Pilish: quando π vira regra de composição

Existe um tipo de escrita em que o autor não começa com uma história, um personagem ou uma imagem — começa com um número. Considerando a necessidade de acuracidade em matemática, o texto começa com 3,1415926535…. O resto da escrita precisa se conformar com isso.

Essa é a lógica do pilish, uma forma de escrita sob restrição em que o número de letras de cada palavra segue, em sequência, os dígitos de π. A terceira palavra tem 4 letras porque o terceiro dígito de π é 4. A quarta palavra tem 1 letra. A quinta, 5 letras. E assim por diante, potencialmente ao infinito.

O exemplo mais ambicioso e literariamente sofisticado dessa técnica é o Cadaeic Cadenza (1996), de Mike Keith. Esse conto é uma obra monumental que codifica milhares de dígitos de π, além de encenar um diálogo com séculos de tradição literária. Não é um quebra-cabeça com enfeites poéticos. É poesia que nasce do quebra-cabeça. Nele, o número de letras em palavras sucessivas soletra os primeiros 3835 dígitos do número pi.

A regra invisível que governa cada palavra

No pilish, a restrição é simples de enunciar e brutal de executar:

Comprimento das palavras = dígitos sucessivos de π

π ≈ 3.14159265358979323846…

A abertura do texto já obedece ao padrão. “Poe, E.” — 3 letras, 1 letra. Depois seguem palavras com 4, 1, 5, 9 letras… A contagem nunca para; a frase inteira é moldada por uma sequência que não se repete e não termina.

Isso impõe uma espécie de métrica matemática. O autor não escolhe livremente a próxima palavra: ele precisa encontrar alguma palavra que caiba exatamente no número de letras exigido pelo próximo dígito. Se o dígito é 1, restam artigos e preposições curtas. Se é 9, é preciso buscar vocábulos mais longos. A sintaxe, o ritmo e até o tom emocional passam a ser efeitos colaterais da aritmética.

A restrição vira motor criativo.

Engenharia literária: um texto feito de ecos

Keith não usa π apenas como esqueleto formal. Ele constrói o Cadaeic Cadenza como um pastiche consciente da tradição ocidental, fazendo o estilo mudar ao longo do fluxo dos dígitos.

Há trechos que evocam:

  • Edgar Allan Poe, especialmente The Raven, com sua musicalidade sombria e obsessiva
  • Lewis Carroll, no nonsense que ainda assim sugere sentido
  • T. S. Eliot, na introspecção fragmentada
  • Shakespeare, no tom de solilóquio existencial
  • Omar Khayyám, na meditação sobre o tempo e a morte
  • até ecos de letras de rock progressivo, com imagens cósmicas e fluxo associativo

Cada mudança de voz literária coincide com o avanço implacável de π. A obra vira uma espécie de antologia dramatizada, onde estilos entram e saem de cena, mas todos obedecem à mesma tirania numérica.

O problema dos números grandes (e a solução engenhosa)

Um dos desafios técnicos mais interessantes é: o que fazer quando aparece um dígito grande?

No pilish clássico, um dígito 8 pede uma palavra de 8 letras. Um 9, nove letras. Mas e quando o autor quer usar uma palavra de 11 letras? Keith adota uma solução elegante: ele trata números maiores como sequências de dígitos menores.

Uma palavra de 11 letras, por exemplo, pode corresponder a dois dígitos consecutivos “1” e “1” na expansão de π. Assim, a palavra não “quebra” a regra — ela a distribui. Isso dá flexibilidade para incluir termos longos e expressivos sem abandonar a estrutura.

É um tipo de contabilidade poética: cada letra precisa ser justificada pelo próximo número.

Por que chamar de “Cadenza”?

O título é revelador. Em música, uma cadenza é um trecho quase improvisado, geralmente perto do final de um concerto, em que o solista demonstra virtuosismo técnico e expressivo. A orquestra se cala; o músico fica sozinho com sua habilidade.

Keith faz algo parecido. Dentro do “concerto” da literatura — cheio de formas consagradas, vozes canônicas e tradições estilísticas — ele executa um solo sob a restrição mais improvável possível: os dígitos de um número irracional.

A obra é dividida em seções que funcionam como movimentos musicais, cada uma com ritmo e atmosfera próprios, mas todas regidas pela mesma partitura invisível: π.

O que essa obra realmente está dizendo

Seria fácil tratar o Cadaeic Cadenza como curiosidade nerd. Mas sua força é conceitual.

1. A matemática como musa
A obra desafia a ideia de que restrições sufocam a criatividade. Aqui, a limitação é a fonte da invenção. Forçado a obedecer aos dígitos, o autor encontra combinações inesperadas, metáforas improváveis, giros sintáticos que não surgiriam em escrita “livre”.

2. Toda literatura já é restrita
Gêneros, métricas, convenções históricas — toda escrita opera dentro de molduras. O que Keith faz é apenas substituir restrições culturais por uma restrição numérica explícita. Ele torna visível o que normalmente fica implícito: escrever sempre é jogar um jogo com regras.

3. Ordem narrativa sobre caos numérico
π é irracional: seus dígitos seguem sem padrão repetitivo. Impor essa sequência caótica a uma narrativa que tenta imitar a ordem da tradição literária cria um paradoxo fértil. É como se o texto encenasse a própria condição humana: buscar sentido contínuo dentro de um universo que não oferece roteiro.

4. Um monumento à memória e à conexão
Para sustentar a obra, é preciso dominar não apenas milhares de dígitos de π, mas também uma vasta rede de referências literárias. O texto vira um ponto de encontro entre matemática, memória cultural e imaginação — uma prova de que o cérebro humano é especialista em construir pontes entre domínios que parecem não ter nada a ver.

Beleza algorítmica

No fim, o Cadaeic Cadenza habita um território raro: é ao mesmo tempo calculado e emocional, mecânico e lírico. Ele mostra que um algoritmo não é o oposto de arte; pode ser sua condição de possibilidade.

O pilish transforma π — símbolo máximo da abstração matemática — em respiração, ritmo, voz. Cada palavra carrega não só significado semântico, mas também um valor numérico secreto. Ler o texto é percorrer uma superfície literária que esconde, logo abaixo, uma arquitetura matemática contínua.

É uma lembrança de que padrões podem ser impostos, descobertos ou inventados — e que, às vezes, a beleza surge exatamente quando decidimos nos submeter a uma regra aparentemente absurda e ver até onde ela nos leva.

SAIBA MAIS

http://www.cadaeic.net/cadenza.htm

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