Teorias orientadas ao leitor

E se o significado de uma obra literária não residisse apenas nas palavras impressas, mas emergisse na experiência dinâmica de quem a lê? Esta perspetiva transformadora impulsionou as Teorias da Recepção e da Resposta do Leitor, que revolucionaram os estudos literários ao colocarem o destinatário no centro da produção de sentido.

Ao longo do século XX, os estudos literários testemunharam uma viragem significativa, deslocando o foco exclusivo no autor ou no texto isolado para a figura dinâmica do leitor e o processo de leitura. Este movimento amplo, conhecido como Teorias Orientadas ao Leitor, desenvolveu-se principalmente em duas fases interligadas mas distintas: a Teoria da Recepção e a Teoria da Resposta do Leitor. Figuras como Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser foram pioneiras na primeira fase, enquanto Stanley Fish, juntamente com Iser, marcou a segunda. Ambas as abordagens revolucionaram a forma como se compreende a produção de significado na literatura.

A Teoria da Recepção, emergente na Alemanha Ocidental no final dos anos 1960, notadamente na Universidade de Constança com figuras como Hans Robert Jauss, Wolfgang Iser e Karl-Heinz Stierle, buscou reformar os estudos literários. Com forte base na fenomenologia e apresentada em obras como O Ato da Leitura (1978) de Iser e Para uma Estética da Recepção (1982) de Jauss, esta teoria concebe os textos como estruturas parcialmente abertas. Contêm indeterminações textuais – lacunas, ambiguidades – que o leitor preenche ativamente através de um processo de atualização, concretizando o potencial de significado da obra.

Uma contribuição central de Jauss foi o conceito de horizonte de expectativas. Este refere-se ao conjunto de pressupostos culturais, estéticos e interpretativos que os leitores de uma determinada época histórica trazem para a leitura de um texto. Jauss defendeu a reconstrução deste horizonte de expectativas para compreender como as obras foram recebidas pelos seus contemporâneos – se desafiaram ou confirmaram as normas vigentes – e como a sua recepção evoluiu ao longo do tempo. Esta perspetiva enriqueceu a história literária, destacando a relação dinâmica entre obras e públicos e influenciou a metodologia crítica, valorizando a participação ativa do leitor e o contexto histórico-cultural da recepção.

Desenvolvendo-se a partir da Teoria da Recepção, a Teoria da Resposta do Leitor intensificou a ênfase na experiência individual do leitor e no impacto que o texto exerce sobre ele. Associada proeminentemente a Stanley Fish e à sua obra Há um Texto nesta Aula? (1980), mas também ao trabalho de Iser, esta corrente argumenta que o significado é construído primariamente na interação leitor-texto. A subjetividade do leitor – seu histórico pessoal, emoções, expectativas e estratégias interpretativas – torna-se central. Como consequência, o texto abre-se a uma multiplicidade de interpretações válidas, dependendo das diferentes “comunidades interpretativas” (no caso de Fish) ou das diferentes concretizações individuais (no caso de Iser).

As implicações destas teorias estendem-se à prática. No ensino, incentivam uma abordagem pedagógica que valoriza o engajamento ativo dos estudantes com os textos, promovendo a compreensão crítica através da exploração das suas próprias respostas e interpretações. Na análise literária contemporânea, estimulam a consideração do leitor implícito ou real como fator determinante do sentido. Atualmente, académicos exploram como os novos ambientes de leitura digital e as formas de mídia interativa alteram a dinâmica leitor-texto, abrindo novos campos de investigação.

Comparativamente, as teorias orientadas ao leitor partilham com a Crítica Biográfica a ideia de que a origem do significado pode residir fora do texto estrito, mas contrastam fortemente com a Narratologia clássica, mais focada nas estruturas internas do texto. Apesar da sua influência, estas abordagens enfrentaram críticas, nomeadamente a de poderem negligenciar a importância da evidência textual ou da intenção autoral. Contudo, muitos proponentes contemporâneos defendem um equilíbrio, reconhecendo o papel crucial do leitor na construção do significado sem descartar a relevância do contexto autoral e das próprias estruturas textuais.

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