Norbert Elias e o processo civilizador

Norbert Elias, nascido em Breslau em 1897, dedicou sua vida a desvendar as complexas teias que moldam o comportamento humano em sociedade. Sua obra O Processo Civilizador, lançada em 1939, oferece uma análise das transformações nas estruturas de personalidade e nas normas sociais de conduta que ocorreram na Europa Ocidental desde o século XVI. Elias argumenta que esse processo, longe de ser linear ou planejado, é fruto de um “dinamismo social específico” que desencadeia mudanças psicológicas de longa duração, resultando em um controle emocional mais acentuado e em um “avanço do patamar do embaraço e da vergonha”.

Elias serviu na Primeira Guerra Mundial, testemunhando a brutalidade da violência em massa. Foi forçado aa exilar-se da Alemanha durante a ascensão do nazismo, o que resultou na morte de seus pais. Essas experiências, aliadas à sua imersão na cultura alemã e em obras de Goethe, Schiller e Kant, proporcionaram-lhe uma perspectiva única sobre a fragilidade da civilização e a importância do autocontrole.

Em O Processo Civilizador, Elias explora a transformação das normas sociais de conduta e dos sentimentos, especialmente entre as classes altas europeias. Ele ilustra essa mudança através da comparação de citações contrastantes, revelando uma crescente preocupação com o decoro e o refinamento no comportamento. Esse processo, impulsionado pela formação dos Estados modernos e pelo agrupamento da nobreza nas cortes, implicou em uma regulamentação mais estrita e equilibrada da conduta e das emoções, com a supressão de características consideradas “animais”.

Elias enfatiza que o processo civilizador não é um fenômeno inerentemente positivo ou negativo. Embora resulte em um menor grau de tolerância à violência, ele também acarreta tensões psíquicas, à medida que o conflito é transferido para o interior do indivíduo. O autocontrole crescente exige um investimento cada vez maior dos pais na educação dos filhos, e há sempre o risco de retrocessos e processos descivilizatórios.

A teoria do processo civilizador seria uma transformação de longa duração na “estrutura da personalidade”. Novas formas de pensar e se comportar são interiorizadas e exteriorizadas, moldando a maneira como os indivíduos se relacionam consigo mesmos e com os outros. Esse processo, impulsionado pelo “mecanismo régio” e pelas relações de poder entre a nobreza e a burguesia, não foi planejado nem inevitável, mas sim o resultado de uma configuração histórica específica.

Ao contrário de algumas interpretações, Elias não via a civilização como um estágio superior de desenvolvimento alcançado pelo Ocidente. Ele reconhecia o caráter etnocêntrico e evolucionista do termo “civilização”, mas o utilizava para descrever um processo histórico específico, marcado pelo aumento do autocontrole e pela imposição de barreiras emocionais. Em sua visão, a humanidade está em constante processo de se tornar civilizada, e a tarefa dos intelectuais é lançar luz sobre as mitologias que obscurecem nossa compreensão da sociedade, a fim de que possamos agir de forma mais sensata e construtiva.

A obra de Norbert Elias, com sua análise sociogenética do processo civilizador permite a compreensão da interdependência humana e da dinâmica das relações sociais. Sua ênfase no controle das emoções e na busca por um convívio pacífico ressoa com осо desafios do mundo contemporâneo, e sua defesa do papel dos intelectuais como agentes de esclarecimento e transformação social permanece como um farol de esperança em tempos de ceticismo e niilismo.

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