Um pouco de saber faz do mundo inteiro uma família.
— Provérbios 32:7.
Eu costuma frequentemente ir admirar a coleção de curiosidades no Castelo de Heidelberg, e um dia surpreendi o guardião com meu alemão. Falei inteiramente nessa língua. Ele ficou muito interessado; e depois que conversei por um tempo, disse que meu alemão era muito raro, possivelmente um “único exemplar”, e quis acrescentá-lo ao seu museu.
Se ele soubesse o que me custou adquirir minha arte, teria sabido também que arruinaria qualquer colecionador comprá-la. Harris e eu tínhamos trabalhado arduamente em nosso alemão por várias semanas naquela época e, embora tivéssemos feito bom progresso, fora realizado sob grande dificuldade e aborrecimento, pois três de nossos professores tinham morrido nesse intervalo. Quem não estudou alemão não pode ter ideia de que língua embaraçosa é essa.
Certamente não há outra língua tão desleixada e sem sistema, tão escorregadia e inapreensível. Fica-se rodando nela, de um lado para outro, da maneira mais desamparada; e quando afinal parece que se capturou uma regra que oferece chão firme para descansar em meio à fúria e turbulência geral das dez partes do discurso, vira-se a página e lê-se: “Que o aluno tome nota cuidadosa das seguintes EXCEÇÕES.” Percorre-se com os olhos a lista e descobre-se que há mais exceções à regra do que exemplos dela. E lá vai de novo ao mar, à caça de outro Ararate, para encontrar mais um banco de areia. Tal tem sido, e continua sendo, minha experiência. Cada vez que penso ter dominado um desses quatro confusos “casos”, uma preposição aparentemente insignificante se intromete em minha frase, revestida de um poder terrível e insuspeitado, e desfaz o chão sob meus pés. Por exemplo: meu livro indaga sobre um certo pássaro — (está sempre indagando sobre coisas sem a menor importância para ninguém): “Onde está o pássaro?” Ora, a resposta a essa pergunta — segundo o livro — é que o pássaro está esperando na ferraria por causa da chuva. Claro que nenhum pássaro faria isso, mas é preciso seguir o livro. Muito bem, começo a decifrar o alemão para essa resposta. Começo pelo lado errado, necessariamente, pois essa é a ideia alemã. Digo para mim mesmo: “REGEN (chuva) é masculino — ou talvez feminino — ou possivelmente neutro — é trabalhoso demais verificar agora. Portanto, é DER (o) Regen, ou DIE (a) Regen, ou DAS (o) Regen, conforme o gênero que se revelar quando eu consultar. No interesse da ciência, vou calcular partindo da hipótese de que é masculino. Muito bem — logo, A chuva é DER Regen, se está simplesmente no estado quiescente de ser MENCIONADA, sem ampliação ou discussão — caso Nominativo; mas se essa chuva está caindo por aí, de maneira geral sobre o chão, está então definitivamente localizada, está FAZENDO ALGO — isto é, REPOUSANDO (que é uma das ideias de fazer algo da gramática alemã) — e isso joga a chuva no caso Dativo e a transforma em DEM Regen. Entretanto, essa chuva não está repousando, mas fazendo algo ATIVAMENTE — está caindo — para atrapalhar o pássaro, provavelmente — e isso indica MOVIMENTO, que tem o efeito de jogá-la no caso Acusativo e transformar DEM Regen em DEN Regen.” Tendo completado o horóscopo gramatical do assunto, respondo com segurança e declaro em alemão que o pássaro está na ferraria “wegen (por causa de) DEN Regen.” O professor então me pousa suavemente com a observação de que, sempre que a palavra “wegen” aparece numa frase, ela SEMPRE joga o sujeito no caso GENITIVO, independentemente das consequências — e portanto esse pássaro ficou na ferraria “wegen DES Regens.”
N.B. — Fui informado depois, por uma autoridade maior, de que havia uma “exceção” que permite dizer “wegen DEN Regen” em certas circunstâncias peculiares e complexas, mas que essa exceção não se estende a NADA além da chuva.
Há dez partes do discurso, e todas são problemáticas. Uma frase comum num jornal alemão é uma curiosidade sublime e impressionante; ocupa um quarto de coluna; contém todas as dez partes do discurso — não em ordem regular, mas misturadas; é construída principalmente de palavras compostas criadas pelo escritor na hora, e que não se encontram em dicionário algum — seis ou sete palavras compactadas numa só, sem juntura ou costura — isto é, sem hifens; trata de catorze ou quinze assuntos diferentes, cada um encerrado em seu próprio parêntese, com aqui e ali parênteses extras, criando currais dentro de currais: por fim, todos os parênteses e reparênteses são reunidos entre um par de super-parênteses, um dos quais é colocado na primeira linha da majestosa frase e o outro no meio da última linha — APÓS O QUE VEM O VERBO, e o leitor descobre pela primeira vez do que o homem esteve falando; e depois do verbo — meramente como ornamento, ao que me parece — o escritor despeja “HABEN SIND GEWESEN GEHABT HAVEN GEWORDEN SEIN”, ou palavras nesse sentido, e o monumento está concluído. Suponho que esse hurra final seja da natureza do floreio na assinatura de alguém — não necessário, mas elegante. Os livros alemães são bastante fáceis de ler quando se os segura diante de um espelho ou se fica de cabeça para baixo — de modo a inverter a construção — mas acredito que aprender a ler e compreender um jornal alemão seja algo que permanecerá sempre impossível para um estrangeiro.
