Quando o passado engorda mais rápido que o futuro: por que Piketty voltou a colocar a desigualdade no centro do capitalismo
Durante boa parte do século XX, sobretudo no pós-guerra, consolidou-se no Ocidente uma narrativa reconfortante: o capitalismo tinha aprendido a conviver com a democracia. A desigualdade existia, mas estava sob controle. A educação se expandia, a classe média crescia, e o destino social parecia depender cada vez mais do esforço individual do que do sobrenome.
O Capital no Século XXI (2013), de Thomas Piketty, é uma contestação meticulosa — histórica, estatística e política — dessa narrativa. Seu argumento não é que o capitalismo seja sempre e necessariamente explosivo em termos de desigualdade. É mais desconfortável do que isso: quando não é contido por choques políticos e instituições fortes, o capitalismo tende a voltar a um regime em que a riqueza herdada pesa mais do que o trabalho vivo.
No centro do livro está uma desigualdade simples, quase escolar:
r > g
onde r é a taxa média de retorno do capital (lucros, juros, dividendos, aluguéis) e g é a taxa de crescimento da economia (produção e renda). Quando o rendimento da riqueza supera de forma duradoura o crescimento, o passado — o capital já acumulado — cresce mais rápido que a produção e os salários. A consequência não é apenas mais desigualdade. É uma mudança na própria lógica social: quem possui tende a se distanciar de quem trabalha, mesmo que ninguém “mereça” mais do que ninguém.
O que é “capital”, afinal?
Piketty usa “capital” em um sentido amplo e deliberadamente clássico: todo tipo de ativo que pode ser possuído e gerar rendimento no mercado — terras, imóveis, máquinas, empresas, ações, títulos financeiros. Ao longo da história, a forma do capital muda, mas sua função social permanece: permitir que o passado produza renda no presente.
Para medir seu peso, ele recorre a uma razão central:
β (beta) = estoque de capital / renda nacional anual
Essa razão capital/renda indica quantos “anos de renda” equivalem ao estoque total de riqueza privada de um país. Na Europa dos séculos XVIII e XIX, β costumava ficar entre 6 e 7: o patrimônio privado valia seis ou sete anos de toda a renda produzida. A sociedade era dominada por proprietários, rentistas, herdeiros.
O que o século XX fez foi quebrar esse mundo — mas por razões extraordinárias, não por uma evolução suave do mercado.
O século XX foi a exceção, não a regra
Guerras mundiais, destruição física de ativos, inflação, calotes, nacionalizações e, sobretudo, tributação fortemente progressiva comprimiram grandes fortunas. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico foi excepcionalmente alto, impulsionado pela reconstrução e pela expansão demográfica.
Crescimento alto significa que o “bolo novo” cresce rápido em relação à riqueza antiga. Assim, mesmo grandes patrimônios perdem peso relativo. Foi nesse contexto que floresceu a imagem de uma sociedade cada vez mais meritocrática, onde diplomas e carreiras pareciam mais importantes que heranças.
Para Piketty, isso foi um intervalo histórico atípico. À medida que o crescimento volta a patamares mais baixos — 1% a 1,5% ao ano nas economias maduras — e a poupança permanece elevada, a razão capital/renda sobe de novo. Desde os anos 1970, Europa, EUA e Japão vêm assistindo a esse retorno gradual do capital.
As “leis fundamentais” do capitalismo
Piketty organiza essa dinâmica com duas relações simples.
A primeira é contábil:
α = r × β
onde α é a participação do capital na renda nacional. Se o estoque de capital (β) é grande e seu rendimento (r) é alto, a fatia da renda apropriada pelos proprietários cresce.
A segunda é mais estrutural:
β = s / g
onde s é a taxa de poupança e g o crescimento. No longo prazo, a razão capital/renda tende ao quociente entre poupança e crescimento. Se a economia cresce pouco, mas a sociedade continua poupando, o estoque de riqueza se avoluma em relação à renda anual.
Essas relações não são “leis” rígidas, mas tendências poderosas. E nelas, g é a variável crucial. Quanto mais baixo o crescimento, maior o peso do passado.
r > g: a força silenciosa da divergência
É aqui que entra a famosa desigualdade r > g.
