A educação liberal para J. H. Newman

O que é, afinal, uma universidade? Um centro de treinamento profissional? Um laboratório de inovação? Um degrau para o mercado? No século XIX, em meio à industrialização acelerada e ao prestígio crescente das ciências úteis, o cardeal e pensador inglês John Henry Newman (1801-1890) deu uma resposta desconcertante: a universidade existe, apesar de tudo, para formar a mente.

Em The Idea of a University, Newman não descreve prédios, currículos ou métodos pedagógicos. Ele descreve um tipo humano. Para ele, a missão essencial da universidade é “ensinar o conhecimento universal” — não no sentido de ensinar tudo, mas de cultivar uma inteligência capaz de perceber como os diversos saberes se conectam. Educação universitária, nesse sentido, não é acúmulo de informação, mas formação de uma certa qualidade de pensamento: amplo, equilibrado, relacional.

Newman chama isso de formação de um “hábito filosófico”. Não se trata de transformar todos os estudantes em filósofos profissionais, mas de dar-lhes a capacidade de ver as coisas em proporção, de distinguir o central do periférico, de perceber relações entre áreas distintas do saber. Uma mente assim treinada não fica prisioneira da própria especialidade. O jurista, o médico ou o cientista formados nesse ambiente sabem situar sua área dentro de um todo mais vasto. Eles não são apenas técnicos competentes; são intelectualmente livres.

É por isso que Newman insiste tanto que o conhecimento é um fim em si mesmo. Essa afirmação soa quase provocativa hoje, quando a linguagem dominante sobre educação gira em torno de “impacto”, “empregabilidade” e “competências”. Para Newman, submeter o saber exclusivamente a critérios de utilidade é empobrecê-lo — e, ao mesmo tempo, empobrecer a própria pessoa. O conhecimento liberal não é “inútil”; ele é útil de um modo mais profundo e indireto: molda a forma como alguém julga, dialoga, decide e convive.

Daí a famosa imagem do “gentleman”. Newman não está defendendo um ideal aristocrático superficial, mas um tipo de personalidade marcada por moderação, justiça intelectual, autocontrole e respeito pelo outro. A educação liberal ensina a entrar no ponto de vista alheio, a expressar o próprio com clareza, a evitar exageros e simplificações. Ela forma pessoas que sabem argumentar sem brutalidade e discordar sem hostilidade. Em termos contemporâneos, poderíamos dizer que ela educa para a convivência em um mundo plural.

Curiosamente, Newman também faz uma distinção rigorosa entre educação intelectual e formação moral ou religiosa. A universidade, como tal, não produz automaticamente virtudes cristãs nem fé. Ela pode preparar o terreno, refinando a inteligência e a sensibilidade, mas não substitui a conversão moral ou espiritual. Um intelecto brilhantemente treinado pode coexistir com uma vida ética pobre. Essa lucidez impede que Newman transforme a universidade em instrumento direto de moralização.

Ao mesmo tempo, ele rejeita a fragmentação do saber. Para Newman, as disciplinas não são ilhas autossuficientes. Cada ciência ilumina e é iluminada pelas outras. Retirar um campo do horizonte universitário — seja a teologia em seu contexto, seja hoje as humanidades em certos ambientes — distorce o conjunto. O conhecimento só é plenamente confiável quando visto em relação com o todo. Essa visão unificadora é, para ele, parte essencial da cultura liberal.

O mais impressionante é que Newman não oferece um “modelo institucional” rígido, mas um ideal de formação pessoal. Sua pergunta de fundo não é “como deve ser a universidade?”, mas “que tipo de mente ela deve formar?”. Em tempos de reformas educacionais constantes e métricas cada vez mais sofisticadas, sua resposta continua desconfortavelmente simples: a universidade deve ajudar a produzir pessoas intelectualmente maduras, capazes de julgar com amplitude, falar com clareza e habitar o mundo com equilíbrio.

Talvez essa seja a atualidade mais profunda de Newman. Quando tudo empurra a educação para a especialização precoce e a utilidade imediata, ele nos lembra que há algo anterior a qualquer profissão: a forma da nossa mente. E que, sem essa formação mais lenta, ampla e desinteressada, até mesmo o conhecimento mais técnico pode se tornar estreito — e, no fim, perigoso.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Um site WordPress.com.

Acima ↑