Centrada na Universidade de Salamanca, a Escola de Salamanca reuniu teólogos, juristas e economistas que reformularam o direito natural, desenvolveram os fundamentos do direito internacional e inauguraram formas precoces de análise econômica. O pensamento salmantino surgiu em meio às transformações políticas, religiosas e imperiais da monarquia espanhola. A expansão ultramarina, a conquista das Américas, o crescimento do comércio atlântico e as disputas teológicas da Reforma criaram novos problemas morais, jurídicos e econômicos. Os autores ligados à escola procuraram responder a essas questões por meio da escolástica renovada, do humanismo renascentista e da recuperação crítica do direito romano e da filosofia aristotélica.
Entre seus principais pensadores estavam:
Francisco de Vitoria (1483–1546) foi o fundador da Escola de Salamanca. Desenvolveu o conceito moderno de jus gentium, o direito das nações, e delineou os princípios fundamentais para o direito internacional moderno. Vitoria argumentava que os povos indígenas das Américas possuíam verdadeiro domínio sobre suas terras, seus bens e suas comunidades políticas. Sustentava que os indígenas eram seres racionais e juridicamente legítimos, dotados de direitos naturais anteriores à conquista europeia. Também formulou uma teoria restritiva da guerra justa. Para ele, a guerra somente poderia ser considerada legítima em circunstâncias específicas e rigorosamente delimitadas.
Francisco Suárez (1548–1617), o Doctor Eximius, foi a figura central da metafísica sistemática e da teoria política do período. Sua filosofia reorientou o pensamento moderno europeu. Antecipando os contratualistas sociais, Suárez defendia que a autoridade política deriva do consentimento da comunidade política, e não do direito divino dos reis. Elaborou ainda a noção de “estado de natureza” como condição anterior à organização política formal. Essa formulação influenciaria autores posteriores ligados ao contratualismo moderno.
Martín de Azpilcueta (1492–1586), chamado Doctor Navarrus, formulou a teoria quantitativa da moeda. Observou que o poder de compra do dinheiro varia de acordo com sua abundância ou escassez. Essa percepção antecipou em vários séculos elementos centrais do monetarismo moderno. Azpilcueta analisou os efeitos econômicos da chegada de metais preciosos provenientes das Américas e procurou compreender as relações entre circulação monetária, preços e inflação.
Juan de Mariana (1536–1624) destacou-se como pensador político radical. Defendia que os povos possuem direito de resistência contra governantes injustos e chegou a justificar o tiranicídio em determinadas circunstâncias. Mariana também condenava a adulteração da moeda promovida pelos governos (depreciação por limagem ou alteração do conteúdo do metal nobre na liga, artificialmente aumentando a moeda circulante), considerando-a forma de roubo estatal contra a população.
Domingo de Soto (1494–1560) aplicou princípios econômicos à análise do equilíbrio de mercado. Argumentava que os preços derivam das relações entre oferta e demanda. Seus estudos ajudaram a consolidar abordagens econômicas voltadas para o funcionamento concreto dos mercados e das trocas comerciais.
Luis de Molina (1535–1600) desenvolveu a teoria da Scientia Media, ou “Conhecimento Médio”. Procurava conciliar o livre-arbítrio humano com a presciência divina. Sua teoria continua com impacto nos debates teológicos sobre graça, liberdade e providência.
Fernando Vázquez de Menchaca (1512–1569) formulou concepções pioneiras sobre direitos subjetivos e direitos naturais individuais anteriores à legislação civil. Suas ideias influenciaram pensadores posteriores como Hugo Grócio e Thomas Hobbes.
Além da Escola de Salamanca propriamente dita, a Espanha do século de ouro produziu entre 1500 e 1650 diversos intelectuais ligados ao humanismo, à ciência, à medicina e à literatura. Juan Luis Vives (1493–1540), humanista valenciano, tornou-se um dos pioneiros da psicologia empírica. Defendia que o aprendizado deveria basear-se na observação direta da natureza. Também foi um dos primeiros autores europeus a defender a educação das mulheres.
Michael Servetus (1511–1553), conhecido em português como Miguel Servet, foi médico, teólogo e polímata. Descobriu a circulação pulmonar do sangue, descrevendo o movimento sanguíneo entre coração e pulmões. Suas posições teológicas sobre a Trindade levaram à sua execução em Genebra.
Francisco Vallés (1524–1592), o “Galeno espanhol”, tornou-se pioneiro do ensino clínico à beira do leito na Universidade de Alcalá. Defendia a observação hipocrática direta em lugar do comentário escolástico tradicional.
Luis de León (1527–1591) destacou-se como teólogo, humanista e poeta. Insistia que os textos bíblicos deveriam ser estudados em seus idiomas originais. Foi preso pela Inquisição durante cinco anos após traduzir o Cântico dos Cânticos para o espanhol.
Andrés Laguna (1499–1559) exerceu atividade como médico e botânico. Produziu correções empíricas e críticas às obras médicas da Antiguidade, especialmente aos textos de Dioscórides. Seu trabalho exemplifica a crescente valorização da observação direta e da experimentação no pensamento científico espanhol do período.
O século XVI e o início do XVII também testemunharam importante florescimento artístico e literário. Surgiu nesse período a chamada “Trindade dos Grandes Pintores Espanhóis”, formada por El Greco (1541–1614), Diego Velázquez (1599–1660) e, mais tardiamente, Francisco Goya (1746–1828). El Greco registrou seu estilo espiritualizado e intensamente pessoal. Velázquez elevou a pintura cortesã espanhola a um novo nível de sofisticação técnica e psicológica. Goya desenvolveria posteriormente uma obra marcada pela crítica social, pela violência histórica e pela subjetividade moderna.
Na literatura, Miguel de Cervantes (1547–1616) publicou Dom Quixote em 1615. A obra veio ser um dos romances fundadores desse gênero moderno e uma das realizações centrais da literatura ocidental.
O pensamento espanhol expandiu-se também para o Novo Mundo. Intelectuais americanos ligados à tradição ibérica continuaram o humanismo renascentista em territórios coloniais. Carlos de Sigüenza y Góngora (1645–1700) aplicou investigação científica ao estudo de cometas, arqueologia e história natural. Sor Juana Inés de la Cruz (1648–1695) defendeu o direito das mulheres ao conhecimento e à educação intelectual. Sua obra uniu erudição barroca, reflexão filosófica e crítica das limitações impostas às mulheres na sociedade colonial hispânica.