Historicamente, o retorno do capital gira em torno de 4% a 5% ao ano, enquanto o crescimento de longo prazo raramente passa de 1% a 2% nas economias maduras. Isso significa que grandes patrimônios se expandem mais rápido que a renda média, mesmo sem esforço extraordinário de seus proprietários.
Não se trata de uma falha moral dos ricos, mas de uma propriedade estrutural do sistema. Se nada a contrabalançar, a riqueza herdada cresce mais rapidamente que a produção e os salários. A consequência é a concentração crescente da propriedade.
Dois tipos de desigualdade
Piketty insiste numa distinção fundamental:
1. Desigualdade do trabalho
Refere-se às diferenças salariais. Ela pode ser grande, mas costuma ter formato relativamente contínuo: há uma massa de rendas médias, com caudas superiores e inferiores.
2. Desigualdade do capital
É de outra ordem. A propriedade é sempre muito mais concentrada. O topo — 10%, 1%, às vezes 0,1% — detém uma fração desproporcional da riqueza. A metade mais pobre da população possui quase nada.
Essa desigualdade patrimonial é a mais importante para o futuro, porque o capital gera renda automaticamente. Quem já tem muito pode reinvestir, diversificar e crescer mais rápido que quem depende apenas do salário.
Do rentista ao “supergerente” — e de volta
No século XIX europeu, a figura dominante era o rentista: alguém que vivia de rendas de propriedades e títulos. A literatura da época — Balzac, Jane Austen — retrata um mundo onde herança, dote e patrimônio determinam destinos.
No século XX, especialmente nos EUA, surgiu outro fenômeno: o aumento explosivo das altas rendas do trabalho, sobretudo de executivos. Piketty é cético quanto à ideia de que isso reflita apenas produtividade. Ele vê aí também normas sociais permissivas, governança corporativa frouxa e poder de barganha — uma forma de captura institucional.
Ainda assim, ele sustenta que, no longo prazo, a desigualdade do capital é mais determinante que a dos salários. Se r > g persistir, o mundo tende a se parecer mais com o século XIX do que com a era do executivo superstar.
A volta da herança
Um dos resultados mais perturbadores do livro é a projeção do peso crescente da herança. Em sociedades de baixo crescimento e alto patrimônio acumulado, o fluxo anual de riqueza transmitida entre gerações tende a aumentar.
Isso significa que a posição econômica dos jovens depende cada vez mais do que recebem da família — casa, capital financeiro, negócios — e menos apenas de sua renda ao longo da vida. A promessa meritocrática enfraquece. O ponto de partida pesa mais que o esforço durante a corrida.
Piketty chama esse regime emergente de capitalismo patrimonial: um sistema onde a propriedade herdada volta a ser a principal organizadora das hierarquias sociais.
A desigualdade é política, não fatal
Apesar do peso das tendências estruturais, Piketty rejeita qualquer determinismo. A grande compressão das desigualdades no século XX não foi milagre de mercado, mas produto de políticas públicas, impostos progressivos, Estado social e regulação.
Sua proposta mais famosa — um imposto progressivo global sobre a riqueza — funciona tanto como política concreta quanto como princípio normativo. A ideia é frear a dinâmica explosiva da acumulação, aumentar a transparência patrimonial e submeter o capital a algum controle democrático em um mundo de finanças globalizadas.
Ele sabe que isso é difícil, até utópico. Mas insiste que a alternativa é aceitar, por inércia, uma sociedade cada vez mais moldada pelo peso do passado.
Um livro de economia que é também um livro sobre o poder
O Capital no Século XXI recoloca a desigualdade no centro da análise econômica e, ao mesmo tempo, recoloca a economia no centro da vida política e moral. Não é apenas um estudo de séries históricas, mas um argumento sobre que tipo de sociedade estamos dispostos a aceitar.
A força de r > g não garante um futuro de oligarquias patrimoniais. Mas ajuda a entender por que, sem intervenção, a riqueza tende a se concentrar e a herança a se tornar mais decisiva que o trabalho.
O futuro da desigualdade, sugere Piketty, não é um destino técnico. É uma escolha coletiva sobre quanto poder deixaremos que o passado exerça sobre o presente.
Saiba mais
Piketty, Thomas. : Le Capital au XXI e siècle. Paris: Éditions du Seuil, 2013.

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