Lugares-comuns: gestão do conhecimento e da argumentação

Já caiu na besteira de confiar em sua memória para tudo? Para suas compras, para as ideias de sua dissertação, postagens das redes sociais ou compra de presentes? Pois é, lembra-se daquela vez que esqueceu algo crucial? Não?! Não se preocupe. Isso tem remédio. Chama-se commonplacing a prática sistemática de coletar, organizar e conservar excertos provenientes da leitura, da conversação ou da reflexão pessoal, com vistas ao seu uso futuro na escrita, na argumentação e na formação intelectual.

Lugares-comuns: gestão do conhecimento e da argumentação

Fuga de oblívion

No final do século XIX, o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus mapeou o decaimento da memória ao longo do tempo, o que hoje conhecemos como a “Curva do Esquecimento”. Através de experimentos, ele demonstrou que o esquecimento não é linear, mas exponencial: a perda de informação é mais drástica logo após o aprendizado, podendo chegar a 50% em apenas uma hora ou um dia.

O commonplacing funciona como um antídoto direto a esse fenômeno. Ao exigir a seleção e a transcrição física ou digital de um trecho, ele força o que a ciência cognitiva chama de codificação elaborativa. Em vez da leitura passiva, que sucumbe rapidamente à curva de Ebbinghaus, o ato de anotar cria um registro de longo prazo e exige um engajamento maior. Isso transformando a informação volátil em memória de longo prazo.

Trata-se menos de um simples hábito de anotação do que de uma verdadeira tecnologia cognitiva, estruturada por quatro princípios fundamentais:

  1. Extração: seleção de trechos considerados “dignos” de preservação — sentenças, aforismos, fatos, exemplos, definições.

  2. Classificação: ordenação desses trechos sob rubricas temáticas, os chamados loci communes (lugares-comuns).

  3. Recuperação: criação de mecanismos de indexação que permitam o reencontro eficiente do material.

  4. Geração: uso do acervo acumulado como fonte para novas composições intelectuais ou criativas.

Desde suas origens, o lugar-comum serve como um depósito ativo. Este instrumento de mediação entre vincula a memória, a leitura e a criatividade.

Antecedentes clássicos e medievais

A base conceitual do commonplacing encontra-se na doutrina retórica dos topoi em Aristóteles e Cícero. Nessa fase, os loci communes não são ainda livros ou cadernos físicos, mas “lugares” mentais de onde os argumentos podem ser extraídos. A tópica é um método de invenção, não um arquivo material.

Na Antiguidade tardia e na Idade Média, essa concepção começa a se materializar em suportes escritos. Os hypomnēmata gregos e os commentarii latinos — utilizados por autores como Sêneca e Plínio, o Velho — funcionam como cadernos de memória pessoal, reunindo observações, citações e resumos. Já os florilégios medievais (“colheitas de flores”) organizam excertos de autores patrísticos e clássicos, sobretudo para fins teológicos e homiléticos, como no célebre Manipulus florum. Paralelamente, os cadernos escolásticos (reportationes) revelam práticas de classificação embrionárias, ligadas à disputa dialética.

Nesse período, o lugar-comum conserva ainda um vínculo com a autoridade textual e com a tradição das autoridades.

O Renascimento e o sistema impresso do livro de lugares-comuns (c. 1500–1650)

O Renascimento marca uma inflexão decisiva. Conforme a tese de Ann Moss, ocorre a passagem de um método dinâmico de invenção retórica para uma tecnologia relativamente estática de gestão do conhecimento. O texto exemplar é o De copia (1512), de Erasmo, que transforma o commonplacing em eixo da pedagogia humanista. A abundância retórica (copia) passa a depender da constituição de um “arsenal” de exemplos e sentenças. Um exemplo recente de estudos de variações é de Queneau: Exercícios em Estilo.

Nesta era, a prática já antecipava o princípio de “poupança” de Ebbinghaus. O psicólogo descobriu que, mesmo quando sentimos que esquecemos algo, a informação deixa um “traço” que torna o reaprendizado muito mais rápido do que o aprendizado original. O livro de lugares-comuns renascentista servia como esse banco de poupança: o estudioso poderia não recordar a frase exata de um autor clássico, mas o caderno permitia “reaprender” e recuperar o conceito em segundos, eliminando o fracasso do esquecimento.

Com Filipe Melanchthon, o método é institucionalizado no currículo protestante, associado à formação moral e à filosofia prática. Surgem então livros de lugares-comuns impressos, frequentemente com rubricas pré-estabelecidas (virtudes e vícios, natureza, costumes humanos). O esforço intelectual desloca-se: menos invenção da estrutura, mais preenchimento de um quadro dado.

Essa transformação tem efeitos profundos. O conhecimento fragmenta-se em unidades portáteis, destacáveis de seus contextos originais; a dimensão moral é privilegiada; e a conservação da autoridade textual tende a sobrepor-se à invenção dialética. O lugar-comum aproxima-se, assim, mais de um repositório do que de um instrumento de problematização.

Variações e tradições paralelas

Nem todas as culturas e contextos seguem esse modelo humanista estrito. Na Itália, o zibaldone — caderno miscelâneo de origem mercantil — apresenta estrutura frouxa, reunindo contas, receitas, esboços, cartas e reflexões pessoais. É mais autobiográfico, prático e heterogêneo.

Na China, a tradição do biji (筆記) ou bishu (筆書), com raízes nos períodos Wei e Jin, reúne anotações eruditas, observações ocasionais, anedotas e ensaios breves. Diferentemente do Ocidente, a classificação rígida cedeu lugar à serendipidade e à curiosidade enciclopédica, como exemplificado nos Ensaios do Lago dos Sonhos de Shen Kuo.

