Uma pessoa que conseguia desequilibrar o marasmo do status quo foi, bell hooks (1952–2021). Essa escritora, acadêmica e crítica social nasceu Gloria Jean Watkins em Hopkinsville, Kentucky. Seu pseudônimo foi tomado emprestado de sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A escolha de grafar o nome em letras minúsculas visava descentralizar a própria autora e concentrar a atenção no conteúdo de suas obras, e não em sua identidade.

Cresceu numa família afro-americana de classe trabalhadora, num Kentucky ainda segregado. O pai trabalhava como zelador; a mãe, como empregada doméstica em casas de famílias brancas. Era uma entre seis irmãos. Estudou em escolas públicas segregadas por raça e, no fim dos anos 1960, passou a frequentar uma escola integrada. Formou-se pela Universidade Stanford em 1973, obteve o mestrado pela Universidade de Wisconsin-Madison em 1976 e concluiu o doutorado em Literatura pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz em 1983, com tese sobre a ficção de Toni Morrison.
Sua carreira acadêmica começou em 1976, na Universidade do Sul da Califórnia. Ao longo dos anos, lecionou em diversas instituições: na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, na Universidade Estadual de São Francisco, em Yale, como professora assistente de estudos africanos e afro-americanos e de literatura inglesa entre 1985 e 1988, em Oberlin College, como professora associada de literatura americana e estudos de gênero entre 1988 e 1994, e na City College of New York, como professora emérita de literatura inglesa entre 1994 e 2004. Em 2004, ingressou no corpo docente do Berea College como professora emérita residente. Em 2014, fundou o bell hooks Institute nessa mesma instituição. No outono de 2021, foi criado o bell hooks center no Berea College, espaço destinado a estudantes de grupos sub-representados para o desenvolvimento de expressão ativista e formação crítica.
Sua primeira obra de peso, Ain’t I a Woman?, foi iniciada quando a autora tinha apenas dezenove anos e publicada em 1981. O título deriva do discurso de Sojourner Truth na Convenção dos Direitos da Mulher, realizada em Akron, Ohio, em 1851. O livro examina o impacto histórico do sexismo e do racismo sobre as mulheres negras, a desvalorização da feminilidade negra, o papel e a representação da mulher negra na mídia, o sistema educacional, a ideia de um patriarcado capitalista supremacista branco e a marginalização das mulheres negras. Hooks argumentava que as mulheres negras eram excluídas tanto do feminismo de segunda onda, centrado nas mulheres brancas, quanto dos movimentos de libertação negra, centrados nos homens negros. Em 1992, a revista Publishers Weekly incluiu a obra entre os vinte livros escritos por mulheres mais influentes das duas décadas anteriores.
Entre os conceitos centrais de seu pensamento está o de patriarcado capitalista supremacista branco, formulação que descreve os sistemas entrelaçados de opressão que estruturam a sociedade americana. Outro conceito é o do olhar opositor, desenvolvido em Black Looks: Race and Representation, de 1992, que analisa como espectadores negros observam o cinema a partir de uma posição crítica e resistente, capaz de desafiar as representações dominantes. Seu trabalho antecedeu e contribuiu para a formalização do termo interseccionalidade por Kimberlé Crenshaw em 1989: o arcabouço de hooks tratava raça, classe e gênero como dimensões inseparáveis. Discutiu uma noção de pedagogia engajada, influenciada pela obra de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, segundo a qual a educação é prática de liberdade e exige que professores e alunos participem ativamente da aprendizagem e da consciência crítica. Concebia ainda o amor como força política, capaz de transformar a sociedade e o mundo, entendido não como sentimentalismo, mas como ação contra a dominação. Em Feminism Is for Everybody, de 2000, definiu o feminismo como movimento para acabar com o sexismo e com a exploração e a opressão sexistas. Por essa definição, enfatiza a dimensão política do conceito, o que deslocou a causa feminista de um esteriotipado estilo de vida com o qual se fazia caricatura das feministas.
SAIBA MAIS
HOOKS, bell. Não serei eu mulher? As mulheres negras e o feminismo. Tradução de Nuno Quintas. Lisboa: Orfeu Negro, 2018.
HOOKS, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. Tradução de Cátia Bocaiuva Maringolo. São Paulo: Elefante, 2019.
HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
HOOKS, bell. Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática. Tradução de Bhuvi Libanio. São Paulo: Elefante, 2020.
HOOKS, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. Tradução de Bhuvi Libanio. São Paulo: Elefante, 2021.
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Maria Paula Corrêa. São Paulo: Elefante, 2021.

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