A Narrativa de Arthur Gordon Pym

 

Gordon Pym. Magritte

René Magritte. La reproduction interdite. 1937.

Na ilha de Nantucket na Nova Inglaterra, o jovem Arthur Gordon Pym embarca clandestinamente no navio baleeiro Grampus, ajudado pelo amigo Augustus Barnard, que o esconde no porão. O que era para ser uma aventura e singrar os mares conhecendo o mundo acaba de forma inusitada.

A obra começa com uma nota introdutória do narrador-protagonista Pym. Temendo seu relato ser considerado fantástico demais, seu editor Edgar Allan Poe convence-o a apresentá-la “sob o aspecto de ficção”.

Narrado de primeira pessoa e interpolado com anotações de viagens, Pym conta suas peripécias de fome, sede, naufrágio, motins a bordo, tubarões, tempestade, ilhas com nativos hostis, um navio fantasma à deriva com toda a tripulação morta e inscrições misteriosas.

O tesemunho termina abruptamente, com os últimos sobreviventes da jornada, Pym, seu amigo Dik Peters e Nu-nu, um nativo de uma ilha misteriosa que tem fobia de tudo que seja branco, rumando à Antártida e encontrando um misterioso vulto:

Março 22. As trevas haviam sensivelmente aumentado, aliviadas somente pelo clarão da água refletindo da branca cortina diante de nós. Numerosas aves gigantescas e dum branco lívido voavam continuamente agora por trás do véu, e o seu grito era o sempiterno Tekeli-li!, ao se afastarem de nossa visão. De súbito, Nu-Nu agitou-se no fundo do bote, mas, ao tocá-lo, percebemos que a sua alma se havia evolado. E agora nós nos precipitávamos para o seio da catarata, onde se escancarava um abismo para receber-nos. Mas ergueu-se, então, em nosso caminho, uma figura humana amortalhada bem maior de proporções que qualquer habitante da terra. E a cor da pele desse vulto tinha a perfeita brancura da neve.

Em uma nota em apêndice, o “editor” Poe explica que Pym morreu em um acidente e que Peters vive no Illinois, mas não o pode contatar. Divaga sobre os símbolos misteriosos e especula que a história pode ainda ser completada.

E não faltaram gente que se inspiraram no romance de Poe.

Continuando a aventura, Jules Verne escreveu A esfinge dos gelos (1895) reporta outra viagem de Dik Peters para os mares antárticos. Outra obra derivada, Uma estranha descoberta (1899) escrito por um médico de Illinois, Charles Romeyn Dake, continua a história com o relato de um paciente seu, Dirk Peters.  O autor de ficção científica Rudy Rucker em The Hollow Earth [A Terra oca] (1990) retrata Poe em uma expedição ao polo sul em busca do colossal buraco polar. (Em alguns círculos, a obra ainda popularizou a teoria da terra oca).

Outro autor francês, Dominique André  escreveu La Conquête de l’Eternel (1947) para especular sobre a imortalidade das misteriosas criaturas da Antártida. O continente também foi cenário para At the Mountains of Madness [Nas montanhas da Loucura](1936) de H. P. Lovecraft. O autor da ficção weird providenciou uma explicação assombrosa para esses seres.

A própria realidade, imitando a ficção, parece imitar a obra. A cena de tirar a sorte para escolher qual dos náufragos será canibalizado, caindo o azar para Richard Parker. Em 1884, o iate britânico Mignonette afundou e os sobreviventes mataram um dentre eles para comer. O nome da vítima era Richard Parker. Logo depois, um navio alemão, Moctezuma os resgatou a mil milhas do Rio de Janeiro. Não sem motivo, o tigre náufrago de As aventuras de Pi de Yann Martel chamava-se Richard Parker.

Na obra de Poe a ilha Tsalal tem tudo negro: até os dentes dos nativos (malévolos, por sinal) é negro. Com isso em mente, a sátira Pym (2011) de Mat Johnson retrata uma expedição posterior ao mesmo cenário e critica o contraste branco/negro do romance.

Talvez para enrolar, pois o romance foi publicado em séries de folhetins, Poe recheia seu livro com histórias de navegação, algo reminiscente dos antigos périplos e crônicas marítimas. Tão monótono quanto uma viagem marítima. Usa também copiosos termos náuticos, recurso que inspiraria Melville em sua obra-prima Moby-Dick. Dá até para caçar alusões de Melville, como no capítulo 42 “A brancura da baleia”, além de paralelos entre Capitão Barnard e Ahab, Dirk Peters e Queequeg,  Pym e Ishmael.

Como mencionado, Poe lançou os capítulos em 1837 na revista Southern Literary Messenger, mas interromperia a publicação, lançando-a integralmente em 1838 em Nova Iorque e Londres. Seria o único romance publicado por Poe.

LEIA O LIVRO

The Narrative of Arthur Gordon Pym of Nantucket, em inglês. Project Gutenberg.

O Relato de Arthur Gordon Pym. Tradução de Arthur Nestrovski. Porto Alegre: L&PM, 1997.

A Narrativa de Arthur Gordon Pym. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. Com prefácio de Dostoiévski e posfácio de Baudelaire. Cosac & Naify: São Paulo, 2010.

Site dedicado ao livro (em inglês)

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Navegando com O Navio de Teseu

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