O aprendiz de feiticeiro

—Eu lhe contarei — disse Eucrates — outro incidente derivado de minha própria experiência, não de boatos. Talvez até você, Tychiades, quando você a ouvir, possa se convencer da veracidade da história.

Quando morava no Egito na minha juventude (meu pai lá me enviara para completar a minha educação), pus na cabeça navegar até Koptos e ir de lá para a estátua de Memnon para ouvi-la soar aquela maravilhosa saudação ao sol nascente. Bem, o que eu ouvi não era uma voz sem sentido, como na experiência geral de pessoas comuns. O próprio Memnon abriu a boca e me entregou um oráculo em sete versos, e se não fosse uma digressão, eu teria repetido os mesmos versos para você. Mas na viagem rio cima, coube sorte navegar conosco um homem de Mênfis, um dos escribas do templo, maravilhosamente erudito, familiarizado com toda a ciência dos egípcios. Dizem que viveu enterrado durante vinte e três anos em seus santuários, aprendendo a magia de Isis.

—Quer dizer Pancrates — disse Arignoto —, meu mestre, um santo homem, bem barbeado, de linho branco, sempre em profunda meditação, falando grego imperfeito, alto, nariz achatado, lábios salientes e pernas finas.

—Esse mesmo Pancrates, e no começo não sabia quem era ele, mas quando o vi fazendo todos os tipos de maravilhas sempre que ancorávamos o barco, particularmente cavalgando em crocodilos e nadando em companhia das feras, enquanto elas brincavam e balançavam a cauda; reconheci que ele era um santo homem. Gradualmente, tendo um comportamento amigável, tornei-me seu companheiro e amigo, de modo que compartilhou todo seu conhecimento secreto comigo.

Por fim, convenceu-me a deixar todos os meus servos em Mênfis e a acompanhá-lo completamente sozinho, pois não haveria de faltar pessoas a nos servir. E assim foi. Mas sempre que chegávamos a uma parada, o homem pegava a vara da porta ou a vassoura ou até mesmo a mão de pilão, vestia-lhe roupas, dizia um feitiço e fazia-o andar. Para os outros aparentava ser um homem. Ele tirava água e comprava provisões. Preparava refeições e em todos os sentidos habilmente nos servia. Então, quando terminava seus serviços, novamente transformava a vassoura numa vassoura ou a mão de pilão numa mão de pilão falando outra palavra mágica.

Embora eu tivesse muito interesse em aprender isso com ele, não poderia fazê-lo, pois tinha ciúmes, ainda que o resto ensinasse de bom-grado. Mas um dia secretamente ouvi o feitiço — eram apenas três sílabas — escondido em um lugar escuro. Ele foi ao mercado depois de dizer ao bastão o que tinha que fazer, e no dia seguinte, enquanto ele resolvia alguns negócios no mercado, peguei o bastão, vesti-o da mesma maneira, disse as sílabas. E ordenei-lhe para trazer água.

Quando ele encheu o reservatório e trouxe o vaso, disse-lhe: “Pare, não carregue mais água, seja um bastão novamente!”

Mas não me obedecia. Ele continuava a carregar até que encheu a casa com água, inundando-a! Na minha mente, temia que Pancrates pudesse voltar e ficar zangado, como seria o caso. Peguei um machado e cortei o bastão em dois; Mas cada parte tomou um vaso e começou a trazer mais água, com o resultado que em vez de um servo tinha agora dois.

Enquanto isso, Pancrates apareceu em cena e, percebendo o que acontecera, voltou a transformá-los em madeira, exatamente como antes do feitiço. E depois, por sua parte, deixou-me sozinho, sem aviso, desaparecendo.


Luciano de Samósata (ca. 125 —181 d.C.) foi um escritor sírio de expressão grega. Bom de lábia, cômico e articulado, viajava contando suas histórias, vendendo seus serviços advocatícios, ensinando retórica. Escreveu quase 80 livros que, espantosamente, sobreviveram. Seu teor satírico influenciou a Erasmo de Roterdã, Swift e Voltaire.

A estória do aprendiz de feiticeiro aparece no livreto O amante das mentiras, que antecede As Aventuras do Barão de Münchausen e os chicós ou outros mentirosos da aldeia. Esse diálogo entre Tychiades e Philocles conta causos absurdos ditos em nome da pia religiosidade, dentre eles o incidente do aprendiz de feiticeiros.

A imaginação desse conto influenciou o poema de Goethe, o poema sinfônico de Paul Dukas L’Apprenti Sorcier que dá o fundo para a cena do filme de Disney, Fantasia (1940).

Luciano de Samósata. Philopseudes (The LiarThe Amateur of Lying )

Goethe. Der Zauberlehrling / The Sorcerer’s Apprentice Uma tradução em português

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