NY: Oxford University Press, pp. 25-35.

Casanova, José. 2011. “The Secular, Secularizations, Secularisms.” In Craig Calhoun, Mark Juergensmeyer, and
Jonathan vanAntwerpen, eds. Rethinking Secularism. New York, NY: Oxford University Press.

Casanova, José and Phillips, Anne. 2009. A Debate on the Public Role of Religion and its Social and Gender
Implications. Geneva: United Nations Research Institute for Social Development (UNRISD).

Peter Berger

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