Esta é uma genealogia intelectual do racionalismo judaico que traça as linhas de influência filosófica com foco nos papéis centrais de Maimônides, do século XII, e de Spinoza, do século XVII. A genealogia mosta como métodos racionalistas — que priorizam lógica, causalidade natural e demonstração filosófica em vez de revelação ou tradição — percorreram o pensamento judaico. O ponto de partida aparece nas fontes bíblicas e rabínicas que continham as sementes da investigação racional.
O Qohélet, ou Eclesiastes, expressa ceticismo quanto à justiça divina imediata e fazia da expressão “vaidade das vaidades” uma observação com tonalidade quase empírica. Fílon de Alexandria (c.20 a.C. e c.50 d.C.), realizou a primeira síntese ampla entre Escritura judaica e filosofia grega, sobretudo platonismo e estoicismo. Apesar de sua expressão quase mística, defendia uma interpretação alegórica da Torá para conciliar razão e revelação.
O racionalismo judaico florescue da Idade de Ouro islâmica e na influência caraíta entre os séculos VIII e XI. Saadia Gaon (882 – 942) escreveu Emunot ve-Deot (O Livro das Crenças e Opiniões), primeira teologia racionalista judaica sistemática. Nela afirmava que razão e revelação eram caminhos paralelos e que, se a Torá parecesse irracional, deveria ser reinterpretada. O judaísmo caraíta, surgido no século VIII, rejeitava a tradição talmúdica e insistia no uso da razão individual e da Escritura isolada, o que forçou o judaísmo rabínico a aprimorar suas defesas racionais. Salomão ibn Gabirol (1021-1058) desenvolveu um racionalismo neoplatônico no qual vontade divina e emanação apareciam como necessidades lógicas.
Esse desenvolvimento atingiu seu primeiro ápice com Moisés Maimônides (1138-1204). Seu movimento central consistia em fundir Aristóteles, mediado por Avicena e Averróis, com a Torá. Declarava que, quando a filosofia provava algo sobre Deus ou o mundo, a Torá deveria ser interpretada alegoricamente. Sua obra principal era O Guia dos Perplexos. Entre suas ideias revolucionárias estavam a teologia negativa, segundo a qual só podíamos afirmar o que Deus não era, pois atributos positivos implicariam imperfeição. Na controvérsia entre criação e eternidade, rejeitava a tese aristotélica de um universo eterno, mas mantinha aberta a possibilidade de reinterpretar a Torá caso a eternidade fosse demonstrada. Defendia a profecia como forma de perfeição intelectual, alcançada pela conjunção com o intelecto agente, e não como dom sobrenatural. O propósito da lei residia em treinar o intelecto e organizar a sociedade para o florescimento racional cujo telos era o conhecimento de Deus. Sua influência tornou-se intensa. Para racionalistas, Maimônides era o mestre; para antirracionalistas, como os cabalistas da Provença e o partido antimaimonista, era um herege.
Os ramos posteriores ao pensamento maimonidiano, entre os séculos XIII e XVI, se distribuíam em diferentes direções. O racionalismo aristotélico radical da escola de Gersonides era representado por Levi ben Gerson (1288- 1344), que se mostrava mais aristotélico que Maimônides. Argumentava que Deus conhecia apenas espécies universais, e não particulares individuais, o que limitava a onisciência, além de aceitar a eternidade do universo. O conservadorismo maimonidiano da escola de Narbona tinha em Moisés Narboni (m.1362), seu principal nome. Narboni defendia Maimônides contra a Cabala e afirmava que a alegoria era obrigatória para as massas, enquanto a filosofia era um saber reservado à elite. O averroísmo judaico encontrava em Elijah Delmedigo (1460-1497), um professor em Pádua que introduzia entre pensadores judeus a ideia aristotélica radical de que a religião servia como instrumento político para as massas, antecipando temas spinozistas. A reação antirracionalista provinha da Cabala e do tradicionalismo. Nahmânides (1194-1270), rejeitava os excessos alegóricos maimonidianos e insistia em milagres literais e segredos divinos inacessíveis à razão. Meir Abuláfia (1170- 1244), liderou o primeiro banimento contra O Guia dos Perplexos.