Mesmo os livros alemães não estão inteiramente livres de ataques da doença dos Parênteses — embora geralmente sejam tão leves que cobrem apenas algumas linhas, e portanto quando afinal se chega ao verbo ele carrega algum sentido para a mente porque se consegue lembrar boa parte do que veio antes. Eis aqui uma frase de um popular e excelente romance alemão — que tem um ligeiro parêntese. Farei uma tradução perfeitamente literal e acrescentarei as marcas de parêntese e alguns hifens para auxílio do leitor — embora no original não haja marcas de parêntese ou hifens, e o leitor seja deixado para se virar até o verbo remoto da melhor maneira que puder:
“Mas quando ele, na rua, à (em-cetim-e-seda-agora-coberta-muito-desembaraçada-segundo-a-última-moda-vestida) esposa do conselheiro de governo ENCONTROU”, etc., etc.
Isso é de O Segredo da Velha Mamsel, da sra. Marlitt. E essa frase é construída segundo o modelo alemão mais aprovado. Observe como o verbo está longe da base de operações do leitor; pois bem, num jornal alemão colocam o verbo lá na página seguinte; e ouvi dizer que às vezes, após enfileirar por uma ou duas colunas as emocionantes preliminares e os parênteses, ficam com pressa e têm de ir à impressão sem chegar ao verbo. O leitor fica, claro, num estado bastante exausto e ignorante.
Também temos a doença dos Parênteses em nossa literatura, e podem-se ver casos dela todos os dias em nossos livros e jornais: mas entre nós é sinal e marca de um escritor inexperiente ou de um intelecto nebuloso, ao passo que entre os alemães é sem dúvida sinal de pena experiente e da presença daquela espécie de névoa intelectual luminosa que entre esse povo passa por clareza. Porque certamente NÃO é clareza — necessariamente não pode ser clareza. Até um júri teria perspicácia suficiente para descobrir isso. As ideias de um escritor devem estar bastante confusas, bastante fora de linha e sequência, quando ele começa dizendo que um homem encontrou a esposa de um conselheiro na rua, e então, no meio desse tão simples empreendimento, para essas pessoas que se aproximam e as faz ficar paradas enquanto anota um inventário do vestido da mulher. Isso é manifestamente absurdo. Lembra aqueles dentistas que garantem o interesse instantâneo e ofegante do paciente num dente ao firmar o alicate nele, para depois ficar ali desfiando com voz lenta uma longa anedota antes de dar a temida puxada. Parênteses na literatura e na dentística têm mau gosto.
Os alemães têm outro tipo de parêntese que fazem dividindo um verbo em dois e colocando metade no começo de um emocionante capítulo e a OUTRA METADE no fim dele. Alguém consegue conceber algo mais confuso? Essas coisas chamam-se “verbos separáveis.” A gramática alemã está coberta de verbos separáveis; e quanto mais as duas partes de um deles ficam distantes uma da outra, mais satisfeito fica o autor do crime com sua realização. Um favorito é REISTE AB — que significa partiu. Eis um exemplo que extraí de um romance e reduzi ao português:
“Estando as malas agora prontas, ele DE- após beijar sua mãe e irmãs, e mais uma vez pressionar contra o peito sua adorada Gretchen, que, vestida de simples musselina branca, com uma única tuberosa nas amplas dobras de seus ricos cabelos castanhos, descera cambaleando a escada, ainda pálida do terror e da agitação da noite anterior, mas ansiosa para pousar mais uma vez sua pobre cabeça dolorida no peito daquele que amava mais do que a própria vida, PARTIU.”
Contudo, não é bom demorar-se demais nos verbos separáveis. A paciência se perde logo; e se alguém persiste no assunto e não quer ser advertido, isso acabará por amolecer seu cérebro ou petrificá-lo. Os pronomes pessoais e adjetivos são um incômodo prolífico nessa língua, e deveriam ter sido suprimidos. Por exemplo: o mesmo som, SIE, significa VOCÊ, e significa ELA, e significa A ELA, e significa ISSO, e significa ELES, e significa OS. Pense na miserável pobreza de uma língua que precisa fazer uma única palavra executar o trabalho de seis — e ainda por cima uma palavrinha fraca de apenas três letras. Mas principalmente, pense no desespero de nunca saber qual desses significados o falante está tentando transmitir. Isso explica por que, sempre que alguém me diz SIE, geralmente procuro matá-lo, se for um desconhecido.
Observe agora o Adjetivo. Este era um caso em que a simplicidade teria sido uma vantagem; por isso mesmo, sem outra razão, o inventor dessa língua a complicou o máximo que pôde. Quando desejamos falar de nosso “bom amigo ou amigos” em nossa língua esclarecida, ficamos com uma única forma e não temos problemas nem ressentimentos com isso; mas com a língua alemã é diferente. Quando um alemão coloca as mãos num adjetivo, ele o declina, e continua declinando-o até que todo o bom senso seja declinado para fora dele. É tão ruim quanto o latim. Ele diz, por exemplo:
SINGULAR
Nominativo — Mein gutER Freund, meu bom amigo.
Genitivo — MeinES GutEN FreundES, do meu bom amigo.
Dativo — MeinEM gutEN Freund, ao meu bom amigo.
Acusativo — MeinEN gutEN Freund, meu bom amigo.
PLURAL
N. — MeinE gutEN FreundE, meus bons amigos. G. — MeinER gutEN FreundE, dos meus bons amigos. D. — MeinEN gutEN FreundEN, aos meus bons amigos. A. — MeinE gutEN FreundE, meus bons amigos.
