Clássicos Indianos

Do hino cósmico do Rigveda à profundidade psicológica do Bhagavad Gita, a literatura indiana entralaça enredos empolgantes com dilemas espirituais e éticos. Os clássicos do subcontinente são um dos patrimônios literários e espirituais mais antigos do mundo, abrangendo mais de três milênios. Compostos em línguas como sânscrito, páli, tâmil clássico e, mais recentemente, urdu, esses textos abordam diversas tradições religiosas (hinduísmo, budismo, jainismo, islam) e filosóficas. Hinos sagrados, épicos monumentais, tratados filosóficos, códigos de conduta, poesia e dramas moldaram a civilização indiana. Também influenciaram o mundo, do Tibete ao Japão, da Indonésia à Trindade e Tobago.

A transmissão desses textos começou oralmente, especialmente para os Vedas, preservados por séculos antes de serem escritos. Uma distinção fundamental é feita entre shruti (“aquilo que é ouvido”, revelação divina, como os Vedas) e smriti (“aquilo que é lembrado”, autoria humana, como épicos e Dharmashastras).

Fundamentos Sagrados: A Tradição Védica (Hinduísmo)

Considerados a base do Hinduísmo, os Vedas (“conhecimento”) são um corpus de textos sagrados em Sânscrito Védico.

As Quatro Vedas (Samhitas): Coleções de hinos, mantras e cânticos.

  • Rigveda (Hinos de Louvor): o veda mais antigo e importante. Contém 1.028 hinos dedicados a divindades como Agni (fogo), Indra (trovão, guerra) e Varuna (ordem cósmica). Serve como fonte primária para a mitologia, rituais e pensamento cosmológico da Índia antiga. O hino X.129 (Nasadiya Sukta) indaga sobre a criação: “Nem existência, nem não-existência havia. Nem reino do ar, nem céu além.”
  • Samaveda (Melodias): consiste em hinos do Rigveda adaptados para canto em sacrifícios Soma. A melodia é sua função principal.
  • Yajurveda (Fórmulas Sacrificiais): contém fórmulas em prosa e verso. Sacerdotes adhvaryu recitavam-nas durante rituais de sacrifício.
  • Atharvaveda (Hinos de Atharvan): uma coleção de hinos, encantamentos, feitiços e preces. Finalidades práticas incluem cura de doenças, longevidade, prosperidade e proteção. O Livro XIX, Hino 34, oferece um charme para a cura de feridas, exemplificando sua aplicação.

Complementos Védicos

  • Brahmanas (Textos dos Brâmanes): Comentários em prosa sobre as quatro Vedas. Explicam o significado e os procedimentos dos complexos rituais de sacrifício védicos (yajña).
  • Aranyakas (Textos da Floresta): Obras de transição entre Brahmanas e Upanishads. Contêm interpretações filosóficas e místicas dos rituais. Destinam-se a eremitas e estudantes que meditavam em florestas.
  • Upanishads (Sentar-se Próximo a): Textos filosóficos. Formam a parte conclusiva dos Vedas (Vedanta – “fim dos Vedas”). Exploram conceitos centrais do pensamento hindu: Brahman (Realidade Última, Absoluto), Atman (Eu individual, Alma), karma (ação e consequências), samsara (ciclo de renascimentos) e moksha (liberação do samsara). O Chandogya Upanishad apresenta o aforismo “Tat Tvam Asi” (“Tu és Aquilo”), enfatizando a unidade do Eu individual com a Realidade Absoluta.

Narrativas Épicas e Dharma (Hinduísmo)

Duas narrativas monumentais encapsulam a sabedoria, ética e cultura da Índia.

