Lederach é uma figura central em um campo que costuma operar longe dos holofotes: o trabalho paciente de reconstrução de relações em sociedades marcadas por violência. Seu pensamento nasceu do contato direto com comunidades divididas, em contraste com modelos abstratos, e se desenvolveu como uma alternativa às abordagens que tratam o conflito como um problema técnico a ser resolvido rapidamente. Antes de apresentar suas ideias, é preciso situá-lo como alguém que redefiniu o próprio vocabulário da paz, deslocando a atenção de acordos formais para processos humanos de longo prazo.
John Paul Lederach nasceu em 1955, no estado de Indiana, nos Estados Unidos, em uma família menonita marcada pela prática missionária e pelo engajamento comunitário. Desde cedo, sua formação ocorreu fora dos centros acadêmicos convencionais. A infância entre a Nação Navajo e a Alemanha do pós-guerra ofereceu contato direto com sociedades feridas por conflitos históricos, desigualdades estruturais e processos frágeis de reconciliação. Esse contato não foi episódico: moldou sua compreensão de conflito como experiência vivida, situada e relacional.
Sua trajetória acadêmica acompanhou essa formação prática. Graduou-se em História e Estudos da Paz no Bethel College, aprofundou-se em Estudos da Paz no Center for Justice and Peacebuilding da Eastern Mennonite University e concluiu doutorado em Sociologia na Universidade do Colorado, com uma tese sobre práticas menonitas de mediação na Nicarágua. Desde o início, sua identidade não se organizou em torno da figura do especialista distante, mas do pesquisador implicado, enraizado na tradição anabatista de não violência ativa, reconciliação e justiça restaurativa.
O eixo conceitual de sua obra é o que chamou de imaginação moral. Trata-se da capacidade de conceber respostas ancoradas nas tensões do presente, mas abertas à emergência de realidades ainda inexistentes. Essa imaginação não opera no plano da abstração, mas no da prática relacional. Ela exige a construção de vínculos em rede, em lugar de hierarquias rígidas; a disposição de sustentar paradoxos sem reduzi-los; o reconhecimento da construção da paz como um ato criativo; e a aceitação do risco como parte constitutiva do processo.
Essa visão o levou a criticar modelos prescritivos de intervenção em conflitos, nos quais especialistas externos aplicam soluções padronizadas. Em oposição, Lederach desenvolveu o modelo elicitivo. Nesse modelo, o agente de paz atua como facilitador. O conhecimento decisivo não vem de fora, mas das comunidades envolvidas. Cultura, memória, linguagem e práticas locais são tratadas como recursos centrais. O foco desloca-se da entrega de respostas para a formulação de perguntas capazes de ativar processos de transformação.
Esse deslocamento acompanha sua reformulação do próprio campo. Em vez de “resolução de conflitos”, Lederach propõe “transformação de conflitos”. O conflito não é um erro a ser eliminado, mas um elemento inerente às relações sociais. O problema não é sua existência, mas suas formas de expressão. Transformar um conflito significa intervir nos padrões de relacionamento, comunicação, estrutura social e narrativas culturais que o sustentam. Para isso, ele descreve quatro dimensões interligadas: a pessoal, ligada às percepções e emoções; a relacional, associada à confiança e à interação; a estrutural, voltada às desigualdades e instituições; e a cultural, que envolve símbolos, histórias e visões de mundo.
Essa abordagem se materializa em modelos operacionais. O mais conhecido é a pirâmide dos níveis de liderança. No topo estão líderes políticos e militares; na base, lideranças comunitárias; no centro, atores intermediários como líderes religiosos, acadêmicos e organizações locais. Para Lederach, é nesse nível intermediário que se encontra o núcleo do processo de construção da paz, capaz de conectar decisões institucionais às realidades cotidianas. A paz sustentável emerge de articulações entre níveis, com ênfase em estratégias que operam do meio para fora.
Outro instrumento é a leitura temporal do conflito. Lederach propõe mapear curvas de escalada e desescalada, identificando momentos críticos nos quais pequenas intervenções podem alterar trajetórias. Esses pontos de inflexão não são previsíveis por modelos técnicos, mas reconhecíveis por quem acompanha o tecido relacional do conflito. A criação de “plataformas” — espaços seguros de encontro e diálogo — é parte central dessa prática.
Essas ideias foram testadas em contextos concretos. Na Nicarágua, Lederach mediou tensões entre o governo sandinista e comunidades indígenas Miskito. Na Somália, trabalhou com sistemas consuetudinários de clãs, valorizando o direito costumeiro. Na Colômbia, participou de processos que articularam justiça centrada nas vítimas. Atuou ainda no Nepal, na Irlanda do Norte e nas Filipinas, além de formar profissionais em mais de trinta países. Em todos esses contextos, privilegiou abordagens de longo prazo, ancoradas em capacidades locais.
Institucionalmente, Lederach consolidou esse legado como professor no Instituto Kroc de Estudos Internacionais da Paz da Universidade de Notre Dame, a partir de 1999, e como fundador do Center for Justice and Peacebuilding da Eastern Mennonite University. Seu modelo pedagógico integra teoria, prática, formação pessoal e trabalho de campo, formando profissionais reflexivos, mais do que técnicos especializados.
Sua produção escrita acompanha essa trajetória. Building Peace apresentou o arcabouço conceitual da transformação de conflitos. The Little Book of Conflict Transformation condensou o modelo para um público amplo. The Moral Imagination sintetizou sua visão madura, articulando ética, criatividade e prática. Obras posteriores exploraram dimensões espirituais, artísticas e corporais da cura social, incluindo colaborações com sua filha, Angela Jill Lederach.
Filosoficamente, sua obra articula a tradição anabatista, uma ética personalista, a pedagogia dialógica de Paulo Freire e noções de sistemas complexos. O conflito é tratado como sistema adaptativo, sensível a pequenas variações e relações não lineares. Essa abordagem recebeu reconhecimento amplo, mas também críticas. Alguns a consideram idealista diante de disputas geopolíticas assimétricas. Outros questionam a mensuração de seus resultados. Ainda assim, seu impacto é visível na consolidação do termo “transformação de conflitos” e na formação de uma geração de praticantes que recusam soluções rápidas.
A contribuição de Lederach reside menos em fórmulas do que em uma mudança de paradigma. Ele deslocou o foco da gestão de crises para o cultivo de relações. Fez da imaginação um instrumento analítico e da prática um campo de reflexão. Ao integrar compromisso ético, teoria social e experiência empírica, consolidou a figura do pesquisador que não observa o conflito à distância, mas trabalha dentro dele, com os limites e possibilidades que isso implica.
Atualizado em 7 de fevereiro de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega. Sua pesquisa em antropologia da paz e mediação de conflitos fundamenta a análise sobre a imaginação moral e a construção da paz na obra de John Paul Lederach.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. John Paul Lederach: Paz e Reconciliação. Ensaios e Notas, 2019. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2019/06/14/lederach-paz-e-reconciliacao/. Acesso em: 7 fev. 2026.

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