Agora que o candidato ao hospício tente memorizar essas variações, e veja em quanto tempo será internado. Melhor ficar sem amigos na Alemanha do que ter todo esse trabalho com eles. Mostrei que incômodo é declinar um bom amigo (masculino); pois bem, isso é apenas um terço do trabalho, pois há uma variedade de novas deformações do adjetivo a aprender quando o objeto é feminino, e ainda outra quando o objeto é neutro. Ora, há mais adjetivos nessa língua do que gatos pretos na Suíça, e todos eles devem ser tão elaboradamente declinados quanto os exemplos sugeridos acima. Difícil? — trabalhoso? — essas palavras não chegam a descrevê-lo. Ouvi um estudante californiano em Heidelberg dizer, num de seus momentos mais calmos, que preferia recusar dois drinques a declinar um adjetivo alemão.
O inventor da língua parece ter se divertido em complicá-la de todas as maneiras que pôde imaginar. Por exemplo: se alguém se refere casualmente a uma casa, HAUS, ou a um cavalo, PFERD, ou a um cachorro, HUND, escreve essas palavras como indiquei; mas se está se referindo a elas no caso Dativo, acrescenta um E tolo e desnecessário e as escreve HAUSE, PFERDE, HUNDE. Assim, como um E acrescentado frequentemente indica o plural, como o S faz conosco, o aluno novato provavelmente passará um mês gerando gêmeos de um cachorro no Dativo antes de descobrir seu erro; e por outro lado, muitos estudantes novatos que mal podiam se dar ao luxo de perder, compraram e pagaram por dois cachorros e receberam apenas um deles, porque ignorantemente compraram o cachorro no singular Dativo quando na verdade acreditavam estar falando no plural — o que deixou a lei do lado do vendedor, claro, pelas regras estritas da gramática, e portanto uma ação de recuperação não poderia prosperar.
Em alemão, todos os Substantivos começam com letra maiúscula. Ora, essa é uma boa ideia; e uma boa ideia, nessa língua, é necessariamente conspícua por sua solidão. Considero essa capitalização dos substantivos uma boa ideia porque, em razão dela, quase sempre se consegue identificar um substantivo no instante em que aparece. Cai-se em erro de vez em quando porque se confunde o nome de uma pessoa com o nome de uma coisa, e perde-se muito tempo tentando extrair um significado dele. Os nomes alemães quase sempre significam alguma coisa, e isso ajuda a enganar o estudante. Certa vez traduzi uma passagem que dizia que “a tigresa enfurecida se soltou e devorou inteiramente o desafortunado bosque de abetos” (Tannenwald). Quando estava me preparando para duvidar disso, descobri que Tannenwald, neste caso, era o nome de um homem.
Todo substantivo tem um gênero, e não há sentido nem sistema na distribuição; portanto, o gênero de cada um deve ser aprendido separadamente e de cor. Não há outro jeito. Para isso, é preciso ter memória de caderneta de anotações. Em alemão, uma jovem não tem sexo, enquanto um nabo tem. Pense em que exagerado respeito isso demonstra pelo nabo, e que descaso grosseiro pela moça. Veja como fica impresso — traduzo isto de uma conversa num dos melhores livros de escola dominical alemã:
“Gretchen. Wilhelm, onde está o nabo?
“Wilhelm. Ela foi para a cozinha.
“Gretchen. Onde está a distinta e bela senhorita inglesa?
“Wilhelm. Isso foi para a ópera.”
Para continuar com os gêneros alemães: uma árvore é masculina, seus brotos são femininos, suas folhas são neutras; cavalos não têm sexo, cachorros são masculinos, gatos são femininos — incluindo gatões, claro; a boca, o pescoço, o seio, os cotovelos, os dedos, as unhas, os pés e o corpo de uma pessoa são do sexo masculino, e a cabeça é masculina ou neutra de acordo com a palavra selecionada para designá-la, e NÃO de acordo com o sexo do indivíduo que a usa — pois na Alemanha todas as mulheres têm cabeças masculinas ou assexuadas; o nariz, os lábios, os ombros, o peito, as mãos e os artelhos de uma pessoa são do sexo feminino; e o cabelo, as orelhas, os olhos, o queixo, as pernas, os joelhos, o coração e a consciência não têm sexo algum. O inventor da língua provavelmente ficou sabendo o que sabe sobre consciência de ouça-dizer.
Ora, pela dissecação acima, o leitor verá que na Alemanha um homem pode ACHAR que é homem, mas quando examina o assunto de perto, é forçado a ter suas dúvidas; descobre que, na verdade sóbria, é uma mistura da mais ridícula; e se termina tentando se consolar com o pensamento de que ao menos pode contar com um terço dessa bagunça como sendo viril e masculino, o humilhante segundo pensamento o lembrará imediatamente de que nesse aspecto não está em situação melhor do que qualquer mulher ou vaca do país.
Em alemão, é verdade que, por algum descuido do inventor da língua, uma Mulher é do sexo feminino; mas uma Esposa (Weib) não é — o que é lamentável. Uma Esposa aqui não tem sexo; ela é neutra; portanto, segundo a gramática, um peixe é ELE, suas escamas são ELA, mas uma vendedeira de peixe não é nem um nem outro. Descrever uma esposa como assexuada pode ser chamado de sub-descrição; já isso é ruim o bastante, mas a super-descrição é certamente pior. Um alemão chama um inglês de ENGLÄNDER; para mudar o sexo, acrescenta INN, e isso representa inglesa — ENGLÄNDERINN. Isso parece descritivo o suficiente, mas ainda não é preciso o bastante para um alemão; então ele antecede a palavra com o artigo que indica que a criatura seguinte é feminina, e escreve assim: “die Engländerinn” — que significa “a ela-inglesa.” Considero essa pessoa super-descrita.
