A arquitetura do século XX foi construída em uma modernidade orientada para o futuro. Tem como eixos promessas de eficiência e progresso, suas tensões entre o coletivo e o individual e sua dúvida crescente quanto à suficiência da racionalidade diante da complexidade da experiência humana.
Sob as rubricas de estilos moderno (e pós-modernos), esse século viu uma sucessão de estilos. Incluiu o Estilo Internacional, que prometeu uma concepção arquitetônica universal para uma era de interconexão global. Recepcionou Brutalismo, que expôs a matéria bruta da construção como ato de honestidade política; ao Expressionismo, que libertou a forma das amarras da funcionalidade para explorar o território da emoção e do símbolo. Fechamos o século com o Pós-modernismo e o Desconstrutivismo, movimentos que, cada um a seu modo, questionaram se a arquitetura deveria padronizada, ou se poderia ser, ela mesma, uma Babel de referências, ironias e fragmentos.
Quando Le Corbusier desenhou seus cinq points de l’architecture moderne na década de 1920, dificilmente imaginava que pilotis e plantas livres serviriam para sustentar um mundo em transformações drástica. A invenção do concreto armado veio para revolucionar a engenharia civil e a arquitetura. Seria a marca desse século.

O Estilo Internacional e sua tropicalização
O Estilo Internacional surgiu no início do século XX e refletiu a crescente interconexão da prática arquitetônica na Europa, nas Américas e em outras regiões. Em vez de pertencer a uma única nação, ele se formou por meio de trocas transnacionais entre arquitetos que atuavam em lugares tão diversos quanto Alemanha, França, Finlândia e, mais tarde, América Latina e Japão. Seus proponentes apresentavam a arquitetura como uma disciplina racional e até científica, que valorizava a eficiência, a padronização e os novos materiais industriais.
O Estilo Internacional nunca foi adotado de forma rígida no Brasil. A racionalidade formal, o uso de concreto armado e a valorização de volumes puros foram amplamente incorporados. Rapidamente, porém, esses elementos se adaptaram ao clima e à vida cotidiana.
Brasília, inaugurada em 1960, talvez seja o exemplo mais ambicioso dessa adaptação. A cidade pensada em escala monumental. Arquitetos como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a redefinir o estilo. Em vez de fachadas totalmente seladas, surgiram elementos como brises-soleil, cobogós e pilotis, que permitem ventilação e proteção solar. O edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, é um marco dessa síntese entre princípios internacionais e soluções tropicais.
Entre as características principais estão superfícies planas, clareza geométrica, plantas livres e o uso extensivo de vidro, aço e concreto armado. O ornamento foi largamente rejeitado em favor da abstração. Embora muitas vezes associado a obras icônicas europeias, o estilo foi amplamente adaptado às condições locais, seja em climas tropicais, onde dispositivos de sombreamento se tornaram essenciais, ou em regiões de urbanização rápida, onde ele orientou projetos habitacionais e cívicos. Com o tempo, sua linguagem visual se tornou uma espécie de código global para a modernidade, ainda que tenha sido criticado por ignorar tradições locais e especificidades ambientais.
Brutalismo
O Brutalismo se desenvolveu em meados do século XX e tomou forma em diversas regiões, incluindo o Reino Unido, a Europa Oriental, o Sul da Ásia e partes da África. O nome deriva de béton brut, ou concreto bruto. Destaca a preferência por materiais expostos e a ênfase na honestidade estrutural.
Os edifícios brutalistas costumam ser monumentais, com formas audaciosas e forte senso de massa. Eles foram usados em instituições públicas, como universidades, prédios governamentais e habitações sociais. Isso refletia as ambições do pós-guerra em direção ao bem-estar coletivo e à identidade cívica. Em muitos países, o estilo se entrelaçou com esforços de construção nacional, especialmente em Estados recém-independentes que buscavam expressões arquitetônicas de autonomia e progresso.
Embora tenha sido criticado mais tarde por sua severidade ou por sua associação com o poder burocrático, muitas estruturas brutalistas passam hoje por reavaliação, tanto por suas qualidades escultóricas quanto por seu significado histórico.
No Brasil, o Brutalismo ganhou uma expressão singular, especialmente em São Paulo, onde ficou conhecido como brutalismo paulista. Mais do que uma estética, tratava-se de uma posição ética e política diante da arquitetura.
Arquitetos como Vilanova Artigas defenderam o uso do concreto aparente como afirmação de sinceridade construtiva. Obras como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP revelam espaços amplos, estruturas expostas e uma forte dimensão coletiva.
Diferentemente de outras vertentes internacionais, o brutalismo brasileiro frequentemente buscava criar espaços democráticos, abertos à convivência, mesmo dentro de um contexto marcado por desigualdades e, em certos momentos, por regimes autoritários.
