Explicando o jazz

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Quadro de Archibald Motley, o cara que fazia jazz com tinta.

Ao não iniciado, o jazz soa desordeiro, malandro e até esnobe, apesar de suas raízes em saloons pobres e bordéis da zona portuária de Nova Orleans. Rapidamente, a música ganhou o mundo e adquiriu tons locais. Se o século XX fosse um filme, certamente sua trilha sonora seria o jazz: uma arte mais performática que composição, esse gênero musical retrata o caótico século, fundado no improviso, cada indivíduo fazendo sua música no ritmo e na tonalidade acordados.

No cadinho de Nova Orleans, os descentes de escravos, ainda excluídos socialmente pelas Jim Crow laws, combinaram o gospel (não confundir com o gênero homônimo no Brasil), sua forma secular, o blues; o ragtime — arranjos divertidos para o piano no qual se destacou Scott Joplin (1868-1917); com o canto call and response dos trabalhadores dos campos de algodão, a harmonia e escalas africanas com estilos de música de salão europeus, como a polca e a valsa. As vozes poderosas da cantora de blues Bessie Smith (1898-1937) e da diva do jazz Billie Holiday (1915-1959) definiram a forma vocal.

O jazz não nasceu em um vácuo. Na virada do século XIX havia um mileu em várias partes do mundo com vários elementos comuns ao jazz. Contemporaneamente ao jazz, no Brasil surgia o chorinho, também influenciado pelas raízes africanas — lundu, maxixe, maracatu — e europeias — , combinando instrumentos eruditos com percussão e improvisos.

Os instrumentos do jazz do Delta do Mississípi eram simples: começaram com qualquer coisa que produzissem som, como as jug bands, tábua de lavar, bateria de panelas e colheres, bandolins e banjo caseiros. Outras bandas eram sofisticadas: piano, contra-baixo, trompete, bateria — o combo — ao qual mais tarde se incorporou o saxofone. Enfim, nunca ouve rigidez para aceitar novos instrumentos.

A partir de 1916, acompanhando a rota dos trabalhadores afro-americanos, o jazz migraria de Nova Orleans para Chicago, devido ao fechamento da Storyville, a zona portuária onde nasceu o jazz. Em Chicago o virtuoso Louis Armstrong (1900-1971) popularizou o jazz. Outra razão para a popularização foi o uso precoce do rádio cativou o público. O jazz também tornou-se popular por dar um ritmo alegre para dançar, como no swing, variação dançante com bandas grandes, como as dirigidas por Benny Goodman (1909-1986).

Outra cidade nortista, Nova Iorque, seria o centro do jazz antes da Segunda Guerra Mundial. Nas casas de show e bares da Rua 52 no Harlem, execuções habilidosas no piano, tanto no stride ou os arranjos sincopados do boogie woogie.

 

O teólogo e jazzista Harvey Cox traça um paralelo ao jazz e a difusão do pentecostalismo. Ambos são movimentos nascidos na mesma época nos cantos marginalizados do Sun belt americano, contaram com lideranças afro-americanas mas rapidamente transcenderam as fronteiras étnicas. O uso da tecnologia, tanto nos instrumentos, quanto na mídia de massa deram um alcance internacional. Propagaram globalmente para forjar contornos locais. No jazz essa localização nacional ocorreu com o afro-cubano e suas orquestas, a bossa nova no Brasil, o klezmer judeu oriental, o tango de Piazzolla, dentre outros. No Brasil, a curiosa combinação da combinação da hinologia protestante americana com o cururu e a modinha caipira do interior paulista surgiu a tocata, como o grupo Pavão Bonito.

Em uma cena do filme O mestre dos gênios (Genius) de 2016, o boêmio escritor Thomas Wolfe introduz seu editor Maxwell Perkins à música. Já no pop musical La La Land, o músico quebrado (que redundância, lol) Sebastian Wilder dá sua explicação à namoradinha Mia Dolan.

 

 

SAIBA MAIS

COX, Harvey. Fire From Heaven: The Rise of Pentecostal Spirituality and the Reshaping of Religion in the Twenty-first Century.  Reading: Addison-Wesley Publishing Company, 1994.

HOBSBAWM, Eric J. História social do jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1989

 

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