Bem, depois que o estudante aprendeu o sexo de grande número de substantivos, ainda se encontra em dificuldade, pois acha impossível convencer sua língua a se referir às coisas como “ele” e “ela” e “o” e “a”, quando sempre esteve acostumado a chamá-las de “isso”. Mesmo quando formula uma frase alemã mentalmente, com os hes e elas nos lugares certos, e então prepara sua coragem até o ponto da enunciação, não adianta — no momento em que começa a falar, a língua descarrila e todos aqueles trabalhados masculinos e femininos saem como “íssos”. E mesmo quando está lendo alemão para si mesmo, sempre chama aquelas coisas de “isso”, ao passo que deveria ler desta maneira:
CONTO DA VENDEDEIRA DE PEIXE E SEU TRISTE DESTINO
2
É um Dia lúgubre. Ouça a Chuva, como ela despeja, e o Granizo, como ele chocalha; e veja a Neve, como ela deriva, e a Lama, como ele é fundo! Ah, a pobre Vendedeira de Peixe, ela está atolada no Lamaçal; ela deixou cair sua Cesta de Peixes; e suas Mãos foram cortadas pelas Escamas ao agarrar algumas das Criaturas que caíam; e uma Escama entrou até em seu Olho. e ela não consegue tirar ela. Ela abre sua Boca para pedir Socorro; mas se algum Som sai dele, ai de nós ele é afogado pela fúria da Tempestade. E agora um Gato doméstico pegou um dos Peixes e ele certamente fugirá com ele. Não, ela morde fora uma Nadadeira, ela a segura em sua Boca — ela a engolirá? Não, a corajosa Cadela-mãe da Vendedeira de Peixe abandona seus Filhotes e resgata a Nadadeira — que ela come, ela mesma, como sua Recompensa. Oh, horror, o Relâmpago atingiu a cesta de Peixe; ele o incendeia; veja a Chama, como ela lambe o condenado Utensílio com sua língua vermelha e irada; agora ela ataca o Pé da desprotegida Vendedeira de Peixe — ela o queima inteiro, exceto o dedão, e até ELA está parcialmente consumida; e ainda ela se alastra, ainda ela agita suas línguas de fogo; ela ataca a Perna da Vendedeira de Peixe e a destrói; ela ataca sua Mão e destrói A ELA também; ela ataca a Perna da Vendedeira de Peixe e destrói A ELA também; ela ataca seu Corpo e consome-O; ela se enrosca em torno de seu Coração e ELE é consumido; em seguida em torno de seu Peito, e num Instante ELA é uma Cinza; agora alcança seu Pescoço — Ele se vai; agora seu Queixo — ELE se vai; agora seu Nariz — ELA se vai. Num instante mais, salvo se chegar ajuda, a Vendedeira de Peixe não mais existirá. O tempo urge — não há ninguém para socorrer e salvar? Sim! Alegria, alegria, com Pés velozes vem a ela-inglesa! Mas ai, a generosa ela-Fêmea chegou tarde demais: onde está agora a fadada Vendedeira de Peixe? Ela cessou seus Sofrimentos, ela foi para uma Terra melhor; tudo que restou dela para que seus Entes Queridos lamentem é esse pobre fumegante Monte-de-Cinzas. Ah, lamentável, lamentável Monte-de-Cinzas! Recolhamo-lo ternamente, reverentemente, com a humilde Pá, e carreguemo-lo ao seu longo Descanso, com a Prece de que quando ele se levantar novamente seja num Reino onde terá um bom Sexo responsável e bem definido, e o terá todo para si mesmo, em vez de ter uma porção miserável de Sexos sortidos espalhados por todo ele em Manchas.
Pois bem, agora o leitor pode ver por si mesmo que esse negócio de pronomes é uma coisa muito incômoda para a língua desacostumada. Suponho que em todas as línguas as semelhanças de aspecto e som entre palavras que não têm semelhança de significado são uma fonte prolífica de perplexidade para o estrangeiro. Isso ocorre em nossa língua, e é notavelmente o caso em alemão. Ora, há aquela palavra problemática VERMÄHLT: para mim ela tem uma semelhança tão próxima — real ou imaginada — com três ou quatro outras palavras que nunca sei se significa desprezado, pintado, suspeito ou casado; até que consulto o dicionário, e descubro que significa o último. Há muitas palavras assim e são um grande tormento. Para aumentar a dificuldade, há palavras que PARECEM se assemelhar entre si e, no entanto, não se assemelham; mas causam tanto problema quanto se se assemelhassem. Por exemplo, há a palavra VERMIETHEN (alugar, arrendar); e a palavra VERHEIRATHEN (outra maneira de dizer casar). Ouvi de um inglês que bateu na porta de um homem em Heidelberg e propôs, no melhor alemão que conseguia expressar, “verheirathen” aquela casa. Depois há algumas palavras que significam uma coisa quando se enfatiza a primeira sílaba, mas significam algo muito diferente se se coloca a ênfase na última. Por exemplo, há uma palavra que significa um fugitivo, ou o ato de folhear um livro, conforme o posicionamento da ênfase; e outra que significa CONVIVER com um homem, ou EVITÁ-LO, conforme onde se coloque a ênfase — e geralmente se pode contar com colocá-la no lugar errado e se meter em encrenca.
