As sete regras de interpretação de Hillel

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No período do Segundo Templo, rabi Hillel (c.60 a.C – c.7 a.C.) contendia com seu colega rabi Shammai (c.50 a.C – c.20 a.C.) em mínimos detalhes da Lei mosaica. O Talmud registra 316 pontos de disputa entre a Casa de Hillel e a Casa de Shammai, sendo a primeira mais latitudinária em sua interpretação e aplicação da Torá enquanto a última exigia maior rigor. Subjacente ao debate entre esses sábios tanaítas estava a diferente hermenêutica empregada.

Hillel utilizava a analogia e a alegoria para adaptar a Torá ao seu objetivo, resumido na regra áurea de “O que for odioso a você, não faça a seu próximo; isso é toda a Torá” b.Shabbat 31a. Enquanto Shammai fazia uma abordagem mais literalista, subsuntiva e legalista.

As chamadas sete regras de interpretação de Hillel antecedem a ele, visto que na Tanakh já havia aplicações delas. Sem contar sua continuidade das retóricas gregas e mesopotâmicas. Mas, cristalizadas no período dos tanaítas, seriam modelos interpretativos que indiretamente influenciaram o nascente cristianismo. Não seria pretensioso afirmar que toda a filosofia ocidental — especialmente pelas transmissões de Orígenes, Agostinho, Boécio e Cassiodoro — se beneficiaria dessas regras. Por fim, a a própria hermenêutica jurídica ocidental pode traçar suas origens em algumas dessas regras ao longo da moderna halakah judaica.

As Sete Regras de Hillel

As Sete Middot ou Regras de Hillel são princípios hermenêuticos desenvolvidos por Rabi Hillel, que formalizaram práticas exegéticas judaicas existentes e se tornaram fundamentais para o judaísmo rabínico e a teologia cristã primitiva.

1. Qal va-Homer (argumento a fortiori; do menor para o maior)

Definição: Se uma regra se aplica a um caso de menor importância, ela deve se aplicar com ainda mais força a um caso mais significativo. Frequentemente, é sinalizada por frases como “quanto mais…”

Exemplos:

  • Bíblia Hebraica: Em Jeremias 12:5, lê-se: “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com cavalos?”. Se é difícil correr com homens, quanto mais competir com cavalos, que são mais velozes.
  • Novo Testamento: Jesus emprega essa regra em Mateus 12:12: “Ora, quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, pois, lícito fazer bem nos sábados”. Se é lícito resgatar uma ovelha no sábado, quanto mais curar um homem. Outro exemplo claro está em João 7:23, onde Jesus argumenta: “Se um homem recebe a circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrada, por que vos irais contra mim, porque no sábado curei um homem por completo?”. Se a circuncisão, uma prática ritual, é permitida no sábado, quanto mais a cura de uma pessoa.

2. G’zerah Shavah (equivalência verbal; analogia de expressões)

Definição: Liga dois textos não relacionados que compartilham palavras ou frases idênticas para derivar significados análogos. Quando as mesmas palavras são aplicadas a dois casos separados, segue-se que as mesmas considerações se aplicam a ambos.

Exemplos:

  • Bíblia Hebraica: A frase “navalha não passará sobre a sua cabeça” (Juízes 13:5), referente a Sansão, é ligada à descrição de Samuel em 1 Samuel 1:11 (“e navalha não passará sobre a sua cabeça”), confirmando Samuel como um nazireu.
  • Novo Testamento: A Epístola aos Hebreus (3:7-4:13) conecta o conceito de “repouso” presente no Salmo 95:11 e em Gênesis 2:2 (“E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera”) para ensinar sobre um futuro repouso sabático para o povo de Deus.

3. Binyan ab mi-Katub Echad (Construindo um Princípio a Partir de um Texto)

Definição: Uma lei encontrada em uma única passagem é estendida para todas as passagens relacionadas que carecem dessa provisão.

Exemplos:

  • Antigo Testamento: A noção de concerto ou aliança é inicialmente apresentada em Gênesis 17:2-8, onde Deus estabelece uma aliança com Abraão. Essa ideia de pacto entre a divindade e os seres humanos é expandida na lei mosaica (Êxodo 6:4-5) e nos escritos proféticos (Jeremias 31:31-34), onde a relação é entendida como sinalagmática, ou seja, voluntária e com contraprestações mútuas. Outro exemplo é o lenhador que acidentalmente mata alguém (Deuteronômio 19:4-5); outras situações de morte involuntária são tratadas com postura similar, estendendo o princípio da lei.
  • Novo Testamento: O ritual do “sangue da aliança” em Êxodo 24:8, que selava a Antiga Aliança, é aplicado pelo autor de Hebreus (9:11-22) ao “novo concerto” de Jeremias 31:31-34, enfatizando que o derramamento de sangue é necessário para a remissão de pecados na Nova Aliança por meio de Cristo.

4. Binyan ab mi-Shene Ketubim (construindo um princípio a partir de dois textos)

Definição: Um princípio é generalizado a partir de dois versículos para resolver ambiguidades em outros contextos.

Exemplos:

  • Bíblia Hebraica: As regras de remissão (substituição ritual) de um primogênito ou primícia para oferta a Deus por outro semelhante são aplicadas na Lei de Talião (Êxodo 21:26, 27). Ou seja, a parte ofendida poderia demandar a reparação equiparável do ofensor, não exatamente reproduzir a mesma ofensa. Um exemplo clássico é a ordenança em Levítico 19:35-36 sobre o uso de “balanças justas, pesos justos e medidas justas”, que, combinada com outros preceitos de justiça, estabelece um princípio geral de honestidade que se estende a todos os julgamentos éticos na vida diária.
  • Novo Testamento: Em Hebreus 1:5-14, o autor combina múltiplos Salmos (como Salmos 2:7 e 45:6-7) para provar a superioridade de Cristo sobre os anjos, generalizando um princípio teológico a partir de duas ou mais passagens.

