Em Mulheres Perfeitas (originalmente The Stepford Wives, 1972), de Ira Levin, o fotógrafo e ativista Joanna Eberhart muda-se com sua família para a idílica e pacata cidade de Stepford, em busca de uma vida mais tranquila longe do caos urbano. No entanto, ela logo começa a estranhar o comportamento das moradoras locais: mulheres misteriosamente submissas, impecavelmente vestidas e inteiramente dedicadas aos afazeres domésticos e aos caprichos de seus maridos. Conforme Joanna investiga a estranha obsessão dessas donas de casa pela perfeição, ela descobre um segredo sinistro guardado pela Associação de Homens de Stepford, transformando sua busca por respostas em uma luta desesperada para não perder sua própria identidade e liberdade.

O terror distópico de Stepford faz um retrato já antes discutido por Betty Friedan (1921–2006), psicóloga influenciada por Erik Erikson.
O livro The Feminine Mystique (1963), de Betty Friedan, desencadeou a segunda onda do movimento feminista nos Estados Unidos. Seu argumento é que a sociedade americana do pós-Segunda Guerra Mundial construiu uma ideologia difundida e prejudicial que confinava as mulheres aos papéis de esposa e mãe, sufocando seu potencial intelectual e pessoal.
O livro começa identificando um problema difundido e não verbalizado entre as donas de casa suburbanas americanas, descrito como o problema que não tem nome. Essas mulheres, embora vivessem em conforto material, experimentavam um profundo sentimento de insatisfação, vazio e depressão. Friedan argumentava que isso não era uma falha pessoal ou psicológica, mas um problema social sistêmico criado pelo que ela chamou de mística feminina.
A mística feminina era a ideologia cultural predominante que dizia às mulheres que seu propósito mais elevado e sua realização só poderiam ser encontrados no casamento, na maternidade e na vida doméstica. Essa ideologia era perpetuada por revistas e meios de comunicação. Friedan analisou revistas femininas e mostrou como elas passaram de publicações que retratavam mulheres independentes e orientadas para a carreira na década de 1930 para publicações que celebravam exclusivamente donas de casa e mães na década de 1950.
Ela também criticou as versões popularizadas da psicanálise freudiana, que classificavam as ambições femininas além do lar como “inveja do falo” ou como sinal de desajuste psicológico. Além disso, argumentou que educadores desencorajavam as mulheres a buscar diplomas avançados e carreiras intelectuais, direcionando-as para o casamento precoce e para a mentalidade do emprego destinado apenas a complementar a renda familiar.
A solução proposta por Friedan não se limitava à realização pessoal, mas a uma reestruturação fundamental da vida das mulheres. Ela sustentava que as mulheres, assim como os homens, possuem uma necessidade humana fundamental de ter um plano de vida e um senso de propósito proveniente de um trabalho criativo e intelectualmente desafiador. Por isso, incentivava as mulheres a encontrar um novo plano de vida que incluísse carreiras profissionais sérias.
Uma parte importante de seu projeto consistia em desmontar o estereótipo negativo da mulher com carreira profissional. Notou que tal mulher geralmente era representada como pouco feminina ou egoísta. Friedan defendia que seguir uma carreira era essencial para a identidade da mulher e para sua contribuição à sociedade.
Friedan, contudo, não defendia o abandono da vida familiar. Sua proposta era integrar a vida familiar a uma carreira com sentido e valor pessoal. Ela acreditava que as mulheres poderiam ser esposas e mães bem-sucedidas e, ao mesmo tempo, possuir identidades profissionais. Também acreditava que isso as tornaria mais realizadas e melhores parceiras e mães.
Do ponto de vista histórico, o livro teve enorme impacto cultural. Tornou-se um grande best-seller. A obra forneceu um nome coletivo e uma linguagem política para as frustrações privadas de milhões de mulheres.
O livro também serviu como catalisador para a ação. Em 1966, Friedan participou da fundação da National Organization for Women (NOW) e tornou-se sua primeira presidente, contribuindo para transformar as ideias da obra em um movimento político voltado para a igualdade jurídica e social.
Embora seja uma obra fundamental, o livro recebeu críticas significativas, especialmente de estudiosas feministas posteriores. Uma das críticas refere-se à sua cegueira em relação à raça e à classe social. O “problema” descrito por Friedan era, em grande medida, o problema de mulheres brancas, de classe média e residentes em áreas suburbanas. A obra ignorava as experiências de mulheres da classe trabalhadora e de mulheres racializadas, que sempre trabalharam fora de casa por necessidade e enfrentavam restrições sociais muito diferentes.
Outra crítica diz respeito à heteronormatividade. O livro concentra-se inteiramente nas experiências de mulheres heterossexuais casadas e não aborda a vida nem as preocupações de mulheres lésbicas.
Alguns críticos também questionaram a própria solução proposta por Friedan. Segundo essa interpretação, integrar as mulheres ao mundo profissional e corporativo existente não significava desafiar de forma fundamental essas estruturas. Em vez disso, significava convidá-las a se adaptar a elas segundo parâmetros definidos pelos homens.
O filme com Nicole Kidman que dramatiza a novela de Levin reincorpora as teses de Friedan.
SAIBA MAIS
FRIEDAN, Betty. The Feminine Mystique, 1963.
LEVIN, Ira. The Stepford Wives, 1972.

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