Expressionismo
O Expressionismo arquitetônico, mais proeminente no início do século XX, explorou o potencial emocional e simbólico da forma. Embora tenha tido raízes fortes na Europa Central, sua influência se estendeu mais amplamente e inspirou movimentos posteriores e o design experimental contemporâneo em todo o mundo.
A arquitetura expressionista se caracteriza por formas dinâmicas, geometrias não convencionais e um tratamento quase escultórico dos materiais. Os edifícios muitas vezes parecem fluidos, fragmentados ou orgânicos, como se moldados por forças internas e não por regras externas. Essa abordagem buscava ir além do funcionalismo estrito e se engajar com a imaginação, a percepção e o inconsciente.
Embora tenha sido um movimento relativamente curto como definição precisa, seu legado persiste na arquitetura contemporânea que prioriza a criação de formas, a narrativa e o impacto experiencial.
Embora o Expressionismo não tenha se consolidado como movimento organizado no Brasil, sua influência pode ser percebida na liberdade formal de muitos projetos modernistas. Nesse sentido, a obra de Oscar Niemeyer é novamente central.
Edifícios como a Catedral de Brasília ou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói exploram curvas, dramaticidade e plasticidade. Eles aproximam a arquitetura de uma experiência sensorial e simbólica. Aqui, o concreto deixa de ser apenas estrutura e passa a ser também expressão.
Essa ênfase na forma, muitas vezes inspirada na paisagem — montanhas, litoral, horizontes amplos —, contribuiu para uma identidade arquitetônica reconhecível internacionalmente.
Pós-modernismo e Desconstrutivismo
No final do século XX, o descontentamento com a uniformidade percebida do modernismo levou a uma pluralidade de novas abordagens. O Pós-modernismo surgiu em diferentes regiões como uma crítica à austeridade. Ele reintroduziu cor, ornamento e referências a estilos históricos. Em vez de rejeitar o passado, abraçou-o, muitas vezes de forma lúdica ou irônica, e recorreu a diversas tradições arquitetônicas de várias culturas.
Ao mesmo tempo, outros arquitetos buscaram afastamentos mais radicais. O Desconstrutivismo, influenciado por ideias filosóficas e por movimentos de vanguarda anteriores, fragmentou as formas convencionais e desafiou as expectativas de ordem e estabilidade. Os edifícios nesse modo muitas vezes parecem desconjuntados ou em movimento. Eles refletem um mundo entendido como complexo, instável e aberto à reinterpretação.
Ambas as tendências se espalharam internacionalmente. Foram moldadas por contextos locais, mas conectadas por meio do discurso global, de exposições e de intercâmbios acadêmicos.
No Brasil, o pós-modernismo não teve a mesma força programática que em outros países. O estilo se manifestou de maneira difusa, sobretudo a partir dos anos 1980. Em vez de uma ruptura clara, houve uma convivência modernismo tardio, referências históricas, soluções vernaculares e influências globais.
Arquitetos começaram a explorar maior diversidade formal e simbólica. Eles dialogavam tanto com tradições locais quanto com tendências internacionais. Em muitos casos, essa mistura reflete a própria complexidade cultural brasileira, marcada por sobreposições e contrastes.
Verticalização e urbanização
O desenvolvimento de edifícios altos no Brasil está diretamente ligado ao processo de urbanização acelerada do século XX. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro passaram por intensa verticalização, impulsionada por crescimento econômico, especulação imobiliária e mudanças nos modos de vida.
Exemplos como o Edifício Copan mostram como a arquitetura moderna foi adaptada à escala metropolitana. Ela combinou densidade com soluções formais inovadoras.
Ao mesmo tempo, essa verticalização convive com formas informais de ocupação, como as favelas, que também produzem uma arquitetura própria. Frequentemente ignorada pelos discursos tradicionais, essa arquitetura é fundamental para compreender a realidade urbana brasileira.
As tradições iniciais dos edifícios altos e a modernidade global
O desenvolvimento de edifícios altos costuma ser associado a cidades específicas, mas é melhor compreendido como parte de uma transformação tecnológica e econômica mais ampla que se desenrolou em várias regiões. Avanços em materiais, sistemas estruturais e transporte vertical permitiram novos tipos de construção que responderam à densidade urbana e ao crescimento comercial.
Arquitetos em diferentes partes do mundo experimentaram essas possibilidades. Eles as adaptaram às condições locais e às expectativas culturais. Embora certos exemplos iniciais tenham se tornado especialmente influentes, a evolução da arquitetura de arranha-céus não se limitou a um único lugar ou tradição. Em vez disso, ela reflete uma convergência de inovação, infraestrutura e intercâmbio global.
Atualizado em 15 de abril de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Tendências arquitetônicas no século XX. Ensaios e Notas, 2019. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2019/12/17/tendencias-arquitetonicas-no-seculo-xx/. Acesso em: 15 abr. 2026.