5. Kelal u-Perat / Perat u-Kelal (geral e específico)

Definição: Uma afirmação geral é clarificada por detalhes específicos, ou vice-versa. Antecede o célebre círculo hermenêutico.

Exemplos:

  • Bíblia Hebraica: Gênesis 1:27 (“Criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”) é uma declaração geral sobre a criação humana. Gênesis 2:7 (“Então, formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem se tornou alma vivente”) detalha a formação de Adão, fornecendo a especificidade de como o homem foi criado.
  • Novo Testamento: Em Mateus 19:9, Jesus generaliza a questão do divórcio, mas a especifica ao mencionar a imoralidade sexual (porneia) como a única exceção válida, restringindo o alcance da lei de divórcio.

6. Ka-Yoze bo mi-Makon Aher (resolução a partir de outra passagem)

Definição: Resolve contradições aparentes entre dois textos usando uma terceira passagem.

Exemplos:

  • Bíblia Hebraica: Se é proibido matar animais no sábado, como cumprir os rituais de sacrificar o cordeiro pascal se a data cair no sábado? Números 28:10 prescreve sacrifícios diários, permitindo que Hillel julgasse ser permissível preparar o cordeiro pascal no sábado. Este método também é ilustrado na harmonização entre Êxodo 19:20 (“E desceu o Senhor sobre o monte Sinai”) e Deuteronômio 4:36 (“Dos céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar”). A aparente contradição é reconciliada por Êxodo 20:19, que descreve Deus trazendo a sua glória do céu ao Sinai.
  • Novo Testamento: Paulo harmoniza as declarações “o justo viverá pela fé” (Habacuque 2:4) e “não há justo, nem um sequer” (Salmo 14:1-3) usando a fé de Abraão (Gênesis 15:6) em Romanos 3-4. Abraão foi justificado pela fé antes da lei, mostrando que a fé sempre foi o meio de justificação, e não a justiça própria.

7. Davar ha-Lamed me-Inyano (interpretação pelo contexto)

Definição: O significado de uma passagem é derivado de seu contexto mais amplo, ou seja, as normas anteriores ou seguintes determinam o significado. Cada norma não existe ou é aplicada isoladamente.

Exemplos:

  • Bíblia Hebraica: Por necessidade lógica, os israelitas do Êxodo saíram de casa para juntar o maná no sábado; portanto, a vedação de sair de casa aos sábados (Êxodo 16:29: “Ninguém saia do seu lugar no sétimo dia”) deve ser mitigada pelo contexto da provisão divina e da sobrevivência. O contexto imediato de Êxodo 16 (maná caindo por seis dias e não no sétimo) indica que a proibição de sair de casa no sábado se refere à coleta de alimentos e trabalho, não a todas as saídas.
  • Novo Testamento: Em Romanos 14:1-2, Paulo afirma que “nada é impuro em si mesmo”, mas isso é entendido dentro do contexto de disputas sobre alimentos e consciência, e não como uma abolição das leis dietéticas judaicas (kosher) para os judeus que as seguiam. A impureza mencionada refere-se à impureza cerimonial ou àquela percebida pela consciência de alguns, não à impureza moral ou à validade das leis de pureza alimentar para aqueles que desejam observá-las.

Na hermenêutica das religiões abraâmicas posteriores ao Segundo Templo, notavelmente no judaísmo rabínico e no cristianismo, essas regras são notáveis. Ocorrem tanto no Talmud e no Novo Testamento, como em escritos tardios. Vale notar que são como os topoi, de aplicação ponderada, não absoluta.

As regras de Hillel, embora precedentes a ele, foram codificadas para padronizar a interpretação escriturística. Como mencionado, a escola de Hillel enfatizava o “espírito” da Torá em contraste com o literalismo estrito de Shammai. O neto de Hillel, Gamaliel (mestre de Paulo, Atos 22:3), preservou esses métodos, influenciando a diretriz de Paulo para “manejar bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15). Rabi Ishmael (100–170 d.C.) expandiu-as para 13 Regras, mais tarde refinadas em 32 Regras por Eliezer ben Yose HaGelili.

Jesus frequentemente empregou o Qal va-Homer (por exemplo, Mateus 12:12) e ecoou o resumo ético de Hillel: “Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7:12), que se assemelha ao b.Shabbat 31a.

Escritores do Novo Testamento, notoriamente os autores de Mateus, corpus paulino e Hebreus basearam-se em G’zerah Shavah e Binyan ab para conectar profecias do Antigo Testamento sobre Cristo (por exemplo, Hebreus 1:5-14), aplicando princípios hermenêuticos semelhantes aos de Hillel.

SAIBA MAIS

Seven rules of Hillel – Encyclopedia Judaica

DAUBE, David. “Rabbinic methods of interpretation and Hellenistic rhetoric.” Hebrew Union College Annual 22 (1949): 239-264.

FERREIRA, Cláudia Andrea Prata. “Os estudos bíblicos e a exegese judaica na Idade Média“. In LEWIN, H., coord. Judaísmo e modernidade: suas múltiplas inter-relações [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2009. pp. 479-502. ISBN: 978-85-7982-016-8. Disponível no SciELO Books .

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6 comentários em “As sete regras de interpretação de Hillel

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  1. so quero agradecer e dizer que esse é um trabalho meritório. Que o ETERNO , os abençoe em nome de Yeshua ha mashiach , melech Israel

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