Sibelius: centenário da independência da Finlândia

O compositor finlandês Jean Sibelius (1865 – 1957), além de suas criações originais, entrou na história como um dos forjadores da identidade finlandesa. Nascido quando seu país estava sob domínio russo, esse sueco-finlandês compôs várias peças baseadas no folclore nacional. Uma de suas mais notáveis obras é o poema sinfônico Finlandia (1899), o qual se tornou um canto de resistência de seu povo, cuja independência foi declarada no dia 6 de dezembro de 1917.

jean-sibelius-3Sibelius apresentou seu poema sinfônico em 1899, ano quando Nicolau II da Rússia deu um golpe na autonomia do Grão-Ducado da Finlândia, censurando a imprensa, retirando os poderes da Assembleia, retirando a competência de suas agências executivas e forças armadas.

Organizado em seis tableaux, o poema sinfônico conta a história da Finlândia. O último tableau destaca-se de tal forma que Sibelius depois fez um arranjo separado para ela, tornando-se melodia de vários hinos cristãos, notavelmente cantado com as traduções do poema Stille, meine Wille da pietista alemã Catharina von Schlegel (1697– 1768).

Nas confusões da Revolução Russa os finlandeses conseguiram garantir sua independência, mas com um alto custo. O país passou por uma guerra civil e, mais tarde, uma “colaboração” forçada que resultou em uma efetiva ocupação pelos nazistas durante a 2a Guerra.

O país dos mil lagos nasceu pobre, majoritariamente agrário, com poucos recursos naturais, com vizinhanças ameaçadoras. Todavia, com uma população letrada desde a Reforma, apostou todas suas fichas na educação. Apesar da recente crise que fez companhias como a Nokia quebrar, o país é hoje um modelo de desenvolvimento humano e econômico, liderando em inovação.

O poema de Sibelius possui um prelúdio e seis tableaux, como se segue:

Preludium: Andante (ma non troppo)

Tableau 1: A canção de Väinämöinen

O herói Väinämöinen do épico Kalevala introduz a história do povo finlandês, encantando a natureza com sua canção. Väinämöinen é um misto de herói, deus, xamã e mago, cujas peripécias derrotam as forças do caos. Sentado sobre uma rocha, Väinämöinen tange seu kantele, tradicional instrumento finlandês, atraindo os moradores das míticas Kaleva e Pohjola, os personagens fantásticos do Kalevala.

Tableau 2: Batismo dos finlandeses

No século XII o missionário inglês (ou escocês) Henrik (?– m.1156), provável bispo de Uppsala, acompanhou a cruzada do rei Érico IX (?– m. 1160) da Suécia, à Finlândia. O batismo dos finlandeses por Henrik marcou o início da cristianização formal do país e sua inserção na sociedade europeia, fazendo comércio com a Liga Hanseática e a República de Novgorod.

Tableau 3: Cena da corte do duque Juhana

O duque Juhana (Johan III dos Suecos) (1537– 1592) e sua esposa Katarina Jagellonica (1526 – 1583) fizeram de sua corte em Turku (Åbo), a antiga capital, o centro renascentista do país. A estada filho do poderoso rei Gustavo Vasa nessa então província sueca contribuiu para a valorização da língua finlandesa, também fortalecida pela tradução da Bíblia pelo bispo de Turku, o reformador Mikael Agricola (c. 1510 – 1557).

Tableau 4:  A Cavalaria finlandesa

Hakkapeliitta foi a cavalaria finlandesa durante a Guerra dos Trinta Anos (1618 – 1648). O termo vem do grito de guerra hakkaa päälle! (Acabem com eles!) desse disciplinado regimento que garantiu várias vitórias para o Reino Sueco nos países da Europa Central.

Tableau 5: A Grande Hostilidade

Entre 1714 e 1721 a Finlândia foi invadida e saqueada pelos russos durante a isoviha — a Grande Hostilidade — na Grande Guerra Nórdica. Este tableau era um desafio à censura imposta à imprensa finlandesa por Nicolau II.  Nessa parte do poema, a Finlândia é retratada como uma mãe com seus filhos abandonados no frio, enfrentando a guerra, o gelo, a fome e a morte.

Tableau 6: A Finlândia desperta-se

A parte final, cantada, retrata o despertar da nação finlandesa, cheia de esperanças. Apresento sua letra e uma tradução livre.

Oi Suomi, katso, Sinun päiväs koittaa,

yön uhka karkoitettu on jo pois,

ja aamun kiuru kirkkaudessa soittaa

kuin itse taivahan kansi sois.

Yön vallat aamun valkeus jo voittaa,

sun päiväs koittaa, oi synnyinmaa.

O, Finland, se, din morgonljusning randas,

och natten skingras hotfullt mörk och lång.

Hör lärkans röst med rymdens susning blandas,

snart rymden fylles av jubelsång.

Se natten flyr och fritt du åter andas.

Din morgon ljusnar, o fosterland.

 

Oh, Finlândia, mire a tua aurora

A ameaça da noite se dissipa.

A cotovia canta a luz da manhã,

Que cobre o azul cestial,

E vence o poder da noite,

Oh, luz matinal, Finlândia nossa!

 

Oi nouse, Suomi, nosta korkealle

pääs seppälöimä suurten muistojen,

oi nouse, Suomi, näytit maailmalle

sä että karkoitit orjuuden

ja ettet taipunut sä sorron alle,

on aamus alkanut, synnyinmaa.

Stig högt, vårt land, som du ur natt dig höjde.

Den dag dig väntar, fritt och öppet möt

med samma kraft, med samma mod, du röjde,

när träldomsoket du sönderbröt.

Förtrycket aldrig dig till jorden böjde,

Ditt verk väntar, o fosterland.

Pátria, erga-se e levante

Os louros das fortes memórias,

O dia esperando da liberdade

Com a mesma força, coragem que

Rompestes a escravidão.

A opressão nunca te curvou,

Tua obra te aguarda.

SAIBA MAIS

http://www.sibelius.fi/english/musiikki/ork_finlandia.htm

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