O segundo ápice da genealogia aparecia com Baruch Spinoza (1632 e 1677), considerado o racionalista herético. Seu movimento central radicalizava o racionalismo de Maimônides até romper completamente com o judaísmo. Rejeitava antropomorfismo, providência e causas finais e lia a Bíblia como documento humano a ser estudado pela razão como a natureza. Suas obras principais eram o Tratado Teológico-Político e a Ética. Suas ideias revolucionárias mostravam dívida com Maimônides, embora avançassem além dele. Na hermenêutica bíblica, Maimônides alegorizava passagens contrárias à razão, ao passo que Spinoza afirmava que não se deveria alegorizar, pois a Bíblia não era obra filosófica e a razão permanecia totalmente fora da revelação. Com a fórmula Deus sive Natura, rejeitava a teologia negativa maimonidiana e identificava Deus com as leis causais necessárias da natureza, sem personalidade, vontade ou propósito. Negava superioridade profética. Para ele, os profetas eram homens de imaginação, não de intelecto, e Moisés não conhecia Deus filosoficamente. Encarava a Escritura como lei e não como verdade, defendendo que a Bíblia ensinava obediência, não metafísica, e que o Estado deveria controlar a religião para garantir a paz. A liberdade de pensamento surgia como necessidade racional que culminava na democracia. Sua ruptura com Maimônides incluía a acusação de desonestidade intelectual, pois Maimônides teria forçado a razão grega sobre um texto pré-racional. Contudo, Spinoza herdava seu princípio central: a razão seria árbitro único da verdade, e ele apenas abandonava a tentativa de harmonização.
O período posterior a Spinoza viu surgir um racionalismo judaico secular entre os séculos XVIII e XX. O racionalismo spinozista, despojado da lealdade religiosa de Maimônides, fluía para o pensamento judaico moderno. Moisés Mendelssohn ( 1729-1786), rejeitava o concepção de Deus spinozista, mas aceitava a crítica bíblica e uma religião racional. Definia o judaísmo como lei revelada, e não como revelação de verdades, e sustentava que a razão acessava verdades universais sobre Deus, providência e imortalidade sem apoio no cristianismo ou no rabinismo.
O contraste entre Maimônides e Spinoza quanto à razão e à Torá permitia uma síntese. Para Maimônides, a razão tinha origem divina e harmonizava-se com a Torá; para Spinoza, era autônoma e derivada da necessidade da própria natureza. Sobre o estatuto da Bíblia, Maimônides a considerava verdadeira, embora demandasse alegoria; Spinoza a via como produto humano que não expressava verdades filosóficas. Para Maimônides, Deus era incompreensível e conhecido por negação; para Spinoza, era idêntico às leis naturais. A profecia, em Maimônides, constituía perfeição intelectual; em Spinoza, pertencia à imaginação. O objetivo final, para Maimônides, era o conhecimento racional de Deus unido à obediência; para Spinoza, era a liberdade e a bem-aventurança racional sem obediência a Deus. Quanto à identidade judaica, Maimônides mantinha os mandamentos como obrigatórios; Spinoza abandonava todo ritual e se afastava da comunidade judaica. A conclusão sintetizava a genealogia: Maimônides era o pai do racionalismo judaico dentro da fé, enquanto Spinoza era seu filho ilegítimo que deixava o lar, incendiava-o e construía outra filosofia sobre as cinzas, valendo-se, porém, do mesmo sílex e do mesmo aço de Maimônides.
A Haskalá, o Iluminismo Judaico que floresceu entre cerca de 1770 e 1880, herdou diretamente a tradição racionalista delineada acima. Sem Moses Maimônides (1138–1204) e Baruch Spinoza (1632–1677), o movimento seria impensável, ainda que precisasse negociar uma tensão profunda entre ambos. As linhas gerais dessa tensão eram claras: de um lado, Maimônides oferecia um caminho de reforma interna, ao propor a conciliação entre razão e tradição; de outro, Spinoza indicava a via da crítica histórica e da autonomia intelectual que, ao separar razão e revelação, deslocava o judaísmo para o campo da ética secular. A disputa entre esses dois modelos definia a amplitude das respostas da Haskalá, cujas figuras centrais — Moses Mendelssohn (1729–1786), Naphtali Herz Wessely (1725–1805), Isaac Euchel (1756–1804) e Saul Ascher (1767–1822) — situavam-se em pontos variados desse espectro.