  • Mahabharata (A Grande História dos Bhāratas): um dos poemas épicos mais longos do mundo. A tradição atribui a Vyasa. Narra a luta dinástica entre os Pandavas e os Kauravas pelo trono de Hastinapura. Culmina na batalha de Kurukshetra. É uma obra enciclopédica. Explora questões de dharma (धर्म – dever, lei, justiça), moralidade, política e filosofia. O dilema de Bhishma na batalha, entre seu svadharma (dever pessoal) e o sadharana dharma (ética universal), exemplifica a complexidade ética do épico. A obra influencia o cinema moderno, como os filmes Baahubali.
    • Bhagavad Gita (Canção do Senhor): Seção crucial do Mahabharata (Livro VI). Um diálogo entre o príncipe Pandava Arjuna e seu cocheiro, o deus Krishna. Antes da batalha, Arjuna hesita em lutar contra parentes. Krishna o instrui sobre o dever (svadharma), a natureza da realidade e os caminhos para a liberação (Yoga): karma yoga (ação desinteressada), bhakti yoga (devoção) e jñana yoga (conhecimento).
  • Ramayana (A Jornada de Rama): Atribuído a Valmiki. Narra a vida de Rama, um avatar do deus Vishnu e príncipe de Ayodhya. Descreve seu exílio na floresta com sua esposa Sita e irmão Lakshmana. Inclui o rapto de Sita pelo rei demônio Ravana, a guerra para resgatá-la e seu retorno triunfante. O Ramayana é reverenciado por seus ideais de dharma, lealdade e devoção. A figura de Rama representa o homem perfeito e rei justo. A agência de Sita, sua força e pureza, é um ponto de análise, com algumas releituras regionais, como o Ramavataram tâmil, enfatizando seu poder. O épico exerce influência na arte do Sudeste Asiático.

Outras Obras Fundamentais do Hinduísmo

  • Puranas (Antigas Histórias): Vasta coleção de textos. Tratam de cosmogonia, genealogias de deuses, sábios e reis, lendas, mitologia, filosofia e rituais. Dezoito Mahapuranas popularizaram histórias de divindades como Vishnu, Shiva e Devi.
  • Dharmashastras (Tratados sobre o Dharma): Códigos de lei e conduta social. Detalham responsabilidades individuais conforme o varna (ordem social) e ashrama (estágio da vida). O Manusmriti (Leis de Manu) é o mais conhecido. Codificou o dharma para indivíduos, incluindo deveres para brâmanes, xátrias, vaixás e sudras. Estabeleceu regras rigorosas para mulheres e punições para violações de casta. Citado na Aniquilação da Casta de B.R. Ambedkar, é debatido na lei constitucional indiana sobre igualdade de gênero.
  • Yoga Sutras de Patanjali (Aforismos sobre Yoga de Patañjali): Texto fundamental da escola de filosofia Yoga. Sistematiza a teoria e prática do Raja Yoga. Delineia os “oito membros” (ashtanga) do caminho para alcançar kaivalya (liberação). Este texto influenciou a disseminação global da prática do yoga.

Clássicos Budistas

A tradição budista gerou um vasto cânone, especialmente em páli e sânscrito.

O Cânone Pali (Tripitaka/Tipiṭaka –Três Cestos):

Coleção padrão das escrituras da escola Teravada.

  • Sutta Piṭaka (Coleção de Discursos): Contém discursos e sermões atribuídos a Siddhartha Gautama, o Buda, e a alguns discípulos. Inclui coleções famosas como o Digha Nikaya, Majjhima Nikaya e o Dhammapada. O verso 1 do Dhammapada: “A mente precede todos os estados; a mente é sua chefe…” ecoa o foco upanishádico na consciência.
  • Vinaya Piṭaka (Cesto da Disciplina Monástica): Apresenta regras de conduta para a comunidade monástica budista (Sangha). As regras revelam a vida monástica diária, como debates sobre o consumo de carne.
  • Abhidhamma Piṭaka (Cesto da Doutrina Superior/Filosofia): Análises filosóficas e psicológicas sistemáticas dos ensinamentos budistas. Sua análise de skandhas (agregados) é semelhante à fenomenologia moderna.

