As editoras universitárias e o livro acadêmico

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As editoras universitárias surgiram para publicar manuscritos guardados em suas bibliotecas, disseminar a produção intelectual de suas instituições e produzir livros-textos para seus alunos. A primeira e mais antiga em contínua operação é a Cambridge University Press (CUP), autorizada por Henrique VIII em 1534. Outra publicadora universitária inglesa, a Oxford University Press (OUP) começou a operar por volta de 1480, mas só no século XVII ganhou o estatuto de editora. Hoje a OUP possui receita maior que a CUP e todas as editoras universitárias norte-americanas juntas.

Nos Estados Unidos Daniel Coit Gilman, o primeiro reitor da Universidade John Hopkins, percebeu que além de ensino e pesquisa, a universidade deveria ter um canal institucional para comunicar sua produção acadêmica. Consequentemente, fundou a John Hopkins University Press em 1878. Na mesma linha de pensamento, William Rainey Harper, reitor da Universidade de Chicago criou sua editora universitária como uma das três divisões básicas da instituição em 1891. Inspiradas na University of Chicago Press, outras instituições fundaram suas próprias casas publicadoras. Nos Estados Unidos hoje a maioria das editoras com nomes vinculados às universidades operam em total autonomia, praticamente sob licenciamento dessas instituições.

No Brasil, já no século XIX a Imprensa Régia e outras tipografias produziam livros acadêmicos no Rio, São Paulo, Bahia e Pernambuco. Mas somente no final do século XX se firmariam as editoras universitárias no país. Sobre a origem e o desenvolvimento das editoras universitárias no Brasil, escreveu Amália Rocha:

No Brasil, o presidente João Batista Figueiredo, eleito em 1979, último governante militar, iniciava a abertura política, que culminou, em 1985, com a eleição de um presidente civil, Tancredo Neves, falecido antes da posse e substituído por seu vice, José Sarney. Era também o tempo da anistia aos políticos cassados. Muitas mudanças políticas e sociais permeavam o país.

Foi nesse contexto de uma nascente liberdade política, social e de expressão que muitas universidades brasileiras começaram a despertar para a necessidade de implantarem suas próprias editoras, a fim de divulgar em livros e periódicos a sua produção científica e intelectual. Antes desse período, as poucas iniciativas nesse sentido tinham surgido a partir da década de 1960, como a editora da Universidade de Brasília (1961) e a da USP (1962), que acabaram sendo posteriormente subordinadas ao poder ditatorial que vigorou no Brasil depois de 1964, tanto que de 1964 a 1970 não foi criada nenhuma editora universitária no país, “acompanhando o retraimento da inteligência brasileira”. A editora da Universidade Federal de Pernambuco é considerada a mais antiga do Brasil, muito embora o início de suas atividades em 1955 tenha sido como Imprensa Universitária da Universidade Federal do Recife, passando a ser editora em 1968.

O aumento da quantidade dessas instituições se deu na década de 1980, ao fim da qual o Brasil tinha 37 novas editoras universitárias. A principal explicação para esse interesse das universidades na atividade editorial é que houve incentivo financeiro do governo através do então Ministério de Educação e Cultura/MEC, com a criação do Programa de Estímulo à Editoração do Trabalho Intelectual nas Instituições de Ensino Superior/Proed, em 1981. Esse programa, vinculado à Secretaria de Ensino Superior/SeSu/MEC, durou até 1988. (ROCHA 2015, p.19)

Diferentemente do processo editorial de obras comerciais ou de ficção, as editoras universitárias submetem a uma avaliação específica para livros científicos, técnicos e acadêmicos. Essas obras passam por, no mínimo, uma dupla avaliação por pares. O manuscrito, com as identificações dos autores excluídas, são meticulosamente examinados e criticados por especialistas da área. Depois, a decisão por publicar ou não é feita por um conselho editorial interdisciplinar.

Em geral, as editoras universitárias existem para publicar obras de interesses acadêmicos que não teriam mercado ou apelo aos publicadores comerciais. Por exemplo, o livro Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Isaac Newton teria tudo para ser um fracasso: obscuro, mal escrito, longo; mas é um clássico e crucial para as ciências e engenharias modernas. Mas, qualquer livro didático inicial de física sumariza e expressa melhor que Newton suas ideias. Entretanto, alguém teve que assumir o ônus de publicar essa obra.

Nem por isso, as editoras universitárias devem ser insolventes. Várias editoras universitárias cresceram com sucesso. Apesar de várias limitações, no Brasil se destacam as editoras edUnesp, Editora da UFMG, Editora da UnB, Edusp e Edufu. Sendo boa parte das editoras universitárias brasileiras vinculadas às instituições públicas, são umas das raras entidades que conseguem gerar receitas para cumprir sua missão dentro das instituições de ensino. Assim mesmo, a publicação acadêmica provou ser um ramo lucrativo, pois boa parte dos grandes grupos editorais não universitários são voltados a esse ramo, como a Reed-Elsevier, Springer, Wiley-Blackwell, Taylor & Francis, Sage e Grupo GEN.

SAIBA MAIS

ABEU – Associação Brasileiras das Editoras Universitárias. A principal entidade que congregam as editoras acadêmicas no país.

BUFREM, Leilah Santiago. Editoras Universitárias no Brasil: uma crítica para reformulação da prática. 2 ed revista e ampliada. São Paulo: Edusp; Curitiba: Com Arte, 2015.

ROCHA, Maria Amália. A contribuição à educação para além da publicação de textos: perspectiva histórica do trabalho da editora da Universidade Federal de Uberlândia. 2014. 197 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Humanas) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2014.

MARTINS FILHO, Plinio; ROLLEMBERG, Marcelo. Edusp: um projeto editorial. São Paulo: Imprensa Oficial, 2001.

AAUP. The value of the university pressAAUP. The value of the university presses

 

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