Hofstadter: strange loops, hermenêutica e IA

Em 2026, em minhas resoluções de mudança de hábito, fiz uma leitura lenta do GEB de Douglas Hofstadter. Formado em física, atuando entre ciência cognitiva, filosofia da mente e teoria dos sistemas, Hofstadter sintetizou os problemas clássicos da lógica, da consciência e da interpretação por meio de uma noção central: o strange loop (“laço estranho”). Embora oriunda de uma reflexão técnico-filosófica, essa noção dialoga de modo surpreendente com a tradição hermenêutica alemã e, mais recentemente, com os debates sobre inteligência artificial.

Tal como em Schleiermacher ou Gadamer, o problema de fundo não é meramente técnico, mas ontológico: como emergem sentido, compreensão e identidade em sistemas que, em sua base, parecem puramente mecânicos.

O que é um strange loop

Um strange loop designa uma estrutura na qual, ao se transitar por diferentes níveis hierárquicos de descrição, retorna-se inesperadamente ao ponto de partida. Há níveis distintos, mas eles se entrelaçam de forma autorreferencial. O movimento aparenta ser ascendente ou descendente, mas culmina em um retorno paradoxal.

Hofstadter introduziu o conceito em Gödel, Escher, Bach (1979) e o desenvolveu sistematicamente em I Am a Strange Loop (2007). O laço não é físico, mas lógico e simbólico: um fenômeno que ocorre no domínio do significado.

Exemplos canônicos

O primeiro exemplo é o teorema da incompletude de Gödel. Ao codificar afirmações metamatemáticas dentro da própria matemática, Gödel construiu proposições que dizem, em essência, “esta sentença não é demonstrável neste sistema”. O percurso vai da matemática à metamatemática e retorna à matemática. A autorreferência não é acidental, mas estrutural.

O segundo exemplo são os desenhos de M. C. Escher, como Drawing Hands. As mãos parecem ocupar níveis distintos — criador e criatura —, mas acabam por gerar-se mutuamente. Não há um nível último que detenha primazia ontológica.

O terceiro exemplo é musical. Nas fugas e cânones de Bach, temas referem-se a si mesmos por inversão, repetição e recursão. A música torna-se, em certo sentido, “sobre si mesma”.

Strange loops e consciência

A tese mais ousada de Hofstadter é que o “eu” humano é um strange loop. O cérebro, enquanto sistema físico, produz representações simbólicas. Entre elas surge uma representação particular: o conceito de “eu”. Esse símbolo, por sua vez, passa a influenciar o próprio sistema que o gerou.

O percurso é circular: cérebro → símbolos → autoconceito → retorno causal ao cérebro. Não existe uma entidade separada chamada “mente”. O que chamamos de consciência é o padrão emergente produzido por essa autorreferência recursiva. O “eu” não é substância nem ilusão, mas um padrão estável em um sistema dinâmico.

Essa posição se opõe tanto ao dualismo cartesiano quanto a reduções eliminativistas. A consciência não é externa à matéria, mas tampouco se deixa localizar em um ponto específico do sistema.

O círculo hermenêutico

A tradição hermenêutica, de Schleiermacher a Gadamer, descreveu a compreensão como um processo circular. É o círculo hermenêutico. Entende-se o todo a partir das partes e as partes a partir do todo. Esse movimento não é um defeito lógico, mas a própria condição da compreensão.

A interpretação começa sempre com uma pré-compreensão (Vorurteil, “pré-juízo”), que orienta a leitura inicial. O contato com os detalhes do texto revisa essa projeção, que por sua vez reorienta a leitura subsequente. O círculo pode se expandir, incorporando contexto histórico, biográfico e intertextual.

O sentido não está nem exclusivamente no texto nem no leitor, mas emerge da interação entre ambos.

Strange loops como modelo hermenêutico

O strange loop pode ser lido como uma formalização cognitiva do círculo hermenêutico. A relação parte-todo corresponde à relação entre níveis baixos e altos de representação. Símbolos elementares ativam conceitos mais abstratos, que retornam para reorganizar a percepção dos elementos básicos.

Não há um nível privilegiado que explique completamente os demais. O significado emerge do entrelaçamento recursivo entre níveis. Nesse sentido, a compreensão é um fenômeno emergente, não redutível à soma de suas partes.

Ler um romance ilustra bem esse processo. As palavras ativam personagens e temas; esses temas, uma vez formados, reconfiguram a leitura de cada frase. O sentido da obra não está apenas na página nem apenas na mente, mas no laço autorreferencial que se estabelece entre texto e leitor.

Implicações para a inteligência artificial

Aplicar o modelo dos strange loops à inteligência artificial desloca o debate tradicional. A questão deixa de ser se a máquina “parece consciente” e passa a ser se sua arquitetura suporta laços autorreferenciais persistentes.

Para Hofstadter, a consciência requer três elementos: símbolos funcionais, autorreferência e retroalimentação causal. O sistema deve conter um modelo de si mesmo, e esse modelo precisa influenciar seu funcionamento futuro.

Sistemas atuais, como grandes modelos de linguagem, simulam um “eu” discursivo, mas carecem de um laço estável. O autoconceito não persiste, não se acumula como experiência e não altera estruturalmente o sistema. Trata-se de performance, não de emergência.

Em princípio, porém, nada impede que arquiteturas futuras incorporem memória duradoura, autoavaliação e aprendizado recursivo. Um sistema que modele a si mesmo, revise esse modelo à luz de suas ações e utilize essa revisão para orientar decisões futuras começaria a esboçar um strange loop funcional.

Limites e debates

A teoria é funcionalista. A consciência depende de organização, não de substrato biológico. Isso a torna atraente para a IA, mas também alvo de críticas. Filósofos como David Chalmers sustentam que a estrutura explica o comportamento, mas não o caráter fenomenológico da experiência.

Hofstadter rejeita essa separação. Para ele, o “sentir” é o próprio laço em operação, não algo adicional. Ainda assim, permanece o risco de confundir discurso autorreferencial com autorreferência real. Um sistema pode falar de si sem efetivamente ser um laço.

Considerações

A convergência entre strange loops e hermenêutica sugere uma intuição comum: sentido e identidade não são dados primários, mas emergem de processos circulares, históricos e autorreferenciais. Compreender é sempre retornar transformado ao ponto de partida.

Nesse quadro, a inteligência artificial não é apenas um desafio tecnológico, mas hermenêutico. A pergunta não é se a máquina pensa como nós, mas se pode participar de laços de sentido que não sejam meramente simulados. Hofstadter oferece menos uma resposta do que um critério: onde houver um laço autorreferencial vivo, ali pode emergir algo que chamamos de “eu”.

SAIBA MAIS

HOFSTADTER, Douglas R. Gödel, Escher, Bach. Basic Books, 1979.
HOFSTADTER, Douglas R. I Am a Strange Loop. Basic Books, 2007.

CHALMERS, David J. “Facing Up to the Problem of Consciousness.” Journal of Consciousness Studies 2, no. 3 (1995): 200–219
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
DENNETT, Daniel C. Consciousness Explained. Boston: Little, Brown and Company, 1991.

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Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2026)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2026)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Hofstadter, Strange Loops, Hermenêutica e IA. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/01/22/hofstadter-strange-loops-hermeneutica-e-ia/. Acesso em: 28 jan. 2026.

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