O sociólogo e antropólogo francês Pierre Bourdieu (1930–2002) é reconhecido como um dos pensadores mais importantes das ciências sociais contemporâneas, notavelmente por sua tentativa de superar a “mais fundamental e mais ruinosa” das oposições: a dicotomia entre subjectivismo e objectivismo. Sua obra constrói um aparato conceitual complexo que visa explicar como as estruturas sociais se reproduzem, mas também como os indivíduos agem, sem recorrer a um determinismo estrito ou a um voluntarismo ingênuo. A força de sua teoria reside na união dialética entre o individual e o social, a prática e a estrutura.

O pensador e a gênese etnográfica
Nascido em uma pequena aldeia nos Pireneus, em uma família de classe média baixa, Bourdieu trilhou o caminho da excelência acadêmica, estudando na prestigiada École Normale Supérieure (ENS), onde foi colega de Jacques Derrida. Inicialmente formado em filosofia, com interesse em Husserl, Merleau-Ponty e o jovem Marx, seu grande corte epistemológico e sua conversão à sociologia ocorreram, ironicamente, por meio da experiência etnográfica.
Durante o serviço militar obrigatório na Argélia, em plena guerra de independência (1954–1962), Bourdieu foi confrontado com o colapso das estruturas agrárias tradicionais e a crise da sociedade berbere. Essa experiência, registrada em obras póstumas como Imagens da Argélia, mostrou-lhe o déficit dos esquemas conceituais da antropologia clássica para explicar a disjunção das práticas que observava — como uma moça usando vestes tradicionais, mas dirigindo uma moto. O estranhamento diante da sociedade argelina em rápida transformação o forçou a desenvolver uma nova noção, capaz de mediar a temporalidade das estruturas e o efêmero das práticas, um esforço que mais tarde ele chamaria de teoria da prática ou praxis. Seu retorno à França em 1960 marcou o nascimento de um sociólogo que faria da reflexividade sobre a sua própria posição e trajetória (o Béarn natal versus a Argélia) um motor para a teoria.
A arquitetura conceitual da prática
A sociologia de Bourdieu rejeita a ideia de uma diretriz única ou uma lógica universal que oriente o comportamento social. Em vez disso, ele propõe que a vida social é composta por diversos campos autônomos. Um campo é um microcosmo social, um espaço de posições e de luta estruturado em torno de um elemento específico (o campo científico, o político, o artístico, etc.). Cada campo possui suas próprias regras, suas próprias hierarquias e seus próprios interesses específicos, ou ilusio. A ilusio não é uma ilusão no sentido de mentira, mas sim a crença fundamental e infra-consciente na importância dos objetivos e regras daquele campo em particular.
A ação dos agentes sociais dentro desses campos é guiada pelo habitus. O habitus é um sistema de disposições duráveis e adquiridas por meio da educação e da experiência social, funcionando como categorias de percepção, avaliação e ação. É a estrutura internalizada que gera as práticas. O habitus conecta o indivíduo à sociedade: as escolhas e ações individuais refletem e contribuem para a reprodução do mundo social, mas também marcam a diferença e a estratificação. Essa formulação permite a Bourdieu superar a oposição entre estrutura (o campo objetivo) e agência (o habitus subjetivo), que se encontram na prática social.
A luta nos campos se dá pela acumulação de capital, que não se resume apenas ao capital econômico. Bourdieu generaliza o conceito de capital de Marx para todas as atividades sociais:
- O capital econômico (renda e patrimônio) é a forma mais evidente de recurso.
- O capital cultural mede o conjunto de recursos culturais de um indivíduo, podendo ser incorporado (conhecimentos e savoir-faire), objectivado (posse de bens culturais) ou institucionalizado (títulos e diplomas).
- O capital social é o conjunto de recursos ligados à posse de uma rede durável de relações e reconhecimento social.
- O capital simbólico designa qualquer forma de capital (econômico, cultural ou social) que obteve reconhecimento e legitimidade particular dentro de um campo.
Essa acumulação de capital hierarquiza os atores dentro do espaço social, cujo diagrama mostra que as distâncias espaciais são equivalentes a distâncias sociais. A luta pela distinção social — que não é um mero gosto, mas uma diferença relacional ligada ao habitus — é a dimensão fundamental da vida social.
Doxa: saber e opinião
O conceito de doxa, central na sociologia de Pierre Bourdieu, refere-se ao conjunto de crenças, valores e esquemas de percepção que são aceites como universais e autoevidentes dentro de um determinado campo social, atuando em um nível infra-consciente. A doxa representa o que é tido como natural e inquestionável em um dado universo social, sendo o fundamento silencioso que sustenta a ordem e a reprodução das estruturas.