Há algumas palavras excepcionalmente úteis nessa língua. SCHLAG, por exemplo; e ZUG. Há três quartos de coluna de SCHLAGs no dicionário, e uma coluna e meia de ZUGs. A palavra SCHLAG significa Golpe, Pancada, Traço, Batida, Choque, Estalo, Tapa, Vez, Compasso, Moeda, Cunho, Tipo, Espécie, Modo, Jeito, Apoplexia, Corte-de-lenha, Cerca, Campo, Clareira. Esse é seu significado simples e EXATO — isto é, seu significado restrito, acorrentado; mas há maneiras de soltá-lo, para que possa alçar voo, como nas asas da manhã, e nunca ficar em repouso. Pode-se pendurar qualquer palavra que se queira em sua cauda, e fazê-lo significar qualquer coisa que se deseje. Pode-se começar com SCHLAG-ADER, que significa artéria, e pode-se pendurar o dicionário inteiro, palavra por palavra, direto pelo alfabeto até SCHLAG-WASSER, que significa água de sentina — incluindo SCHLAG-MUTTER, que significa sogra.
O mesmo se aplica a ZUG. Estritamente falando, ZUG significa Puxão, Arrasto, Tragada, Procissão, Marcha, Avanço, Voo, Direção, Expedição, Trem, Caravana, Passagem, Golpe, Toque, Linha, Floreio, Traço de Caráter, Feição, Lineamento, Jogada-de-xadrez, Registro-de-órgão, Atrelagem, Baforada, Tendência, Gaveta, Propensão, Inalação, Disposição: mas aquilo que ele NÃO significa — quando todos os seus penduricalhos legítimos foram acrescentados — ainda não foi descoberto.
Não se pode superestimar a utilidade de SCHLAG e ZUG. Armado apenas com essas duas palavras, e com a palavra ALSO, o que não pode o estrangeiro em solo alemão realizar? A palavra alemã ALSO é o equivalente da expressão portuguesa “sabe como é”, e não significa absolutamente nada — na FALA, embora às vezes signifique alguma coisa na escrita. Cada vez que um alemão abre a boca, um ALSO cai; e cada vez que ele a fecha, morde ao meio um que estava tentando SAIR.
Assim, o estrangeiro, equipado com essas três nobres palavras, é senhor da situação. Que fale à vontade, sem medo; que despeje seu alemão indiferente, e quando lhe faltar uma palavra, que jogue um SCHLAG no vácuo; há grandes chances de que caiba como uma rolha, mas se não couber, que promptamente jogue um ZUG atrás; os dois juntos dificilmente deixarão de tampar o buraco; mas se, por milagre, FALHAREM, que diga simplesmente ALSO! — isso lhe dará um momento para pensar na palavra necessária. Na Alemanha, ao carregar sua arma conversacional, é sempre melhor colocar um SCHLAG ou dois e um ZUG ou dois, porque não importa o quanto o restante da carga se disperse, você está fadado a acertar algo com ELES. Depois diz tranquilamente ALSO, e recarrega. Nada dá tanto ar de graça e elegância e desenvoltura a uma conversa alemã ou portuguesa quanto salpicá-la de “Also” ou “Sabe como é”.
Em minha caderneta encontro esta anotação:
1º de julho. — No hospital ontem, uma palavra de treze sílabas foi removida com sucesso de um paciente — um alemão do Norte, de perto de Hamburgo; mas como infelizmente os cirurgiões o abriram no lugar errado, por pensar que ele continha um panorama, ele morreu. O triste evento lançou uma tristeza sobre toda a comunidade.
Esse parágrafo fornece texto para algumas observações sobre uma das mais curiosas e notáveis características do meu tema — o comprimento das palavras alemãs. Algumas palavras alemãs são tão longas que têm perspectiva. Observe estes exemplos:
Freundschaftsbezeigungen.
Dilettantenaufdringlichkeiten.
Stadtverordnetenversammlungen.
Essas coisas não são palavras, são procissões alfabéticas. E não são raras; pode-se abrir um jornal alemão a qualquer momento e vê-las marchando majestosamente pela página — e quem tiver alguma imaginação pode ver as bandeiras e ouvir a música também. Elas transmitem um calafrio marcial ao tema mais humilde. Tenho grande interesse nessas curiosidades. Sempre que me deparo com uma boa, empalho-a e coloco em meu museu. Dessa forma, formei uma coleção bastante valiosa. Quando recebo duplicatas, troco com outros colecionadores e assim aumento a variedade de meu estoque. Aqui estão alguns espécimes que comprei recentemente num leilão dos pertences de um caçador de bugigangas falido:
Generalstaatsverordnetenversammlungen.
Alterthumswissenschaften.
Kinderbewahrungsanstalten.
Unabhaengigkeitserklaerungen.
Wiedererstellungbestrebungen.
Waffenstillstandsunterhandlungen.
Claro que quando uma dessas grandes cadeias montanhosas se estende pela página impressa, adorna e enobrece essa paisagem literária — mas ao mesmo tempo é um grande tormento para o aluno novato, pois bloqueia seu caminho; ele não consegue rastejar por baixo, nem escalar por cima, nem fazer um túnel através. Recorre ao dicionário em busca de ajuda, mas não há ajuda lá. O dicionário precisa traçar uma linha em algum lugar — portanto exclui esse tipo de palavra. E faz bem, porque essas coisas longas mal são palavras legítimas, sendo antes combinações de palavras, e o inventor delas deveria ter sido morto. São palavras compostas sem os hifens. As várias palavras usadas em sua construção estão no dicionário, mas em estado muito disperso; portanto, pode-se caçar os materiais um a um e chegar ao significado afinal, mas é um trabalho tedioso e desgastante. Tentei esse processo com alguns dos exemplos acima. “Freundschaftsbezeigungen” parece ser “Amizadedemonstração”, o que é apenas uma maneira tola e desajeitada de dizer “demonstrações de amizade.” “Unabhaengigkeitserklaerungen” parece ser “Independênciadeclaração”, o que não é melhora sobre “Declaração de Independência”, ao que me parece. “Generalstaatsverordnetenversammlungen” parece ser “Reuniõesdosrepresentantesdoestadogeral”, tanto quanto consigo entender — um mero eufuísmo rítmico e efusivo para “reuniões da legislatura”, julgo. Costumávamos ter bastante desse tipo de crime em nossa literatura, mas ele saiu de moda. Costumávamos falar de algo como uma circunstância “nunca-a-ser-esquecida”, em vez de comprimi-la na palavra simples e suficiente “memorável” e então seguir tranquilamente nossos afazeres como se nada tivesse acontecido. Naqueles dias não nos contentávamos em embalsamar a coisa e enterrá-la decentemente, queríamos construir um monumento sobre ela.