Sutras Mahayana

A tradição Mahayana possui uma vasta coleção de sutras em Sânscrito (muitos preservados em traduções chinesas e tibetanas). Eles expandem os ensinamentos budistas. Incluem os Sutras Prajñāpāramitā (Perfeição da Sabedoria), que exploram o conceito de shunyata (vacuidade). O Sutra do Lótus (Saddharma Puṇḍarīka Sūtra) enfatiza o potencial universal de iluminação e o caminho do Bodhisattva. A parábola da casa em chamas do Sutra do Lótus ilustra upaya (meios hábeis) – a adaptação dos ensinamentos à capacidade do ouvinte.

Clássicos Jainistas

  • Os Agamas ( Tradição): as escrituras sagradas do Jainismo. Contêm os ensinamentos dos Tirthankaras (profetas iluminados), especialmente Mahavira. Dividem-se em diferentes seções. Tratam de doutrina, conduta (com ênfase em ahimsa, não-violência), cosmologia e regras monásticas.

Literatura clássica tâmil

Uma das tradições literárias clássicas mais antigas e ricas do mundo. Possui um corpo de obras distinto.

  • Literatura Sangam (Caṅka ilakkiyam, c. 300 a.C. – 300 d.C.): uma enorme coleção de poesia lírica e épica. Centenas de poetas a compuseram. Dividida em temas de akam (amor, interior) e puram (guerra, exterior, vida pública). As principais antologias incluem o Ettuthokai (Oito Antologias) e o Pattuppattu (Dez Idílios). O Poema 3 de Kuruntokai (“O que poderia minha mãe ser para a sua?”) exemplifica a celebração do amor que transcende o sistema de castas. O Tolkappiyam é um tratado antigo sobre gramática tâmil, poética e retórica, fundamental para esta tradição. O Tirukkural, texto posterior mas influente, oferece aforismos sobre ética, política e amor. Pode ser comparado aos Analectos de Confúcio por seu paralelismo ético.

Kavya e drama clássico (Sânscrito)

A Índia possui uma sofisticada tradição de poesia ornamentada (kavya) e drama (natya).

  • Obras de Kalidasa (c. século IV-V d.C.): Considerado o maior poeta e dramaturgo em Sânscrito. Suas obras famosas incluem o drama Abhijñānaśākuntalam (O Reconhecimento de Shakuntala) e os poemas épicos e líricos Meghadūta (O Mensageiro de Nuvens) e Raghuvaṃśa (A Linhagem de Raghu). O motivo do anel e a memória em Shakuntala influenciaram obras de Goethe.
  • Natya Shastra (Tratado sobre as Artes Cênicas): Antigo e abrangente tratado atribuído a Bharata Muni. Codifica todos os aspectos do teatro, dança e música clássica indiana. Inclui estética (rasa), expressão (bhava), gestos, figurinos e arquitetura teatral. A teoria Rasa inclui Shanta (paz) como a nona rasa.
  • No movimento bhakti, poetisas desafiaram hierarquias sociais e de gênero com uma linguagem de intensa devoção e autonomia espiritual. No século XII, Akka Mahadevi, da tradição viraxaiva em Kannada, renunciou a vestimentas e convenções sociais, declarando-se esposa apenas de Shiva (Chennamallikarjuna), e compôs vacanas (prosa poética) de uma nudez mística e ousada: “Pessoas, homens, não vos envergonhais de me impor limites? Sou uma mulher apaixonada pelo Senhor.“. Quase um milênio antes, no sul do Tamil Nadu, Karaikkal Ammaiyar (séc. VI), uma das primeiras poetisas-santas do Shivaísmo, escolheu uma identidade transcendente ao corpo, descrevendo-se como uma espectadora esquelética (pey) nos cemitérios onde Shiva dança. Seus Arputat Tiruvantati celebram a divindade numa linguagem tão feroz quanto devota. Já no teatro sânscrito clássico, embora a autoria seja dominada por homens, a tradição atribui a peça Uttararamacharita (uma sequência do Ramayana) a uma dramaturga do século VII, Bhavabhuti, e há referências a outras, como Vijjika (séc. VII-VIII).

