O decálogo do perfeito contista

O escritor uruguaio Horacio Quiroga (1879-1937) foi comparado a Poe. publicado na revista Babel de Buenos Aires, em julho de 1927 estas dicas.

  1. Acredite em um mestre, como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, Rudyard Kipling ou Anton Tchekhov, da mesma forma que se acredita em Deus.
  2. Acredite que sua arte é um topo inacessível. Não sonhe em domesticá-la. Quando isso for possível, você conseguirá sem perceber.
  3. Resista à imitação o máximo que puder, embora a influência forte às vezes imponha esse caminho. Mais do que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da personalidade exige longa paciência.
  4. Tenha fé cega, menos em sua capacidade de alcançar o sucesso do que no ardor com que o deseja. Ame sua arte como se ama uma namorada, entregando a ela todo o coração.
  5. Não comece a escrever sem saber, desde a primeira palavra, para onde está indo. Em um conto bem-sucedido, as três primeiras linhas são quase tão importantes quanto as três últimas.
  6. Se queres exprimir exatamente esta circunstância: “Do rio soprava o vento frio”, nenhuma outra combinação de palavras na linguagem humana será capaz de exprimi-la com a mesma precisão. Depois de encontrar suas palavras, não se preocupe em observar se elas são consoantes ou assonantes entre si.
  7. Não use adjetivos desnecessários. Inútil será a quantidade de caudas coloridas atribuídas a um substantivo fraco. Quando você encontrar a palavra precisa, ela terá cores incomparáveis. Mas essa palavra precisa ser encontrada.
  8. Pegue seus personagens pela mão e conduza-os com firmeza até o fim, vendo apenas o caminho traçado para eles. Não se distraia com aquilo que eles não podem ou não querem ver. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado por cortes. Considere isso uma verdade absoluta, ainda que talvez não o seja.
  9. Não escreva sob o domínio da emoção. Deixe-a morrer e retorne a ela mais tarde. Se você for capaz de revivê-la como era, terá alcançado metade do caminho na arte.
  10. Não pense em seus amigos enquanto escreve, nem na impressão que sua história causará. Conte-a como se ela interessasse apenas ao pequeno ambiente de seus personagens, do qual você mesmo poderia fazer parte. Só assim a vida da história surgirá.

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