Mas em nossos jornais, a doença-da-composição persiste um pouco até o dia de hoje, mas sem os hifens, à moda alemã. Esta é a forma que assume: em vez de dizer “O Sr. Simmons, escrivão dos tribunais municipais e distritais, estava na cidade ontem”, a nova forma coloca assim: “Escrivão dos Tribunais Municipais e Distritais Simmons estava na cidade ontem.” Isso não economiza nem tempo nem tinta, e além disso soa estranho. Frequentemente se vê nos nossos jornais uma observação como: “A Sra. Promotora Distrital Assistente Johnson retornou ontem para sua residência na cidade para a temporada.” Esse é um caso de composição verdadeiramente injustificável; porque não só não economiza tempo ou trabalho, como confere à Sra. Johnson um título ao qual ela não tem direito. Mas esses pequenos exemplos são ninharias, em verdade, comparados com o pesado e sombrio sistema alemão de empilhar compostos confusos. Desejo apresentar o seguinte item local de um jornal de Mannheim, como ilustração:
“Na anteontemlogoapósonzehoras da Noite, a taverna chamada ‘O Carroceiro’, situadanestacilade, foiqueimadasubindo. Quando o fogo chegou ao Ninho do Cegonha pousadosobreacarembaixoqueimando, os pais-Cegonhas voaram para longe. Mas quando o próprio Ninho, cercadopelofuriofogo, pegou Fogo, mergulhou imediatamente a Mãe-Cegonhaquevoltavarapidamente nas Chamas e morreu, suas Asas abertas sobre seus filhotes.”
Mesmo a pesada construção alemã não consegue tirar o pathos dessa imagem — na verdade, de alguma forma parece fortalecê-la. Esse item é datado de meses atrás. Poderia tê-lo usado antes, mas estava esperando notícias do Pai-cegonha. Ainda espero.
“ALSO!” Se não demonstrei que o alemão é uma língua difícil, ao menos foi minha intenção fazê-lo. Ouvi falar de um estudante americano a quem foi perguntado como estava indo com seu alemão, e que respondeu prontamente: “Não estou indo nada. Trabalhei nisso arduamente por três meses seguidos, e tudo que tenho a mostrar é uma única expressão alemã — ‘ZWEI GLAS'” (dois copos de cerveja). Fez uma pausa por um momento, pensativo; depois acrescentou com emoção: “Mas essa eu sei DE COR!”
E se também não demonstrei que o alemão é um estudo angustiante e enlouquecedor, minha execução foi falha, e não minha intenção. Ouvi recentemente de um desgastado e muito experimentado estudante americano que costumava recorrer a certa palavra alemã como alívio quando não conseguia mais aguentar suas aflições — a única palavra cujo som era doce e precioso para seus ouvidos e curativo para seu espírito lacerado. Essa palavra era DAMIT. Era apenas o SOM que o ajudava, não o significado;
3 e assim, por fim, quando descobriu que a ênfase não era na primeira sílaba, seu único apoio e sustentação tinha desaparecido, e ele foi definhando até morrer.
Creio que a descrição de qualquer episódio barulhento, agitado e tumultuoso deve ser mais monótona em alemão do que em português. Nossas palavras descritivas desse caráter têm um som tão profundo, forte e ressonante, enquanto seus equivalentes alemães parecem tão fracos, brandos e sem energia. Boom, burst, crash, roar, storm, bellow, blow, thunder, explosion; howl, cry, shout, yell, groan; battle, hell. Essas são palavras magníficas em inglês; têm uma força e grandiosidade de som condizente com as coisas que descrevem. Mas seus equivalentes alemães serviriam perfeitamente para adormecer crianças, ou então meus ouvidos inspiradores de terror foram feitos para exibição e não para utilidade superior na análise de sons. Algum homem quereria morrer numa batalha chamada por um termo tão manso quanto SCHLACHT? Ou um tísico não se sentiria abafado demais, prestes a sair, de colarinho e anel de sinete, para uma tempestade que a palavra-canto-de-pássaro GEWITTER foi empregada para descrever? E observe o mais forte dos vários equivalentes alemães para explosão — AUSBRUCH. Nossa palavra Escova-de-dentes é mais poderosa do que isso. Parece-me que os alemães poderiam fazer pior do que importá-la para sua língua para descrever explosões particularmente tremendas. A palavra alemã para inferno — Hölle — soa mais como HELLY do que qualquer outra coisa; portanto, que coisa alegrezinha, frívola e sem impressionar é ela. Se alguém fosse mandado para lá em alemão, poderia realmente se elevar à dignidade de se sentir insultado?
