História da educação na Antiguidade: Jaeger e Marrou

A história da educação na Antiguidade encontra seus pilares em duas obras monumentais do século XX: Paideia, de Werner Jaeger, e Histoire de l’éducation dans l’Antiquité, de Henri-Irénée Marrou. Embora compartilhem o objeto de estudo, as obras divergem profundamente em método, escopo e intenção filosófica. Jaeger, expoente da filologia alemã, enxerga a educação como a expressão de um ideal espiritual; Marrou, herdeiro da historiografia francesa, analisa-a como uma instituição social concreta.


Werner Jaeger (1888–1961) formou-se sob a influência de Wilamowitz-Moellendorff em uma Alemanha imersa no filelenismo. Seu projeto, o “Terceiro Humanismo”, visava revitalizar a cultura alemã através do contato com os clássicos, vistos como vozes vivas e modelos de virtude cívica. Para Jaeger, os gregos descobriram que o homem requer um cultivo sistemático em direção a um ideal. Em sua trilogia, publicada entre 1933 e 1947, ele traça a evolução da arete — a excelência humana — desde a aristocracia homérica até a síntese filosófica de Platão, que considera o cume da cultura grega. Inicialmente sua posição política ambígua em relação ao nazismo fazia que seu volume inicial de 1934 coubesse na ideologia hierárquica prussiana daquela década. Os volumes subsequentes (1939–1947) foram escritos nos Estados Unidos, após sua emigração em 1936 devido à perseguição nazista.
Henri-Irénée Marrou (1904–1977), por outro lado, fundamentou sua pesquisa na transição entre o mundo clássico e o cristianismo, culminando em seu estudo sobre Santo Agostinho. Marrou produziu sua síntese no pós-guerra francês, influenciado pela escola dos Annales e pela etnologia francesa (Mauss), em diálogo com o humanismo católico de sua formação. Sua obra, publicada em 1948, busca a “história total”, integrando a realidade material das escolas — professores, métodos e currículos — à história das ideias. O livro de Marrou foi escrito no contexto imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, quando os intelectuais franceses repensavam a educação e a civilização em resposta ao fascismo e ao colonialismo. Isso explica sua ênfase na paideia como algo que transcende as diferenças de “sangue” — algo extremamente relevante, considerando as recentes experiências francesas com a ideologia racial.
A disparidade cronológica entre os autores revela suas prioridades. Jaeger limita-se aos cinco séculos que vão de Homero a Aristóteles, período que define como o único verdadeiramente criativo da paideia. O que sucede à era clássica é, para ele, mera transmissão ou declínio. Marrou estende seu olhar por treze séculos, alcançando o século V d.C.. Ele dedica atenção substancial ao período helenístico, à educação romana e à transformação cristã, temas praticamente ignorados por Jaeger.
No tratamento de temas comuns, como a figura de Homero, as divergências persistem. Jaeger lê a Ilíada e a Odisseia como espelhos da alma grega, textos fundantes que articulam o ideal de nobreza. Marrou encara Homero como o conteúdo prático da sala de aula, o manual escolar que os alunos efetivamente memorizavam. Da mesma forma, ambos reconhecem a vitória da retórica de Isócrates sobre a filosofia de Platão na formação do currículo helenístico e romano. Jaeger lamenta esse desfecho como a derrota do ideal superior pelo prático; Marrou aceita-o como um fato histórico que permitiu a produtividade cultural do Mediterrâneo.
A metodologia de Jaeger é a da filologia clássica pura, centrada na análise textual e na síntese cultural. Fontes arqueológicas ou papirológicas são raras em seu texto. Marrou adota um pluralismo moderno, utilizando inscrições, papiros egípcios e evidências arqueológicas para reconstruir o cotidiano escolar. Enquanto Jaeger busca a validade permanente do ideal grego contra o filisteísmo técnico, Marrou é mais cauteloso, oferecendo lições históricas que não pretendem ser modelos universais de imitação.
Apesar de ignorarem, em grande medida, a educação de mulheres e escravos — focando-se na elite masculina livre —, as obras permanecem fundamentais. Jaeger sobrevive no pensamento humanista contemporâneo e na reflexão sobre a formação do caráter. Marrou permanece como o padrão acadêmico para o estudo das instituições educativas antigas. Em última análise, são perspectivas complementares: quem busca a profundidade do ideal deve ler Jaeger; quem deseja conhecer a realidade da escola antiga deve recorrer a Marrou.

