No início do século XIX, a Inglaterra vivia sob a sensação de que o mundo estava se desfazendo. Guerras napoleônicas, crises de abastecimento, incêndios urbanos, deslocamentos populacionais e rápidas transformações econômicas produziam uma experiência cotidiana de instabilidade. Para muitos, a história parecia ter acelerado além do controle humano. Em ambientes assim, a imaginação apocalíptica prospera. O fim dos tempos deixa de ser uma doutrina distante e torna-se uma lente para interpretar o presente.
Foi nesse clima que uma galinha, em Leeds, passou a anunciar a segunda vinda de Cristo.
A história ficou associada a Mary Bateman, mas ela nascera como Mary Harker, em 1768. Sua trajetória não sugere uma mística desde cedo, e sim uma sobrevivente urbana num mundo de poucos recursos e muitas oportunidades marginais. Trabalhou como costureira, envolveu-se em pequenos furtos, mudou de cidade, mudou de nome social, mudou de ocupação. Em Leeds, tornou-se mantua maker — costureira especializada —, depois cartomante, depois “mulher sábia”, dessas que misturavam conselhos práticos, feitiçaria popular, curas e adivinhações. Não eram profissões formais, mas funções sociais reconhecíveis, especialmente entre mulheres pobres e classes trabalhadoras.
Mary não era uma exceção excêntrica; era um produto típico de uma economia moral em que religião, magia, medicina caseira e fraude conviviam em zonas cinzentas. Sua reputação, no entanto, era volátil. Acusações de roubo, extorsão e engano a acompanharam por anos. Quando descoberta, preferia negociar a inocentar-se. Subornos e acordos informais eram mais eficazes do que declarações de pureza moral. A lei, sobretudo quando os prejuízos eram pequenos e as vítimas dispersas, mostrava-se permeável.
O salto decisivo em sua carreira veio quando ela percebeu que a autoridade mais poderosa não era a da cura nem a da cartomancia, mas a da profecia.
Na virada do século, o movimento em torno de Joanna Southcott havia popularizado a expectativa de um fim iminente. Southcott, uma visionária de origem modesta, afirmava receber revelações divinas e reunira milhares de seguidores. Sua mensagem oferecia uma gramática pronta: linguagem bíblica, urgência escatológica, sinais dos tempos, separação entre eleitos e incrédulos. Para pessoas que já viviam a ruptura social como catástrofe, a teologia do fim era menos um delírio do que uma explicação coerente do mundo.
Mary Bateman aproximou-se desse universo e fez algo notável: materializou o sinal.
Ela começou a exibir ovos com a inscrição “Christ is coming” (“Cristo está chegando”). A mensagem aparecia, segundo testemunhas, gravada na casca, como se a própria natureza tivesse sido transformada em meio de revelação. Quem quisesse ver o prodígio pagava um penny. Três ovos bastaram para criar comoção. Não era um sermão difícil, nem um tratado teológico. Era um objeto. Pequeno, doméstico, inegavelmente físico. O fim do mundo cabia na palma da mão.
O poder do episódio não está apenas na credulidade dos espectadores, mas na lógica do sinal. A modernidade nascente valorizava cada vez mais o visível, o empírico, o “fato”. Ao mesmo tempo, a religião popular continuava a buscar manifestações diretas do divino. O ovo profético unia as duas coisas: era tangível como um experimento e sagrado como uma revelação. Não vinha do púlpito nem do erudito, mas de uma galinha — criatura humilde, rural, feminina. Justamente por isso parecia autêntico. Deus falava fora das instituições.
A galinha logo virou atração local. Ovos milagrosos, dizia-se, não surgem por acaso. Mas o milagre dependia de uma condição: a presença de Mary.
Quando a ave foi retirada de sua posse, as mensagens cessaram. Nenhum novo ovo trouxe palavras divinas. A maravilha virou suspeita. Investigadores descobriram o método: Mary escrevia a frase com tinta, depois — com habilidade anatômica e frieza notável — reinseria os ovos no oviduto da galinha. Após algum tempo, o animal os botava novamente, agora transformados em portadores de profecia. O prodígio era técnica. O apocalipse, artesanato.