Tendo apontado, em detalhe, os vários vícios desta língua, passo agora à breve e agradável tarefa de apontar suas virtudes. A capitalização dos substantivos já mencionei. Mas muito acima dessa virtude está outra — a de soletrar uma palavra de acordo com seu som. Após uma breve lição no alfabeto, o estudante consegue dizer como qualquer palavra alemã é pronunciada sem ter de perguntar; ao passo que em nossa língua, se um estudante nos perguntasse “Como se lê B, O, W?”, seríamos obrigados a responder: “Ninguém pode dizer como se lê quando está sozinho; só se pode saber consultando o contexto e descobrindo o que significa — se é um arco para disparar flechas, ou uma inclinação de cabeça, ou a proa de um barco.”
Há algumas palavras alemãs que são singularmente e poderosamente eficazes. Por exemplo, aquelas que descrevem a vida doméstica humilde, pacífica e afetuosa; as que lidam com o amor, em todas e quaisquer formas, desde o mero sentimento amistoso e a honesta boa vontade para com o transeunte, até o cortejo; as que lidam com a Natureza ao ar livre, em seus aspectos mais suaves e adoráveis — com prados e florestas, pássaros e flores, a fragrância e o sol do verão, e o luar das tranquilas noites de inverno; em suma, aquelas que lidam com todas e quaisquer formas de repouso, descanso e paz; as que também lidam com as criaturas e maravilhas do mundo das fadas; e por fim e principalmente, nas palavras que expressam pathos, a língua é surpassantemente rica e afetiva. Há canções alemãs que fazem chorar um desconhecido da língua. Isso mostra que o SOM das palavras está correto — ele interpreta os significados com verdade e exatidão; e assim o ouvido é informado, e através do ouvido, o coração.
Os alemães não parecem ter medo de repetir uma palavra quando é a certa. Repetem-na várias vezes, se assim desejam. Isso é sábio. Mas em português, quando usamos uma palavra duas vezes num parágrafo, imaginamos que estamos ficando tautológicos, e então somos fracos o bastante para trocá-la por alguma outra que apenas se aproxima da exatidão, para escapar do que erroneamente julgamos ser um defeito maior. A repetição pode ser ruim, mas certamente a inexatidão é pior.
Há pessoas no mundo que se darão ao trabalho de apontar as falhas de uma religião ou de uma língua, e depois seguirão tranquilamente seus afazeres sem sugerir nenhum remédio. Não sou esse tipo de pessoa. Demonstrei que a língua alemã precisa de reforma. Muito bem, estou pronto para reformá-la. Pelo menos estou pronto para fazer as sugestões adequadas. Tal atitude poderia ser imodesta em outro; mas dediquei mais de nove semanas completas, ao todo, a um estudo cuidadoso e crítico dessa língua, e assim adquiri uma confiança em minha capacidade de reformá-la que nenhuma cultura meramente superficial poderia ter conferido a mim.
Em primeiro lugar, suprimiria o caso Dativo. Ele confunde os plurais; e, além disso, ninguém sabe quando está no caso Dativo, exceto por acidente — e então não sabe quando ou onde entrou nele, nem há quanto tempo está nele, nem como vai sair dele. O caso Dativo é apenas uma frivolidade ornamental — é melhor descartá-lo.
Em segundo lugar, movia o Verbo mais para a frente. Pode-se carregar um Verbo muito bom, mas noto que nunca se derruba realmente um sujeito com ele no alcance atual do alemão — apenas se o deixa claudicante. Portanto, insisto em que essa importante parte do discurso seja trazida para uma posição onde possa ser facilmente vista a olho nu.
Em terceiro lugar, importaria algumas palavras fortes da língua inglesa — para praguejar, e também para usar ao descrever todo tipo de coisas vigorosas de maneira vigorosa.4
Em quarto lugar, reorganizaria os sexos, e os distribuiria de acordo com a vontade do criador. Como tributo de respeito, se não por outra razão.
Em quinto lugar, acabaria com aquelas grandes palavras compostas longas; ou exigiria que o falante as pronunciasse em seções, com intervalos para refrigério. Acabar completamente com elas seria o melhor, pois as ideias são mais facilmente recebidas e digeridas quando chegam uma de cada vez do que quando chegam em bloco. O alimento intelectual é como qualquer outro; é mais agradável e benéfico tomá-lo com uma colher do que com uma pá.
Em sexto lugar, exigiria que um falante parasse quando terminasse, em vez de pendurar uma série de inúteis “haven sind gewesen gehabt haben geworden seins” no fim de sua oração. Esses tipos de bugigangas indignicam um discurso, em vez de lhe acrescentar graça. São, portanto, uma ofensa, e devem ser descartados.
Em sétimo lugar, descartaria o Parêntese. Também o reparêntese, o re-reparêntese, e o re-re-re-re-re-reparêntese, e igualmente o super-parêntese final de longo alcance que tudo engloba. Exigiria que todo indivíduo, seja ele alto ou baixo, desdobrasse uma história simples e direta, ou então a enrolasse e sentasse sobre ela e ficasse quieto. As infrações dessa lei deveriam ser puníveis com a morte.
E em oitavo lugar, e por último, reteria ZUG e SCHLAG, com seus penduricalhos, e descartaria o restante do vocabulário. Isso simplificaria a língua.
Nomeei agora o que considero as mudanças mais necessárias e importantes. Essas são talvez todas que se poderia esperar que eu nomeasse de graça; mas há outras sugestões que posso e farei caso minha proposta candidatura resulte em meu emprego formal pelo governo na obra de reforma da língua.