Reavaliação recente

As reavaliações de Teresa Morgan e Raffaella Cribiore trouxeram nuances que os modelos de Marrou e Jaeger não puderam prever inteiramente. Enquanto Henri-Irénée Marrou baseou sua análise na ideia de um sistema escolar relativamente estruturado e descendente da tradição isocrática, a arqueologia e a papirologia recente revelaram uma realidade mais fragmentada e diversa.
A análise de Teresa Morgan sobre a alfabetização no mundo helenístico e romano sugere que o aprendizado da leitura e da escrita não ocorria apenas em instituições formais, mas através de redes informais de circulação de textos. Marrou via o grammatistes como o primeiro degrau de uma escada educacional que levava à alta cultura. Morgan e Cribiore demonstram que, para muitos, a alfabetização era funcional e limitada, sem a intenção de progredir para a retórica ou a filosofia. Os manuais escolares encontrados em papiros do Egito indicam uma pedagogia de repetição que servia a propósitos administrativos e cotidianos, desafiando a visão de uma educação puramente humanista.
A divergência metodológica entre as novas abordagens da educação antiga reside no foco de sua análise documental: enquanto Morgan enfatiza a alfabetização funcional e a competição social como motores do aprendizado , Cribiore privilegia a cultura material e os constrangimentos práticos do ensino para reconstruir o cotidiano das salas de aula
Onde Marrou e Jaeger focaram na formação do cidadão e do governante, a nova historiografia utiliza os restos materiais para encontrar aqueles que estavam nas margens. Os estudos sobre a educação de escravos e as evidências de educação feminina em contextos domésticos mostram que a transmissão da cultura era mais porosa do que o modelo da enkyklios paideia sugeria. Essas revisões não anulam o valor das obras clássicas, mas as situam como descrições de um ideal de elite, enquanto a realidade histórica era composta por múltiplos níveis de competência literária.
Barbara Goff, em seus estudos sobre a presença feminina no mundo clássico, investiga como as mulheres, embora excluídas das instituições formais como a efebia ou a Academia, participavam de redes de transmissão cultural domésticas e religiosas. No volume organizado por W. Martin Bloomer, A Companion to Ancient Education (2015), diversos ensaios exploram a educação de escravos e a formação técnica, áreas que Jaeger desconsiderou por não se encaixarem em sua definição estética de paideia. Amy Richlin, por sua vez, ao analisar o gênero na retórica romana, demonstra como o domínio da palavra pública era uma ferramenta de construção da masculinidade aristocrática, o que automaticamente marginalizava outras identidades sociais.
A educação na Antiguidade dependia estruturalmente do trabalho servil, não apenas para liberar o cidadão para o lazer intelectual (schole), mas também na figura do paedagogus, o escravo que acompanhava a criança e supervisionava sua conduta moral. Omissões sobre como o sistema educacional reproduzia hierarquias sociais são hoje abordadas por historiadores que utilizam a cultura material para evidenciar o papel dos escravos na administração e na cópia de textos (cf. Moss 2024). Essas novas abordagens, consagradas a partir de Yun Lee Too (2001) não invalidam a erudição de Paideia ou da Histoire, mas as situam como estudos de uma ideologia de classe, e não como histórias universais do desenvolvimento humano.
Essas obras contemporâneas transformam o campo da história da educação ao questionar a quem o ideal de “humanidade” de Jaeger realmente se referia. A integração de gênero e status social permite uma compreensão mais densa da educação antiga, vista agora como um mecanismo de controle social tanto quanto um processo de iluminação intelectual.

SAIBA MAIS

BLOOMER, W. Martin (ed.). A companion to ancient education. Oxford: Wiley-Blackwell, 2015.

BRADLEY, Keith. Discovering the Roman family: studies in Roman social history. New York: Oxford University Press, 1991.

CALDER III, William M. (ed.). Werner Jaeger reconsidered. Atlanta: Scholars Press, 1992.

CRIBIORE, Raffaella. Gymnastics of the mind: Greek education in Hellenistic and Roman Egypt. Princeton: Princeton University Press, 2001.

JAEGER, Werner. Early Christianity and Greek Paideia. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1961.

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

MARROU, Henri-Irénée. História da educação na Antiguidade. Tradução de Mário Mesquita. São Paulo: EPU/EDUSP, 1971.

MARROU, Henri-Irénée. Saint Augustin et la fin de la culture antique. Paris: de Boccard, 1938.

MORGAN, Teresa. Literate education in the Hellenistic and Roman worlds. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.

MOSS, Candida. God’s ghostwriters: enslaved Christians and the making of the Bible. New York: Little, Brown and Company, 2024.

MOURITSEN, Henrik. The freedman in the Roman world. Cambridge: Cambridge University Press, 2011

MOURITSEN, Henrik. The freedman in the Roman world. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.

TOO, Yun Lee (ed.). Education in Greek and Roman antiquity. Leiden: Brill, 2001.

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