Moses Mendelssohn, chamado por alguns de o Sócrates alemão e considerado o pai da Haskalá, lia Maimônides atentamente e produziu um comentário ao Guia dos Perplexos. Conhecia também o pensamento de Spinoza, e seu embate com Friedrich Heinrich Jacobi, que o acusara de espinozismo disfarçado, marcou sua recepção pública. Mendelssohn insistia na compatibilidade entre razão e revelação, sustentando que o judaísmo não possuía dogmas obrigatórios, mas apenas verdades acessíveis à razão — existência de Deus, providência e imortalidade — acompanhadas de leis reveladas. Defendeu que os mandamentos tinham função racional, regulando a vida social e a formação moral, e rejeitou o esoterismo maimonidiano, preferindo explicar a utilidade social da lei em vez de ocultar seu sentido. Permaneceu fiel à halachá, ao desejar que os judeus ingressassem na sociedade europeia sem abandonar a observância. Ainda assim, conviveu com a sombra de Spinoza. A polêmica com Jacobi levou-o a escrever Morning Hours para negar qualquer aproximação com o panteísmo, mas seu tratado Jerusalém operava com uma distinção cara ao espinosismo: religião como razão universal e judaísmo como legislação particular. Essa divisão lembrava a interpretação do Tratado Teológico-Político, em que a lei bíblica aparecia como instrumento político e não como veículo de verdade filosófica. Mendelssohn aspirou unir a piedade de Maimônides às ferramentas críticas de Spinoza e, ao fazê-lo, preparou inadvertidamente o terreno para conclusões mais radicais.
O círculo berlinense da Haskalá, que incluía Isaac Euchel, David Friedländer (1750–1834) e Wessely, seguiu Mendelssohn, mas avançou mais na direção de posições afinadas ao espinosismo. Wessely, em Palavras de Paz e Verdade, defendeu que a educação judaica priorizasse o conhecimento racional — ciências, ética e línguas — antes do estudo talmúdico. Sua premissa era maimonidiana, pois afirmava que a razão fundamentava a Torá; contudo, insinuava uma consequência espinosana: se a razão contrariasse uma lei, a lei perderia autoridade, embora ele não desse esse passo. Friedländer, discípulo de Mendelssohn, propôs em 1799 uma conversão em massa ao deísmo racional, visando evitar os dogmas cristãos. Admirador de Gotthold Ephraim Lessing, acusado de espinozismo, via a lei judaica como obsoleta. Argumentou que, se Maimônides dizia que os mandamentos aperfeiçoavam o intelecto, então, se o intelecto fosse aperfeiçoado sem eles, nada justificaria mantê-los, conclusão mais próxima de Spinoza que do mestre medieval. Euchel fundou o periódico Ha-Me’asef e promoveu a gramática hebraica e as ciências seculares como instrumentos de uma piedade racional. Citava Maimônides com frequência, mas depurava seu pensamento para torná-lo compatível com uma sensibilidade moderna e, assim, aproximava-se de um secularismo revestido de linguagem maimonidiana.
A partir da década de 1790, uma geração mais jovem abandonou o equilíbrio mendelssohniano e assumiu abertamente Spinoza. Saul Ascher publicou Leviathan e A Segunda Parte de Eisenmenger, onde defendia que o racionalismo de Maimônides conduzia necessariamente ao panteísmo espinosano. Propôs uma religião racional judaica sem ritual, sem eleição divina e sem um Deus pessoal, apenas ética e lei natural. Tornou-se alvo tanto dos rabinos tradicionais quanto dos herdeiros moderados de Mendelssohn. No chamado Círculo Espinozista da Haskalá, Salomon Maimon (1754–1800), filósofo itinerante e leitor atento de Kant, reinterpretou o criticismo a partir de Maimônides e Spinoza. Sua autobiografia expôs como o racionalismo judaico o conduziu ao questionamento das estruturas religiosas e filosóficas de sua época. Lazarus Bendavid (1762–1832) defendeu que o núcleo do judaísmo era o monoteísmo racional e que os rituais tinham função pedagógica, podendo ser abandonados quando perdessem utilidade, posição que aproximava sua obra de Spinoza.
A ciência do judaísmo, ou Wissenschaft des Judentums, movimento acadêmico surgido entre 1820 e 1870 sob a liderança de Leopold Zunz (1794–1886), Abraham Geiger (1810–1874) e Heinrich Graetz (1817–1891), aplicou métodos histórico-críticos de matriz espinosana aos textos judaicos, mas frequentemente buscou um resultado maimonidiano. Estudou a Bíblia como documento humano, escrito em contextos variados, com múltiplos autores e contradições internas, abordagem inspirada pelo Tratado Teológico-Político. Ao mesmo tempo, procurou identificar por trás das camadas históricas um núcleo ético e racional que, segundo eles, permaneceria válido para os judeus modernos. Geiger, fundador do judaísmo reformista, ilustrou essa síntese. Leu Spinoza com atenção e anotou o Tratado, sustentou que a lei judaica evoluía ao longo do tempo, ideia de matriz maimonidiana, e concluiu que muitos rituais eram obsoletos, ecoando o projeto de secularização espinosana. Conservou, porém, um Deus pessoal e a importância do povo judeu, rejeitando o universalismo radical de Spinoza.