Na Inglaterra do século XVII, surgem formas híbridas. The Anatomy of Melancholy, de Robert Burton, pode ser lida como um imenso livro de lugares-comuns transformado em obra contínua. John Locke, por sua vez, propõe em A New Method of a Commonplace Book (1685) um sistema altamente racionalizado de indexação alfabética.

Iluminismo e virada científica (c. 1650–1800)

O Iluminismo trouxe uma crítica crescente ao modelo humanista do lugar-comum. Os pensadores iluministas os acusavam de fomentar compilação estéril e erudição pedante. A ênfase desloca-se das sentenças morais para os fatos empíricos. O caderno científico passa a registrar observações, experimentos e dados.

Nesse contexto, emerge o sistema de fichas soltas, desenvolvido por naturalistas como Lineu e explorado por Leibniz. A classificação tornou-se potencialmente infinita e reconfigurável, em reflexo (e em resposta das necessidades) das novas epistemologias. Paralelamente, periódicos como o Journal des sçavans transferem para o espaço público a função de síntese e circulação do saber, antes desempenhada pelo caderno privado.

Séculos XIX e XX: do auxílio privado à forma pública

No século XIX, o lugar-comum reaparece sob a forma do arquivo burocrático e do fichário, associado à expansão administrativa e científica. O sistema de classificação bibliográfica, como o de Dewey, é herdeiro direto dessa lógica.

No século XX, o Zettelkasten do sociólogo Niklas Luhmann representou uma culminação conceitual: um sistema de fichas interligadas que funciona como “segunda memória” e parceiro intelectual na produção teórica. Ao mesmo tempo, escritores como W. H. Auden, Joan Didion e Vladimir Nabokov mantinham cadernos de anotações como instrumentos literários. O livro de lugares-comuns transforma-se, inclusive, em gênero publicado.

O sistema de Luhmann e a prática dos lugares-comuns incorporam o que hoje chamamos de repetição espaçada (lembre-se de fazer o Duolingo hoje). Ebbinghaus notou que a retenção melhora drasticamente quando a revisão é feita em intervalos crescentes. Ao folhear um caderno de lugares-comuns ou navegar por um fichário para encontrar uma conexão, o praticante reencontra ideias antigas em intervalos imprevisíveis, reforçando os traços de memória e combatendo a curva do esquecimento de forma contínua através do processamento profundo e associativo.

No caso das loci communes publicados, a curadoria de citações e reflexões de um autor é apresentada como uma obra autônoma. Diferente de uma enciclopédia, livros como A Certain World, de W. H. Auden, funcionam como um autorretrato intelectual, revelando a personalidade do escritor através dos fragmentos que ele escolheu preservar. Paralelamente, o scrapbook e o junkjournaling surgem como um análogo popular e visual dessa prática: enquanto o livro de lugares-comuns organiza o pensamento e a retórica, o scrapbook organiza a memória e o afeto, utilizando recortes, imagens e memorabília para construir uma narrativa sentimental e fragmentada da experiência pessoal.

A era digital: renascimento e metamorfose 

No ambiente digital, as funções clássicas do commonplacing são ampliadas. Softwares de anotação replicam a extração, a classificação por etiquetas, a ligação hipertextual e a recuperação instantânea. Entre eles, estão Evernote, Notion, Obsidian e Roam Research. Eu mesmo utilizo amplamente o OneNote, além de cadernos e folhas avulsas de rascunhos. O lugar-comum torna-se não linear, multimodal e permanentemente reconfigurável.

Hoje, softwares de “Second Brain” automatizam o que Ebbinghaus descobriu ser essencial. Através de sistemas de repetição espaçada (SRS) e conexões hipertextuais, o commonplacing digital transforma o ato de esquecer em uma parte gerenciável do processo de aprendizado. Sem esse esforço intencional de reforço, as ideias profundas que lemos hoje desapareceriam em semanas; com ele, elas se tornam blocos de construção para o pensamento criativo.

Blogs, redes de curadoria de links e o conceito de “jardim digital” funcionam como livros de lugares-comuns públicos, nos quais o processo importa tanto quanto o produto. O antigo locus transforma-se em um nódulo de uma rede.

A refletir

A história dos lugares-comuns revela uma tensão persistente entre ordem e acaso, entre classificação sistemática e acumulação orgânica. Mais do que uma curiosidade erudita, o commonplacing reflete concepções mutáveis de conhecimento: da autoridade fragmentada ao dado empírico, da hierarquia fixa à rede relacional.

Em sua essência, permanece uma prótese cognitiva — uma memória exteriorizada destinada a ampliar a capacidade humana de armazenar, conectar e recombinar ideias. Seus suportes mudam; sua função intelectual persiste.

SAIBA MAIS

 BLAIR, Ann M. Too Much to Know: Managing Scholarly Information before the Modern Age. New Haven: Yale University Press, 2010.

DACOME, Lucia. “Noting the mind: Commonplace books and the pursuit of the self in eighteenth-century Britain.” Journal of the History of Ideas 65.4 (2004): 603-625.

EBBINGHAUS, Hermann. Memory: A Contribution to Experimental Psychology (Über das Gedächtnis). 1885.

GRAFTON, Anthony; LISA JARDINE. “Studied for Action: How Gabriel Harvey Read His Livy.” Past & Present, no. 129 (Nov., 1990): 30–78.

MOSS, Ann. Printed Commonplace-Books and the Structuring of Renaissance Thought. Oxford: Clarendon Press, 1996.

 

 

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