Textos jurídicos: a tradição dharmashastra

A Índia produziu textos jurídicos e linguísticos sofisticados. Eles moldaram a governança, a ordem social e as tradições intelectuais por milênios.

  1. Manusmriti (“Leis de Manu”, c. século II a.C. – século III d.C.). Codificou o dharma (dever/lei) para indivíduos com base em seu varna (classe social) e ashrama (estágio da vida). Está estruturado em 12 capítulos cobrindo cosmologia, ética, direito civil/criminal e rituais.
  2. Yājñavalkya Smriti (c. século III–V d.C.). Uma compilação de reformas. Mais pragmático que Manu. Reduziu a ênfase no absolutismo de castas. Faz distinções mais claras entre direito civil e criminal. Reconheceu os direitos de propriedade das mulheres (stridhana).
  3. Nāradasmriti (c. século V d.C.) com foco em procedimento judicial e evidências (testemunho, sistemas de provação). Inova nas regras detalhadas para contratos e empréstimos, refletindo o direito comercial inicial.

Textos gramaticais: a tradição vyākaraṇa

  1. Aṣṭādhyāyī (“Oito Capítulos”, século IV a.C.) de Pāṇini foi primeira gramática generativa do mundo, anterior à linguística moderna por milênios. Possui 3.959 sūtras (aforismos) em 8 capítulos. Define morfologia e sintaxe do sânscrito. Usa metalinguagem (ex.: “sutra 1.1.1: vṛddhir ādaiC” define gradação vocálica).
  2. Mahābhāṣya (“Grande Comentário”, século II a.C.) de Patañjali. Comentário sobre o Aṣṭādhyāyī de Pāṇini, debate sobre interpretações. Introduziu a filosofia da linguagem (ex.: “A linguagem é eterna ou criada?”).
  3. Vākyapadīya (século V d.C.) de Bhartṛhari é uma filosofia da linguagem (sphoṭa theory: o significado emerge de palavras inteiras, não de partes). Antecipou a semântica e a semiótica modernas.

Os clássicos vernáculos

Por meio de processos de tradução, adaptação e reinvenção, os clássicos irrigaram o florescimento de florescentes literaturas vernáculas a partir da Idade Média. Este movimento foi impulsionado por correntes devocionais (bhakti e sufi), que buscaram tornar a espiritualidade e as narrativas fundantes acessíveis ao público comum em suas próprias línguas.