Etimologicamente vinda do grego, onde significava opinião ou crença, a doxa é reconfigurada por Bourdieu para denotar o universo de suposições que, por serem tão profundamente enraizadas, sequer são percebidas como objeto de debate ou disputa. É o conhecimento fundamental, aprendido e incutido que orienta as ações e pensamentos de um agente em um campo específico. A doxa, portanto, é a manifestação da harmonia, ou da congruência, entre as estruturas objetivas do campo e as estruturas internalizadas pelo indivíduo, ou o habitus.
Quando um campo está em um estado de doxa, o mundo social é percebido como algo dado, senso comum ou natural. Isso significa que as categorias de entendimento e percepção que constituem o habitus do agente estão em perfeita sintonia com a organização objetiva do campo. A doxa é, assim, o princípio da adesão imediata e não refletida ao mundo, um estado em que o social se torna quase uma segunda natureza, isento de questionamentos.
A principal função da doxa é a legitimação da dominação social e a reprodução das hierarquias. Por ser um conjunto de crenças não questionadas, ela tende a favorecer o arranjo social particular do campo, tomando a posição dominante como autoevidente e universalmente justa.
Ao naturalizar as relações de poder e as desigualdades, a doxa sustenta a violência simbólica. Esta violência é eficaz precisamente porque é infra-consciente e não se apoia na coerção física, mas na interiorização e aceitação, por parte dos agentes dominados, dos esquemas de classificação que os colocam em desvantagem. O dominado pensa a sua própria subordinação através das categorias que o dominante lhe impõe, sentindo-se, por exemplo, insignificante ou inferior, mas sem questionar a estrutura que gera esse sentimento.
A doxa diferencia-se do que pode ser chamado de universo de opinião ou ortodoxia. Quando a ordem social e suas hierarquias são desafiadas, e as crenças estabelecidas são colocadas em questão, o campo move-se de um estado de doxa para um universo de debate. Neste ponto, o que antes era tácito e naturalizado precisa ser explicitamente defendido (tornando-se ortodoxia) ou criticado (tornando-se heterodoxia). A doxa é, portanto, o estado de silêncio e aceitação não articulada que garante a máxima estabilidade e eficácia da estrutura de poder.
A ideologia e a reprodução da ordem
Um tema central na obra de Bourdieu é o papel da cultura e da educação na reprodução da ordem social e na legitimação das hierarquias. Ele argumenta que o sistema de ensino renova o domínio de classe ao conduzir os filhos da classe dominante a obter os melhores diplomas, pois sua cultura e habitus já são mais próximos dos saberes transmitidos pela escola.
Este mecanismo de legitimação ocorre através da violência simbólica. A violência simbólica é uma forma de dominação que não se apoia na força física direta, mas na intériorização da dominação social pelos próprios agentes dominados. É uma forma de dominação que é invisível e não percebida como violência, por ser estrutural e não intersubjetiva (homens sobre mulheres, adultos sobre crianças, professor sobre aluno). O domínio é exercido quando os dominados pensam e classificam o mundo com as categorias impostas pelos dominantes, aceitando sua posição como natural e evidente.
Essa aceitação ocorre no estado de doxa, que se refere às crenças, valores e esquemas de classificação profundos e inconscientes que são tomados como universais e autoevidentes dentro de um campo. A doxa tende a favorecer a ordem social vigente, naturalizando a posição dos dominantes — um fenômeno que Bourdieu chama de ilusão naturalista.
A reflexividade como método
Em contraste com a ilusão naturalista e a submissão à doxa, Bourdieu insiste na importância de uma sociologia reflexiva. O sociólogo não deve apenas investigar o objeto, mas também conduzir uma “sociologia da sociologia”, examinando e purgando os efeitos de sua própria posição, de seu habitus e de seus vieses internalized (o “ponto de vista escolástico”) que podem distorcer a pesquisa. A reflexividade é um estágio adicional na epistemologia científica que permite ao pesquisador não atribuir ao objeto de estudo a lógica e as categorias do sujeito observador, como a tendência de ver regras rígidas onde há apenas estratégias fluidas.
Comprometido com a transformação social, Bourdieu se tornou um influente intelectual público na década de 1990, apoiando grevistas e criticando abertamente o neoliberalismo e seu discurso de “notícias falsas”, mostrando que a sociologia da prática e da reprodução também pode ser a sociologia da luta pelos anseios de igualdade.
SAIBA MAIS
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e abusos da história oral. (8ª edição) Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 183-191.
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp & Porto Alegre, 2007.
A Distinção de Bourdieu: da periferia ao centro do pensamento sociológico