O desmascaramento costuma ser contado como triunfo da razão sobre a superstição. Mas essa leitura é confortável demais. O episódio não revela apenas que pessoas “simples” podem ser enganadas; mostra como, em contextos de ansiedade coletiva, a necessidade de sentido supera a vigilância crítica. A pergunta relevante não é “como puderam acreditar?”, mas “o que tornava aquela crença plausível naquele momento?”.
Leeds não foi enganada por uma galinha. Foi mobilizada por uma narrativa que tornava inteligível um mundo desordenado.
A fraude dos ovos não encerrou a carreira de Mary Bateman. Ao contrário, a notoriedade ampliou sua clientela. A autoridade simbólica conquistada como mediadora do sobrenatural — mesmo depois do escândalo — reforçou sua posição entre pessoas que buscavam proteção contra infortúnios, doenças e ameaças invisíveis. Pouco depois, ela se envolveria em um crime muito mais grave: o envenenamento de uma cliente, pelo qual foi julgada e executada em 1809.
No frigir dos ovos, a “galinha profeta” tornou-se uma curiosidade macabra dentro de uma biografia criminosa. Mas seu significado histórico vai além do folclore.
O caso ilumina um ponto cego frequente nas narrativas sobre modernidade: a ideia de que o avanço da ciência e das instituições racionais simplesmente varreu as formas populares de crença. Na prática, o que vemos é recombinação. Antigas expectativas religiosas se adaptam a novas sensibilidades. A prova sensível, o objeto visível, o evento espetacular — todos ganham importância crescente. O milagre precisa ser mostrado, exibido, quase demonstrado.
Nesse sentido, os ovos de Mary Bateman antecipam algo profundamente moderno: a mediatização do sagrado. O sinal não é apenas recebido; é performado, encenado para um público pagante. A cena parece saída de uma peça de Ariano Suassuna, antecipando em mais de um século a genial farsa de João Grilo e sua porca que ‘paria’ moedas de ouro. Se no sertão paraibano a ganância do Padeiro e da Mulhera era seduzida pelo dinheiro brotando do animal, em Leeds o combustível era o medo do juízo final. Em ambos os casos, a anatomia animal era subvertida pelo engenho humano para fabricar o impossível. A profecia vira evento. O apocalipse, atração.
Também não é irrelevante que a mediadora fosse uma mulher pobre. Em uma sociedade que restringia o acesso feminino a instituições formais de poder, o sobrenatural oferecia uma via alternativa de autoridade. Visionárias, curandeiras e “mulheres sábias” podiam falar onde outras eram silenciadas. Isso não as tornava heroínas; muitas, como Mary, exploravam essa posição de forma predatória. Mas revela que a fronteira entre religião, gênero e poder era mais porosa do que os registros oficiais sugerem.
No fim, a profecia falhou, como tantas outras. O mundo não acabou. A galinha silenciou. A Inglaterra seguiu seu caminho rumo à industrialização plena, novas crises e novas formas de imaginar o fim.
Mas, por um breve período, em uma cidade inquieta, o destino da humanidade pareceu caber dentro de um ovo. E isso foi suficiente para convencer muita gente de que a história tinha chegado ao seu limite.
SAIBA MAIS
EXTRAORDINARY life and character of Mary Bateman the Yorkshire witch. 12. ed. Leeds: Davies and Co., 1811.
MACKAY, Charles. Memoirs of Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds. [S. l.]: Office of the National Illustrated Library, 1852. Disponível em: https://en.wikisource.org/wiki/Memoirs_of_Extraordinary_Popular_Delusions_and_the_Madness_of_Crowds. Acesso em: 23 jan. 2026.
Atualizado em 23 de janeiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é antropólogo e pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.
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- Citação com autor incluído no texto: Alves (2026)
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. A galinha profeta da Senhora Bateman. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/03/05/a-galinha-profeta-da-senhora-bateman/. Acesso em: 23 jan. 2026.


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