A oscilação entre Maimônides e Spinoza permaneceu aberta na Haskalá. De um lado estava a esperança maimonidiana de que a razão pudesse purificar e preservar o judaísmo; de outro, a percepção espinosana de que a aplicação rigorosa da razão dissolvia a particularidade da tradição. A maioria dos iluministas judaicos desejou a primeira via, mas, ao promover educação secular, crítica histórica e filosofia, acabou por fortalecer a segunda. Mendelssohn temeu essa consequência no fim da vida. No final do século XIX, o nacionalismo judaico de Ahad Ha’am e o judaísmo reformista representaram compromissos pós-maimonidianos e pós-espinozanos: não conservaram integralmente a lei e tampouco abandonaram a identidade. Assim, todo pensador judeu moderno que afirmou a primazia da razão caminhou na corda estendida por Maimônides e cortada por Spinoza.
No século XX, o fio racionalista do pensamento judaico fragmentou-se em teoria crítica, diálogo existencial e desconstrução, cada qual herdando a ferida maimonidiano-espinozana. Georg Lukács (1885–1971), judeu de nascimento, e a Escola de Frankfurt traduziram a suspeita racionalista contra falsos deuses em uma crítica da razão instrumental e da totalidade capitalista, enquanto Walter Benjamin (1892–1940) uniu fragmentos cabalísticos, imanência espinozana e materialismo marxista para formular um materialismo histórico de feição messiânica. Hannah Arendt (1906–1975), aluna de Martin Heidegger e leitora de tradições judaicas, radicalizou o racionalismo político de Spinoza em Origens do Totalitarismo ao sustentar que o juízo racional, e não a verdade, era o único dique possível contra o terror. Franz Rosenzweig (1886–1929) e Martin Buber (1878–1965), por outro lado, rejeitaram o racionalismo sistemático e elaboraram uma filosofia dialógica: em A Estrela da Redenção, Rosenzweig rompeu com Hegel e com Spinoza para afirmar um Deus relacional e marcado pelo tempo, enquanto o “Eu-Tu” de Buber priorizou o encontro sobre a demonstração filosófica. Ambos, porém, permaneceram devedores da teologia negativa de Maimônides e da crítica imanente de Spinoza à autoridade clerical. Jacques Derrida (1930–2004), judeu argelino, desconstruiu a própria oposição entre razão e revelação ao mostrar que o sonho racionalista de presença pura — o Deus de Maimônides ou a substância de Spinoza — era assombrado pela différance, o traço do que a razão não dominava. Esses autores não abandonaram a razão, mas radicalizaram sua autocrítica. De Lukács e o fenômeno da reificação ao anjo da história de Benjamin, da banalidade do mal em Arendt ao “messiânico sem messias” de Derrida, todos perguntaram se o racionalismo judaico sobrevivera a Auschwitz e responderam que apenas como razão fraturada, interrogativa e permanentemente inquieta.
Hermann Cohen (1842-1918), era racionalista neokantiano para quem o judaísmo consistia em monoteísmo ético derivado da razão e não da história, e entendia Deus como a ideia de perfeição moral. Leo Strauss (1899-1973), lia Maimônides e Spinoza como escritores esotéricos e argumentava que Spinoza identificou o conflito entre razão e revelação, mas escolheu a razão, ainda que Strauss permanecesse dividido. Emmanuel Lévinas (1906-1995), construía uma ética racional como filosofia primeira: Deus surgia depois da demanda racional do rosto do outro, expressão de um racionalismo judaico pós-Spinoza e pós-Holocausto.
Esse desenvolvimento podia ser representado em um diagrama que expunha a linha de influência intelectual: Fílon, Saadia Gaon, Ibn Gabirol, Maimônides, Gersonides, Elijah Delmedigo, Spinoza, Mendelssohn, Cohen, Strauss e Lévinas, com oposição cabalística proveniente de Nahmânides que impulsionava recuos teológicos e levava ao hassidismo como sobrevivência antirracionalista.

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