  • Hindi e a Poesia Bhakti (séc. XIV-XVII): reagindo ao domínio brahmânico do sânscrito, poetas-santos como Kabir (seus dohas, ou versos gnômicos, questionavam ortodoxias), Mirabai (seus padas de amor devocional a Krishna) e Tulsidas recriaram o patrimônio clássico em awadhi e braj. A obra-prima de Tulsidas, o Rāmcharitmānas (séc. XVI), é uma reescrita devocional do Ramayana sânscrito, tornando Rama e seu dharma centrais na religiosidade popular do norte da Índia.
  • Bengali e os Mangalkavyas (séc. XIII-XVIII): a literatura bengali medieval viu surgir os Mangalkavyas — poemas épicos que consagravam deidades locais (como Chandi ou Manasa) integrando temas e estruturas dos Puranas sânscritos. A obra-prima dessa tradição é o Chandimangal de Kavikanka. Mais tarde, no século XVI, Krittibas Ojha traduziu e adaptou o Ramayana para o bengali, criando uma versão tão popular que se tornou conhecida como o Krittivasi Ramayana.
  • Urdu e a Poesia Sufi (séc. XVII-XIX): a tradição literária urdu, influenciada pelo islã sufista, absorveu a sensibilidade poética e a complexidade metafísica dos clássicos indianos. Poetas como Mir Taqi Mir e Ghalib exploraram temas de amor, dor e transcendência com um lirismo filosófico que ecoa a profundidade dos Upanishads e da poesia bhakti. O Masnavi de Mir Hasan, Sahr ul-Bayan, e os ghazals de Ghalib são monumentos desta síntese.
  • Em Kannada, o período medieval (séculos IX-XII) é considerado uma “idade de ouro”, com obras como o Kavirajamarga (séc. IX) de Nripatunga, o primeiro tratado poético na língua, e o épico Vikramarjuna Vijaya (também conhecido como Pampa Bharata, séc. X) do poeta Adikavi Pampa, que recria o Mahabharata com o herói Arjuna como centro, estabelecendo um modelo de literatura cortesã e ética.
  • Em Malayalam, a literatura amadurece a partir do século XIV, com obras como o Ramacharitam, uma narrativa poética do Ramayana, e atinge expressões filosóficas nos versos devocionais de Attoor Krishna Pisharody. A síntese única entre a sensibilidade tâmil e a herança sânscrita é evidente na obra-prima Mantrashastra.
  • Já em Odia (ou Oriya), os clássicos incluem o Sarala Mahabharata (séc. XV) de Sarala Das — não uma mera tradução, mas uma recriação vernácula que incorpora divindades e ethos locais — e os profundos poemas devocionais (bhajans) de poetas como Jagannath Das (séc. XVI), cujo Odia Bhagabata popularizou a teologia vixenuísta.
  • Outras Línguas: padrões similares ocorrem em todo o subcontinente. No marata, os abhangas de Sant Tukaram propagaram o bhakti a Vithoba. Em télugo, Pothana compôs o Bhagavatam, uma versão devocional do Bhagavata Purana. No punjabi, os janamsakhis narram a vida do Guru Nanak, enquanto o poema épico Heer Ranjha de Waris Shah se tornou um clássico do amor trágico.

A influência global e a recepção portuguesa

Os clássicos indianos continuam a ressoar. Traduções coloniais, como Sacontala (1789) de William Jones, despertaram o Orientalismo europeu. Adaptações modernas incluem a peça Mahabharata de Peter Brook (1985) e filmes como Baahubali. O yoga, por meio dos Yoga Sutras, obteve disseminação global. A influência do sânscrito se estende à linguística computacional.

Um capítulo à parte é a recepção da literatura clássica indiana durante o encontro colonial português. Tal encontro de cinco séculos constituiu um processo marcado por ambivalência estrutural: curiosidade inicial, condenação religiosa sistemática, negligência erudita e apropriação seletiva. Diferentemente do orientalismo britânico posterior, que se organizou em torno da tradução, da filologia e da institucionalização acadêmica do saber indiano, o engajamento português foi predominantemente moldado por uma agenda missionária e imperial, pouco compatível com práticas humanistas de inventio ou commonplacing literário.

Sob esse aspecto, o caso português revela um contraste instrutivo entre dois regimes de conhecimento: um regime retórico-humanista, baseado na coleta, classificação e reaproveitamento de textos (lugares-comuns), e um regime confessional, orientado para a erradicação do erro doutrinal.

Os primeiros cronistas portugueses — Duarte Barbosa, Tomé Pires, Gaspar Correia — produziram descrições ricas da sociedade indiana, de seus costumes e de suas formas de saber. Contudo, seu interesse permaneceu essencialmente pragmático: comércio, inteligência militar e observação etnográfica. A literatura, enquanto corpo textual dotado de valor estético ou filosófico próprio, permaneceu marginal.

Esse olhar externo, ainda que atento, não se traduziu em práticas de tradução, extração ou classificação textual comparáveis às do humanismo renascentista europeu. Os textos indianos não foram incorporados como auctoritates, nem como fontes de exempla ou sentenças reutilizáveis.

Com a consolidação da presença jesuítica, o contato com as línguas e os textos indianos intensificou-se, mas sob um enquadramento estritamente apologético. Missionários como São Francisco Xavier e, de modo mais sofisticado, Roberto de Nobili aprenderam tâmil, concani e sânscrito para fins de refutação doutrinal. A leitura dos textos hindus visava identificar “erros pagãos”, não compreender tradições literárias.

