Algirdas Julien Greimas ocupa posição central na consolidação da semiótica estrutural no século XX. Nascido em 1917, formou-se no ambiente intelectual do estruturalismo francês e desenvolveu uma teoria da significação que desloca o foco da análise de signos isolados para os processos que produzem sentido. Influenciado por Ferdinand de Saussure, Louis Hjelmslev e Claude Lévi-Strauss, Greimas adota a ideia de estrutura como sistema de diferenças. Ele aplica métodos da linguística estrutural à análise de textos e rejeita a definição da semiótica como teoria dos signos. Em seu lugar, propõe uma teoria da significação orientada por uma análise gerativa do discurso. Essa abordagem se tornou influente na teoria narrativa e na hermenêutica, especialmente por meio do conceito de isotopia, que designa a recorrência de traços semânticos ao longo de um texto.
O instrumento central dessa teoria é o quadrado semiótico. Desenvolvido em Sémantique structurale de 1966, o modelo formaliza as relações lógicas que estruturam qualquer categoria semântica. Inspirado no quadrado lógico aristotélico, ele organiza quatro termos em um sistema de oposições e implicações. Parte-se de dois termos contrários, designados como E1 e E2. A cada um corresponde sua negação, não-E1 e não-E2. O resultado é uma rede de relações que inclui contradição, contrariedade e complementaridade. O modelo não descreve conteúdos empíricos. Ele explicita as condições formais que tornam possível a produção de sentido.

A lógica do quadrado permite gerar o que Greimas chama de universo semântico. A partir de uma oposição inicial, obtém-se um conjunto de posições que inclui termos simples, complexos e neutros. Um exemplo recorrente utiliza os termos vida e morte. A oposição direta entre ambos se desdobra em negações e combinações que tornam possível pensar estados intermediários ou ambíguos. Figuras como o vampiro ilustram essa operação. Ele ocupa uma posição complexa ao combinar traços de vida e morte. O modelo, assim, não apenas distingue termos, mas permite mapear transformações e ambiguidades.
O quadrado semiótico situa-se no nível fundamental do percurso gerativo de sentido. Esse percurso descreve a passagem das estruturas abstratas às formas concretas do discurso. No nível fundamental, operam as categorias elementares articuladas pelo quadrado. No nível narrativo, essas categorias são atualizadas por meio de programas de ação e relações entre actantes. No nível discursivo, elas se manifestam como temas, figuras e formas textuais. Greimas desenvolveu esse modelo em colaboração com Joseph Courtés, sobretudo no dicionário de semiótica publicado em 1979.
No plano narrativo, o esquema actancial organiza a ação em seis funções. Um sujeito busca um objeto de valor. Um destinador legitima essa busca e um destinatário recebe seus efeitos. Um adjuvante auxilia o sujeito, enquanto um oponente introduz obstáculos. Essas posições não correspondem a personagens fixos. Elas definem funções estruturais que podem ser ocupadas por diferentes entidades ao longo da narrativa. O modelo permite descrever a lógica interna de histórias, mitos e discursos.
A Escola Semiótica de Paris, formada em torno de Greimas nas décadas de 1970 e 1980, expandiu esse programa. Pesquisadores como Jacques Fontanille, Claude Zilberberg e Eric Landowski desenvolveram aspectos como a sintaxe narrativa, a tensividade e a sociossemiótica. O quadrado semiótico tornou-se ferramenta recorrente na análise de textos literários, publicidade e mídia. Sua aplicação se estendeu à cultura, ao direito, à religião e às artes visuais.
A teoria greimasiana também dialoga com a lógica modal. Inspirado na tradição aristotélica, Greimas analisa categorias como querer, dever, poder e saber. Essas modalidades definem a competência do sujeito narrativo. A articulação entre elas pode ser descrita por estruturas semelhantes ao quadrado semiótico. Isso permite mapear formas de ação, como capacidade, obrigação ou desejo, dentro de um sistema formal.
Na antropologia, a influência de Claude Lévi-Strauss é decisiva. A ideia de que sistemas culturais se organizam por oposições binárias é retomada e formalizada por Greimas. O exemplo clássico do cru e do cozido pode ser expandido em um sistema mais complexo de transformações. Ainda assim, Lévi-Strauss criticou o modelo por considerá-lo excessivamente geométrico. A divergência não elimina a convergência fundamental quanto ao papel estruturante das oposições.
O modelo também foi aplicado à análise visual. A semiótica plástica investiga cores, formas e disposições espaciais como sistemas de significação. O quadrado permite decompor oposições visuais e revelar estruturas implícitas em imagens. Esse uso exige alto grau de formalização, mas amplia o alcance da teoria.
As críticas ao quadrado semiótico concentram-se em seu formalismo. Alguns o consideram abstrato demais e pouco sensível a textos abertos ou fragmentários. Outros defendem seu valor heurístico. O modelo não fornece interpretações prontas. Ele orienta a análise ao tornar visíveis relações que permanecem implícitas. No contexto latino-americano, especialmente no Brasil, autores como Diana Luz Pessoa de Barros e José Luiz Fiorin contribuíram para sua difusão.
SAIBA MAIS
FLOCH, Jean-Marie. Sémiotique, marketing et communication: sous les signes, les stratégies. Paris: Presses Universitaires de France, 1990.
GREIMAS, Algirdas Julien. La soupe au pistou ou la construction d’un objet de valeur. In: GREIMAS, Algirdas Julien. Du sens II: essais sémiotiques. Paris: Seuil, 1983.
GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Sémiotique: dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Paris: Hachette, 1979.
HÉNAULT, Anne. Les enjeux de la sémiotique. Paris: Presses Universitaires de France, 1979.

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