Alasdair MacIntyre (1929–), filósofo moral escocês e uma das vozes mais incisivas da filosofia contemporânea, oferece uma lente raramente discutida, mas profundamente reveladora, sobre como a civilização ocidental concebe e disputa a verdade. Em obras como After Virtue (1981), Whose Justice? Which Rationality? (1988) e Three Rival Versions of Moral Enquiry (1990), ele identifica três grandes tradições de investigação moral e epistêmica — tradição, enciclopédia e genealogia — que não são apenas modos diferentes de pensar, mas maneiras rivais de entender o mundo, de definir o bom e de orientar a ação.
O valor dessa tipologia não está apenas em sua precisão histórica, mas em como ela nos faz confrontar uma pergunta que raramente nos colocamos com sinceridade: como realmente buscamos a verdade? Quais instrumentos epistemológicos usamos para descobrir, justificar ou contestar nossas crenças mais profundas? MacIntyre responde, de modo provocador, que a resposta depende das comunidades em que estamos inseridos e dos acordos, explícitos ou tácitos, desses grupos sobre o que conta como verdade.
I. Tradição: a verdade como herança viva
Na primeira abordagem, a verdade não é uma conquista individual, nem um dado neutro, mas algo que só faz sentido dentro de uma história comum”. O aprendiz que entra numa guilda, o noviço que se junta a uma ordem monástica, ou o estudante que entra numa fé herda um diálogo que já vem de longe. Como um violinista aprende primeiro a linguagem e os padrões do repertório antes de compor, o buscador de verdade embrenha-se nas línguas, debates e disputas de seu mundo interpretativo.
Cada comunidade moral ou estética tem um telos — um fim próprio que orienta suas normas, juízos e práticas. Os participantes aprendem a narrar suas vidas em termos desse telos, apoiando-se nos textos fundadores, nos consensos e nas correções mútuas. À medida que amadurecem, ganham o direito de reinterpretar, expandir e refinar os significados comunitários, contribuindo para a própria tradição de dentro.
Nesse quadro, a verdade não é algo “lá fora”, esperando ser objetivamente captado; ela é histórica, dialógica e teleológica. O passado não é um fardo, mas um pai cuja sabedoria continua a iluminar. Este modo de investigação está presente, por exemplo, em figuras como Sor Juana Inés de la Cruz, que recorre à tradição da erudição cristã para ampliar a compreensão sobre o papel da mulher e da educação. Ela não rejeita a tradição — ela a revigora e a reinterpreta desde dentro.
II. Enciclopédia: a verdade como objeto universal
A segunda abordagem é aquela que domina a modernidade clássica: a verdade é algo que pode ser alcançado por meio de razão neutra e investigação objetiva. Essa é a ambição das enciclopédias, das ciências naturais e da filosofia iluminista. A verdade é concebida como correlação de dados, descoberta de leis ou formulação de princípios racionais acessíveis a todos, independentemente de seu contexto cultural ou confessional.
Nesse paradigma, as tradições são muitas vezes consideradas pré-conceitos a serem superados, e o papel do investigador é eliminar os preconceitos para deixar “a razão falar por si mesma”. A verdade, então, é algo que indivíduos racionais podem alcançar por meio de seus próprios julgamentos.
É paradoxal, no entanto, que essa busca pela objetividade acabe por fragmentar a própria vida moral, uma vez que não oferece uma narrativa coerente da pessoa ou da comunidade. Mesmo dentro desse modelo, variantes surgem: o período romântico e o existencialismo, por exemplo, deslocam a busca da verdade para a sensibilidade subjetiva ou a escolha pessoal, sublinhando que, sem um telos compartilhado, a razão pura pode levar à arbitrariedade.
III. Genealogia: a verdade como disputa de poder
A terceira abordagem rejeita tanto a tradição quanto a enciclopédia como fundamentos seguros da verdade. Inspirada nas análises de Nietzsche, Foucault e Marx, a genealogia vê a verdade como um efeito de relações de poder e formações sociais, não como um espelho fiel da realidade.
Segundo essa perspectiva, as pretensões de objetividade escondem sempre uma vontade de domínio. O que chamamos de verdade não é descoberto; é imposto, negociado, instrumentalizado por grupos sociais em competição. A crítica genealógica desconfia de qualquer ideia universal e expõe as raízes históricas, econômicas e psicológicas das afirmações de verdade, revelando que elas raramente são tão neutras quanto parecem.
Neste modo de investigação, o eu torna-se um produto das forças sociais e culturais que o moldam — não um sujeito estável que descobre a verdade, mas um efeito temporário de redes de poder.
Apesar de MacIntyre não focar exemplares literários específicos dessa abordagem em seu texto, muitos escritores do pós-modernismo e da descolonização dialogam, mesmo que de maneira crítica, com esse quadro genealógico.
Por que isso importa hoje
A tipologia de MacIntyre não é apenas um mapa histórico; é um espelho para nossa própria confusão cultural. Em nossos discursos cotidianos sobre ciência, moralidade, identidade e política, muitas vezes misturamos essas três maneiras de buscar a verdade como se fossem compatíveis. Mas elas não são. Uma comunidade baseada em tradição valoriza a história e a autoridade interna; uma empreendida por enciclopédicos valoriza a neutralidade e a razão universal; a genealogia questiona as próprias bases de qualquer pretensão de neutralidade.
O problema de nossa época pode ser visto, em parte, como o colapso dessas distinções: apelamos simultaneamente às normas universais da razão, à autoridade histórica de tradições diversas e à crítica desconstrutiva do poder, sem perceber que cada recurso epistemológico carrega pressupostos diferentes sobre o que é verdade, quem a detém e como ela deve ser buscada.
Talvez uma educação verdadeiramente liberal — no sentido neumanniano — seja precisamente aquela capaz de relacionar essas tradições, reconhecendo suas limitações e seus pontos fortes, sem reduzir todas as formas de investigação a uma única metodologia dominante. Na encruzilhada entre tradição, enciclopédia e genealogia, encontramos não um consenso fácil, mas uma fome mais profunda por sabedoria integrada — por uma verdade que não apenas seja conhecida, mas vivida.
Referências
MacIntyre, Alasdair. After Virtue: A Study in Moral Theory (1981).
MacIntyre, Alasdair. Whose Justice? Which Rationality? (1988).
MacIntyre, Alasdair. Three Rival Versions of Moral Enquiry (1990).

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