A designação recorrente de “literatura gentílica” é sintomática: os textos não eram percebidos como lugares de pensamento (loci), mas como focos de desvio espiritual. Nesse contexto, a tópica não opera como método de invenção, mas como instrumento negativo de classificação heresiológica.

A instalação da Inquisição em Goa, em 1560, marcou um ponto de inflexão decisivo. Manuscritos em sânscrito e em línguas vernáculas foram confiscados ou destruídos, sobretudo nas décadas de 1560–1580, sob autoridades como o vice-rei Dom Constantino de Bragança e o arcebispo Gaspar de Leão. A destruição de textos interrompeu brutalmente qualquer possibilidade de formação de arquivos, florilégios ou livros de lugares-comuns baseados na tradição indiana.

Algumas exceções confirmam a regra. Diogo do Couto menciona “livros de leis e crônicas” indianas, e certos funcionários e eruditos — como Garcés da Silva — reuniram manuscritos. Uma coleção significativa reunida por jesuítas foi enviada a Lisboa na década de 1580, mas perdeu-se ou permaneceu negligenciada. O circuito de transmissão textual foi, assim, quebrado antes de se consolidar.

Alguns indivíduos escapam parcialmente desse padrão. Thomas Stephens, jesuíta inglês em Goa, compôs o Kristapurana (1616), um épico cristão em concani inspirado formalmente nos purāṇas hindus. Étienne de La Croix realizou empreendimento semelhante em marata. Essas obras revelam influência literária e formal, mas não implicam reconhecimento da literatura indiana como objeto autônomo de estudo.

Do ponto de vista filológico, os chamados “proto-indólogos” portugueses foram poucos e tardios. Traduções ocasionais, como a de um texto médico sânscrito atribuída a Jacob de Coster, permaneceram manuscritas e sem impacto. Quando a indologia se institucionaliza no século XVIII, ela já se encontra firmemente nas mãos de franceses, alemães e britânicos.

A principal via de circulação do saber indiano foram as Litterae Annuae jesuíticas, que descreviam crenças e resumiam textos como a Bhagavad Gītā ou os Purāṇas sobretudo como curiosidades ou exemplos de erro doutrinal. Gramáticas e dicionários missionários preservaram línguas, mas raramente textos literários extensos.

O chamado Codex Casanatense, manuscrito ilustrado do século XVI, documenta castas e costumes, mas não constitui um arquivo literário. O lugar-comum, aqui, é visual e etnográfico, não textual.

A Mahābhārata e a Rāmāyaṇa eram conhecidas dos jesuítas como “histórias dos deuses”, frequentemente descritas como fábulas. A primeira tradução europeia parcial da Bhagavad Gītā foi realizada por Johann Ernst Hanxleden, jesuíta a serviço da missão portuguesa no Kerala, em latim, no fim do século XVII. O texto, contudo, permaneceu inédito e sem circulação.

Somente com a tradução inglesa de Charles Wilkins (1785), sob patronagem britânica, a Gītā ingressa no circuito europeu de leitura, comentário e commonplacing. O atraso português é revelador: houve contato precoce, mas ausência de incorporação.

O legado português caracteriza-se menos pela recepção literária do que pela produção linguística e etnográfica. A literatura clássica indiana não foi integrada aos repertórios retóricos, filosóficos ou jurídicos europeus por mediação portuguesa. A Contra-Reforma prevaleceu sobre o humanismo.

Pesquisas recentes, contudo, relativizam a narrativa de destruição total. Estudos de Ângela Barreto Xavier e Ines G. Županov indicam a atuação de elites intelectuais goesas — frequentemente brâmanes convertidos — como intermediários culturais e possíveis guardiões clandestinos de textos. Muitos manuscritos sobreviveram fora das zonas de controle português ou foram recopiados.

SAIBA MAIS

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Atualizado em 19 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2016)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2016)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Clássicos indianos. Ensaios e Notas, 2016. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2016/07/19/classicos-indianos/. Acesso em: 19 jan. 2026.

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