Os uro, povo lacustre do altiplano andino, historicamente associado às ilhas flutuantes de totora do lago Titicaca e às margens do rio Desaguadero e do lago Poopó, constituem uma ilha cultural. Originariamente falantes de uma família linguística isolada, hoje substituída pelo espanhol e pelo aymará, os uro ocuparam por séculos uma posição marginal. Também chamados de qhaxwa, eram suficientemente distintos para serem considerados os outros na vida econômica, política e simbólica em relação às sociedades aymará e, posteriormente, aos estados colonial e republicano.
O que distingue os uro, além do espaço lacustre que habitaram, é sua persistência de uma identidade coletiva que sobreviveu à quase completa extinção de sua língua original. O uru (ou uchumataqu), hoje desaparecido como língua de uso cotidiano, deixou de ser o principal marcador identitário no século XX. Ainda assim, o grupo continua a se reconhecer como um povo distinto, definido por uma memória histórica e por uma adaptação imemorial ao meio lacustre.

Relatos coloniais e a construção da antiguidade (séculos XVI–XVIII)
As primeiras referências escritas aos uro surgem em cronistas espanhóis como Pedro Cieza de León e Bernabé Cobo. Nesses relatos, os uro são frequentemente descritos sob um viés pejorativo: um povo pobre, marginal e de costumes primitivos. A descrição enfatizava o exotismo da vida aquática e estabelecia uma hierarquia em que os uro ocupavam o degrau mais baixo em relação aos aymará e aos incas.
Estudos de Thérèse Bouysse-Cassagne demonstram que, no período colonial, a categoria uro era tanto étnica quanto fiscal: indivíduos que não possuíam terras ou gado eram frequentemente classificados como tais para fins de tributação distinta. Paralelamente, consolidou-se a afirmação de que seriam os habitantes mais antigos da região. Essa ideia de primordialidade, inicialmente uma observação externa e por vezes depreciativa, foi apropriada pelas narrativas orais do grupo, tornando-se o pilar de sua autoimagem: os donos do lago.
Linguística e especulações difusionistas (fins do século XIX–início do XX)
Com a ascensão da linguística comparada, os uro tornaram-se um enigma científico. Embora pesquisadores como Max Uhle tenham realizado coletas precoces, a sistematização dos dados na década de 1890 revelou que o idioma uru era radicalmente distinto das línguas majoritárias (quechua e aymará).
Essa singularidade alimentou hipóteses difusionistas hoje refutadas. Entre 1900 e 1920, ganhou força a hipótese mesoamericana, defendida por Paul Rivet, que buscava parentesco entre o uru e línguas como o maia ou o purépecha. As teorias baseavam-se em léxicos limitados e analogias estruturais frágeis. A organização social dual (divisão em metades complementares), comum nos Andes e analisada por Sabine Dedenbach-Salazar Sáenz como parte da estrutura administrativa regional, também foi erroneamente usada para tentar provar conexões com o México pré-hispânico.
Etnografia intensiva e ancoragem andina (1930–1960)
A partir da década de 1930, o foco deslocou-se para a etnografia de campo com Harry Tschopik e Alfred Métraux. A identificação do chipaya como uma língua irmã do uru provou que o grupo era parte da família uru-chipaya. Pesquisas contemporâneas de Rodolfo Cerrón-Palomino sugerem que o uruquilla (a língua ancestral uro) pode ter sido o idioma da civilização de Tiwanaku, o que reposiciona os uro de uma tribo marginal para possíveis herdeiros de um prestigiado passado imperial. Nesse período, os pesquisadores enfatizaram a ecologia uro — a simbiose com a planta totora — e sua complexa integração subordinada na economia regional dominada pelos aymará.
Morte linguística e registro (1970–1990)
Nas décadas finais do século XX, a morte do idioma tornou-se iminente. Linguistas como Nathan Wachtel e, posteriormente, Katja Hannß, documentaram os últimos falantes fluentes, produzindo registros essenciais antes do desaparecimento da fala cotidiana. O interesse acadêmico focou-se na antropologia da perda e na documentação urgente. Tentativas de ligar a família uru-chipaya ao tronco arawak foram propostas por Terrence Kaufman na década de 1990, mas permanecem como hipóteses sem consenso linguístico definitivo.
Século XXI: genética e patrimonialização
Após a morte dos últimos falantes nativos do Titicaca no início deste século, a língua migrou para os arquivos e para os projetos de revitalização escolar, apoiados por intelectuais como Xavier Albó, que destacou a agência política moderna dos povos altiplânicos. Estudos genéticos confirmaram que os uro possuem linhagens distintas e muito antigas, confirmando uma presença que precede os impérios inca e aymará, sem ligações com a Mesoamérica.
Hoje, os uro das ilhas flutuantes vivem um processo de patrimonialização. A identidade e a antiguidade tornaram-se recursos simbólicos e econômicos fundamentais para o turismo. A performance cultural nas ilhas de totora permite que o grupo mantenha sua distinção política e social, transformando a herança ancestral em uma ferramenta de resistência e sobrevivência.
SAIBA MAIS
Bouysse-Cassagne, Thérèse. La identidad aymara: Aproximación histórica (siglo XV, siglo XVI). HISBOL, 1987.
Cerrón-Palomino, Rodolfo. El cantar de Inca Yupanqui y la lengua de Tiwanaku. Editorial Universitaria de la Universidad Ricardo Palma, 2013.
Dedenbach-Salazar Sáenz, Sabine. The Ethno-Linguistic Heritage of the Uru-Chipaya of Bolivia. Universidad de Bonn, 2007.
Hannß, Katja. Uchumataqu: The Lost Language of the Urus of Bolivia. CNWS Publications, 2008.
Kaufman, Terrence. “The History of the Native Languages of South America.” The Atlas of the World’s Languages, editado por Christopher Moseley e R.E. Asher, Routledge, 1994, pp. 46-76.
Métraux, Alfred. “Contribution à l’ethnographie et à la linguistique des Indiens Uru d’Ancoaqui (Bolivie).” Journal de la Société des Américanistes, vol. 28, no. 1, 1936, pp. 75-110.
Rivet, Paul. “Los Urus, el único pueblo mesoamericano en Sudamérica.” Revista del Museo Nacional de Lima, vol. 18, 1949, pp. 3-48.
Wachtel, Nathan. Le Retour des ancêtres: les Indiens Urus de Bolivie, XXe-XVIe siècle. Fayard, 1990.

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