Meus estudos filológicos me convenceram de que uma pessoa dotada deveria aprender o inglês (excluindo ortografia e pronúncia) em trinta horas, o francês em trinta dias, e o alemão em trinta anos. Parece manifesto, então, que essa última língua deveria ser aparada e consertada. Se vai permanecer como está, deveria ser gentil e reverentemente posta de lado entre as línguas mortas, pois somente os mortos têm tempo de aprendê-la.
UM DISCURSO DE QUATRO DE JULHO NA LÍNGUA ALEMÃ, PROFERIDO NUM BANQUETE DO CLUBE ANGLO-AMERICANO DE ESTUDANTES PELO AUTOR DESTE LIVRO
Senhores: Desde que cheguei, há um mês, a esta velha terra das maravilhas, este vasto jardim da Alemanha, minha língua portuguesa tantas vezes se mostrou uma bagagem inútil para mim, e tão trabalhosa de carregar num país onde não há sistema de guarda-volumes para bagagens, que afinal me pus ao trabalho e aprendi a língua alemã. Also! Es freut mich dass dies so ist, denn es muss, in ein hauptsächlich degree, höflich sein, dass man auf ein occasion like this, sein Rede in die Sprache des Landes worin he boards, aussprechen soll. Dafür habe ich, aus reinische Verlegenheit — no, Vergangenheit — no, quero dizer Hoflichkeit — aus reinische Hoflichkeit habe ich resolved to tackle this business in the German language, um Gottes willen! Also! Sie müssen so freundlich sein, und verzeih mich die interlarding von ein oder zwei Englischer Worte, hie und da, denn ich finde dass die deutsche is not a very copious language, and so when you’ve really got anything to say, you’ve got to draw on a language that can stand the strain.
Wenn haber man kann nicht meinem Rede Verstehen, so werde ich ihm später dasselbe übersetz, wenn er solche Dienst verlangen wollen haben werden sollen sein hätte. (Não sei o que wollen haben werden sollen sein hätte significa, mas noto que sempre colocam no fim de uma frase alemã — meramente para suntuosidade literária geral, suponho.)
Este é um dia grande e justamente honrado — um dia digno da veneração em que é mantido pelos verdadeiros patriotas de todos os climas e nacionalidades — um dia que oferece um tema frutífero para reflexão e discurso; und meinem Freunde — no, meinEN FreundEN — meinES FreundES — bem, escolha o que quiser, custam o mesmo; não sei qual está certo — also! ich habe gehabt haben worden gewesen sein, como Goethe diz em seu Paraíso Perdido — ich — ich — isto é — ich — mas vamos trocar de trem.
Also! Die Anblick so viele Grossbrittanischer und Amerikanischer hier zusammengetroffen in Bruderliche concord, ist zwar a welcome and inspiriting spectacle. E o que os moveu a isso? Pode a terse língua alemã se elevar à expressão desse impulso? É Freundschaftsbezeigungenstadtverordnetenversammlungenfamilieneigenthumlichkeiten? Nein, o nein! Esta é uma palavra nítida e nobre, mas não consegue penetrar o âmago do impulso que reuniu este amistoso encontro e produziu diese Anblick — eine Anblick welche ist gut zu sehen — gut für die Augen numa terra estrangeira e num país distante — eine Anblick solche als in die gewöhnliche Heidelberger phrase nennt man ein “schönes Aussicht!” Ja, freilich natürlich wahrscheinlich ebensowohl! Also! Die Aussicht auf dem Konigsstuhl mehr grösser ist, aber geistlische sprechend nicht so schön, lob’ Gott! Because sie sind hier zusammengetroffen, in Bruderlichem concord, ein grossen Tag zu feirn, cujos altos benefícios não eram para uma terra e uma localidade, mas conferiram uma medida de bem sobre todas as terras que conhecem a liberdade hoje, e a amam. Hundert Jahre vorüber, waren die Engländer und die Amerikaner Feinde; aber heut sind sie herzlichen Freunde, Gott sei Dank! Que esta boa camaradagem perdure; que estas bandeiras aqui misturadas em amizade assim permaneçam; que nunca mais ondule sobre hostes opostas, nem seja manchada de sangue que era parente, é parente, e sempre será parente, até que uma linha traçada num mapa seja capaz de dizer: “ISTO barra o sangue ancestral de fluir nas veias do descendente!”
NOTAS
1 Wenn er aber auf der Strasse der in Sammt und Seide gehüllten jetz sehr ungenirt nach der neusten mode gekleideten Regierungsrathin begegnet.
2 Emprego as maiúsculas nos substantivos, à moda alemã (e do inglês antigo).
3 Significa apenas, em seu sentido geral, “com isso” ou “assim”.
4 “Verdammt”, e suas variações e ampliações, são palavras que têm bastante significado, mas os SONS são tão brandos e ineficazes que as damas alemãs podem usá-los sem pecado. Damas alemãs que não poderiam ser induzidas a cometer um pecado por nenhuma persuasão ou compulsão, prontamente soltam uma dessas palavrinhas inofensivas quando rasgam seus vestidos ou não gostam da sopa. Soa mais ou menos tão pecaminoso quanto nosso “Nossa Senhora.” As damas alemãs vivem dizendo “Ach! Gott!” “Mein Gott!” “Gott in Himmel!” “Herr Gott” “Der Herr Jesus!” etc. Elas acham que nossas senhoras têm o mesmo costume, talvez; pois certa vez ouvi uma gentil e adorável velha senhora alemã dizer a uma doce jovem americana: “As duas línguas são tão parecidas — que agradável; nós dizemos ‘Ach! Gott!’ vocês dizem ‘Goddamn.'”

Deixe uma resposta