Raça de gramáticos, roedores que ratais na musa de outrem, estúpidas lagartas que sujais as grandes obras, ó flagelo dos poetas que mergulhais o espírito das crianças na escuridão, ide para o diabo, percevejos que devorais os versos belos. –Apolônio de Rodes, poeta Alexandrino do séc.II ª C.
Contrário das reclamações de Apolônio de Rodes, aprecio muito o trabalho do gramático. Já notou que vários dos gramáticos brasileiros são de origem árabe?
Tem tanta gente notável com raízes árabes na literatura e na filologia brasileira que é fácil misturar contribuições –- especialmente quando sobrenomes ecoam origens libanesas ou turcas. Confesso que às vezes confundo os Kurys, como Adriano e Mário, ambos filólogos com trajetórias paralelas mas distintas. Aqui vai uma lista para esclarecer, inspirada naqueles Rubens: focando em suas vidas, obras e heranças árabes, sem confundir ninguém.
Manuel Said Ali Ida (1861-1953): filólogo pioneiro, nascido em Petrópolis (RJ), filho de Said Ali Ida, de origem turca (provavelmente do Império Otomano, com influências árabes), e Catarina Schiffler, alemã. Considerado um dos maiores estudiosos da língua portuguesa no Brasil, foi o primeiro a tratar cientificamente temas como a sínclise pronominal. Autodidata em múltiplas línguas, atuou como professor, botânico, zoólogo e geógrafo, deixando obras como “Estudos de Linguística” (1895) e contribuições para a história da língua portuguesa desde suas raízes medievais até o século XIX.
Adriano da Gama Kury (1924-2012): filólogo e gramático, nascido em Sena Madureira (AC), de origem libanesa pelo pai. Irmão de Mário da Gama Kury (não confunda!), formou-se em Filosofia pela UFRJ e foi livre-docente em Língua Portuguesa na UFF. Especialista em gramática normativa, publicou mais de 20 obras, como “Para Falar e Escrever Melhor o Português” e “Dicionário de Erros Comuns”. Professor rigoroso, influenciou gerações no ensino da língua, com foco em correção e clareza, e foi homenageado pela Fundação Casa de Rui Barbosa por sua trajetória acadêmica.
Evanildo Bechara (1928-2025): gramático e filólogo, nascido no Recife (PE), filho de pai árabe e mãe maranhense. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, foi um dos maiores promotores da lusofonia e do Acordo Ortográfico de 1990. Autor da icônica “Moderna Gramática Portuguesa” (1961), com dezenas de edições, e obras como “Ensino da Língua Portuguesa” (1979). Veio adolescente para o Rio de Janeiro após perder os pais, formou-se em Letras Neolatinas e dedicou 65 anos ao magistério, enfatizando análise sintática e normas cultas.
Antônio Houaiss (1915-1999): filólogo, lexicógrafo e intelectual multifacetado, nascido no Rio de Janeiro, filho de imigrantes libaneses maronitas (Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss). Presidente da ABL (1995-1999), diplomata e tradutor, é famoso pelo “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” (2001, póstumo), um marco com estudos sobre arabismos na língua portuguesa. Escreveu sobre influências árabes no português, como em “As Projeções da Língua Árabe na Língua Portuguesa”, e atuou em política, educação e gastronomia, defendendo a cidadania e a cultura semita.
Rosário Farâni Mansur Guérios (1907-1987): professor, advogado, ensaísta e linguista, nascido em Curitiba (PR), filho de Antônio Mansur Guérios, de origem libanesa, e Filomena Farani Mansur Guérios, italiana. Dedicou-se à linguística comparativa, etimologia e tabus linguísticos, com obras como “Dicionário Etimológico de Nomes e Sobrenomes” (1949) e “Tabus Linguísticos” (1979). Estudou arabismos, línguas indígenas e influências culturais, sendo professor emérito da UFPR e pioneiro em estudos sobre etimologia popular e macrofamílias linguísticas.
Mário da Gama Kury (não Adriano!) (1922-2016): tradutor, advogado e escritor, nascido em Sena Madureira (AC), filho de pai libanês e mãe brasileira. Irmão de Adriano da Gama Kury, mudou-se cedo para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito e se tornou um dos maiores helenistas do Brasil. Traduziu clássicos gregos como “História” de Heródoto e obras de Tucídides, além de gramáticas gregas e portuguesas. Publicou livros como “Dicionário de Mitologia Grega e Romana” e foi premiado por sua contribuição à filologia, misturando erudição com acessibilidade.
Massaud Moisés (1928-2018): crítico literário e professor, nascido em São Paulo, filho de imigrantes libaneses (Felippe Moisés, de Zahlé, no Líbano). Único de nove irmãos a seguir carreira intelectual, formou-se em Letras pela USP e influenciou estudos de literatura portuguesa e brasileira. Autor de “A Criação Literária” (1967) e “A Análise Literária” (1969), com foco em gêneros como o conto e poesia trovadoresca. Ensinou por décadas na USP, publicando obras didáticas sobre história da literatura e teses sobre origens árabes na poesia medieval.
Raduan Nassar (n. 1935): não é um gramático, mas resolvi elencá-lo mesmo assim. O escritor recluso, nascido em Pindorama (SP), filho de imigrantes libaneses que chegaram ao Brasil em 1920. Formou-se em Direito e Filosofia, mas abandonou a literatura após publicar obras-primas como “Lavoura Arcaica” (1975), “Um Copo de Cólera” (1978) e contos em “Menina a Caminho” (1997, póstumo). Ganhador do Prêmio Camões (2016), sua prosa densa explora temas como família patriarcal árabe, incesto e corrupção, influenciada por sua herança libanesa. Virou fazendeiro em 1984, doando sua propriedade para a UFSCar.
Atualizado em 24 de janeiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é editor e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Gramáticos e autores árabes. Ensaios e Notas, 2010. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2010/09/24/gramaticos-e-autores-arabes/. Acesso em: 24 jan. 2026.

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