Os pampas onde o infinito e o horizonte se encontram, tiveram seu épico em prosa em O Tempo e o Vento (1949–1962), de Érico Veríssimo. O autor, Érico Lopes Veríssimo (1905–1975), nasceu em Cruz Alta, trabalhou como balconista e bancário antes de se dedicar à literatura e produziu uma obra marcada por humanismo e análise psicológica. A trilogia foi publicada ao longo de treze anos. Divide-se em O Continente (1949), de caráter épico e composto por dois tomos, O Retrato (1951), também em dois tomos, com ênfase introspectiva, e O Arquipélago (1961), em três tomos, que encerra a saga.
A obra situa-se na segunda fase do Modernismo brasileiro, associada ao romance regionalista de 1930. Embora trate do pampa gaúcho, ultrapassa o regionalismo ao explorar a psicologia das personagens e dilemas ligados ao poder e à condição humana. Configura-se como saga em prosa que acompanha a formação histórica do Rio Grande do Sul desde a ocupação jesuítica até meados do século XX.
A estrutura abrange cerca de duzentos anos, entre 1745 e 1945. O Continente cobre de 1745 a 1895, incluindo a Revolução Federalista, e focaliza a formação do estado, as lutas nas Missões, a Revolução Farroupilha e a guerra entre castilhistas e maragatos, com ênfase na construção da identidade gaúcha. O Retrato situa-se do final do século XIX ao início do XX, acompanha o retorno do médico Rodrigo Cambará a Santa Fé e desenvolve o conflito entre tradição rural e modernização urbana, além de examinar a decadência moral. O Arquipélago abrange de 1930 a 1945, leva a narrativa ao Rio de Janeiro. Este novo capítulo, insere as personagens na política nacional, com destaque para o Estado Novo e para a trajetória do Dr. Rodrigo como deputado federal.
A trama organiza-se em torno da rivalidade entre as famílias Terra-Cambará, associadas aos castilhistas, e Amaral, ligados aos maragatos. A obra introduz ainda os Carés, grupo de pobres, mestiços e agregados, que contrapõem a aristocracia rural e evidenciam a desigualdade social. Entre as figuras centrais de O Continente, Ana Terra representa a força feminina ao sobreviver à violência, perder a família e fundar seu clã. Capitão Rodrigo Cambará encarna o tipo do gaúcho aventureiro, violento e sedutor, cuja chegada a Santa Fé marca momento decisivo da narrativa.
Nas gerações seguintes, Dr. Rodrigo Cambará surge como personagem complexo. Formado em Porto Alegre, retorna com hábitos urbanos que entram em choque com o autoritarismo do pai, o Coronel Licurgo Cambará, símbolo do coronelismo. Floriano Cambará, filho de Rodrigo, opta pela carreira de escritor e encarna o conflito entre engajamento político e vocação artística. Os Carés aparecem como grupo de indivíduos espoliados, livres e desprovidos de recursos, vivendo à margem das propriedades. Em períodos de paz, são excluídos; em guerras, são mobilizados. Personagens como Lulu Caré, José Caré, Quincas Caré e Ismália Caré ilustram essa condição.
A ação concentra-se em Santa Fé, cidade fictícia que representa o interior brasileiro e o domínio dos coronéis. O espaço urbano expressa hierarquias sociais. O sobrado dos Terra-Cambará simboliza poder e tradição, enquanto a venda e os casebres indicam o espaço popular.
Em O Continente, a narrativa inicia-se nas Missões Jesuíticas com Pedro Missioneiro, mestiço criado por um padre espanhol, que presencia a destruição dos Sete Povos e a morte de Sepé Tiaraju. Ele se envolve com Ana Terra, gerando Pedro Terra, mas é morto por ordem do pai dela. Após ataque espanhol que devasta a família, Ana foge com o filho e funda Santa Fé. Gerações depois, Bibiana Terra une-se ao Capitão Rodrigo Cambará após conflito com Bento Amaral. Durante a Revolução Farroupilha, Rodrigo morre em ataque ao sobrado dos Amaral, deixando o filho Bolívar.
Em O Retrato, o foco recai sobre o Dr. Rodrigo, que retorna a Santa Fé com hábitos urbanos, como vinho francês e gramofone, em tensão com o pai. O enredo examina corrupção, tédio e permanência das estruturas de poder. Rodrigo ascende politicamente, dividido entre mudança e continuidade.
Em O Arquipélago, Rodrigo muda-se para o Rio de Janeiro, torna-se deputado e apoia Getúlio Vargas. A família alcança projeção nacional. Floriano confronta o pai ao escolher a escrita. Com a queda de Vargas e o declínio físico de Rodrigo, a família enfrenta decadência. O desfecho mostra o protagonista diante do passado e da necessidade de reconciliação.
Os temas incluem a passagem do tempo, expressa na sucessão de gerações. Retrata transitoriedade sugerida pelo vento, a formação da elite gaúcha por meio de guerras, alianças e violência, a tensão entre tradição e modernidade, visível no conflito entre Licurgo e Rodrigo, e a desigualdade social, evidenciada pelos Carés. A obra também problematiza o mito do gaúcho, ao contrastar a figura heroica do Capitão Rodrigo com suas falhas e com a perda de grandeza nas gerações posteriores.
Não sei se Gabriel García Marquez era familiar com O tempo e o vento. De qualquer forma, ambos autores que se juntam à Isabel Allende nas sagas familiares latinoamericanas compartilham do mesmo trilho histórico.

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