Os 28 topoi de Aristóteles

A Retórica de Aristóteles, no Livro II, capítulo 23, oferece um mapa das estratégias de raciocínio usadas para convencer. Esse mapa recebe o nome de tópica, conjunto de caminhos argumentativos recorrentes. Cada caminho específico é um tópos (plural: topoi), ou seja, um “lugar comum” do pensamento, uma forma de organizar ideias antes mesmo de se ter uma tese.

Pense nesses topoi como aquelas trilhas marcadas numa reserva ecológica: você pode caminhar de forma livre, mas há percursos batidos que ajudam a orientar o raciocínio. Aristóteles os descreve para que aprendamos a reconhecer, usar e avaliar argumentos — inclusive os ruins.

A seguir, apresento os principais topoi de II.23.

1. Do contrário aos contrários

Se o oposto é verdadeiro a respeito do oposto, a tese se confirma; se não, ela cai.

Aristóteles: A moderação é boa porque o excesso é mau.
Exemplo: Se viver endividado é um azar, economizar é uma sorte.

2. Da mesma palavra em formas diferentes

Se a qualidade vale para o substantivo, deve valer para o verbo; se não vale, a tese é falsa.

Aristóteles: O justo nem sempre é “um bem”, pois punir justamente alguém pode não ser desejável.
Exemplo: A política nem sempre é política. Há políticos que não sabem “agir politicamente”.

3. Dos correlativos (coisas logicamente relacionadas)

Se algo vale para um membro do par, deveria valer para o outro — ou não.

Aristóteles: Se é correto mandar, é correto obedecer.
Exemplo: Se é crime vender mercadoria falsificada, deveria ser crime comprá-la. Mas só porque alguém mereça punição não significa que qualquer pessoa esteja autorizada a puni-lo.

4. Do mais e do menos

Se algo não ocorre no caso mais forte, não ocorrerá no mais fraco; se ocorre no fraco, ocorre no forte.

Aristóteles: Se nem os deuses sabem tudo, muito menos os humanos.
Exemplo: Se um banco falha ao proteger o dinheiro de um milionário, dificilmente protegerá o dinheiro do cidadão comum.

E o inverso: se vale para o menor, vale para o maior.
Exemplo: Se um juiz pode punir um estagiário por assédio, pode punir também um diretor.

5. Do passado ao presente ou ao futuro (argumento a fortiori)

Se era verdade antes, é ainda mais agora.

Aristóteles: Se merecia a estátua antes da grande obra, a merece mais agora.
Exemplo: Se um político já merecia ser retirado do cargo antes do escândalo, agora isso é ainda mais evidente.

6. Virar as palavras do acusador contra ele

O argumento retorna à sua origem.

Aristóteles: Se você não faria isso, por que eu faria?
Exemplo: Como você pode me acusar de não doar, se nunca doou um centavo? Você está falando o quê, exatamente?

7. Da definição

Examinar o semântica da palavra.

Aristóteles: O que é o divino? O que é o nobre?
Exemplo : Dizer que alguém é “histérico” pressupõe um sentido ligado ao útero; por isso, o termo carrega preconceito historicamente embutido.

8. Dos diversos significados de uma palavra

Uma mesma palavra pode enganar por seus usos distintos.

Aristóteles: O “afiado” do som não é o “afiado” da faca.
Exemplo : “Popular” pode significar “muito conhecido” ou “relacionado ao povo”; discutir reformas “populares” pode confundir os dois sentidos.

9. Da divisão

Dividir um conjunto em partes para localizar a questão.

Aristóteles: Há três razões possíveis para o erro; duas são impossíveis, a terceira ninguém afirma.
Exemplo: Por que alguém votou naquele candidato? Ou foi ideologia, ou benefício pessoal, ou desinformação. Se não foi interesse nem ideologia, resta investigar a desinformação.

10. Da indução

Generalizar a partir de casos particulares.

Aristóteles: Todas as mães reconhecem seus filhos.
Exemplo : Todo boteco tem pelo menos um contador de histórias exageradas.

11. Da autoridade

Aceitar o juízo de quem é sábio, experiente ou legitimado.

Aristóteles: Se os juízes sábios decidiram, deve-se acatar.
Exemplo: Se o Inpe aponta desmatamento recorde, não cabe ao governante negar com “achismos”.

12. Das partes

Analisar os elementos que compõem o todo.

Aristóteles: De quais deuses ele descrê?
Exemplo: Em qual item do edital a candidata errou? O conhecimento específico ou a redação?

13. Das consequências

Julgar uma ação por seus efeitos previsíveis.

Aristóteles: Como a educação gera sabedoria, ela é boa.
Exemplo: Toda vez que ele aparece na reunião, vira confusão. Não o convidemos.

14. Das alternativas

Dilemas: qualquer opção tem custos.

Aristóteles: Governar com justiça atrai ódio; governar com injustiça atrai punição divina.
Exemplo: Se eu denunciar o esquema, vou perder o emprego; se não denunciar, compactuo com o crime.

15. Das contradições entre o público e o privado

Dizer uma coisa em público e outra em privado cria prova contra si.

Aristóteles: O que se elogia em público nem sempre é o que se admite em privado.
Exemplo: O político grava vídeos defendendo austeridade, mas negocia emendas secretas a portas fechadas.

16. Das consequências por analogia

Extensão lógica de um absurdo.

Aristóteles: Se meninos altos forem contados como homens, homens baixos serão contados como meninos.
Exemplo: Se todo “influenciador” vira jornalista, logo qualquer boato de internet vira notícia.

17. Dos resultados idênticos

Mesmos efeitos, mesmas causas.

Aristóteles: Dizer que deuses nascem é tão ímpio quanto dizer que morrem.
Exemplo: Um cálculo errado é ruim tanto quando falta quanto quando sobra verba. Erro é erro.

18. Da mudança de posição

Contradição entre o antes e o depois.

Aristóteles: Lutar para voltar para casa e depois preferir o exílio.
Exemplo: Apoiou a lei quando estava na oposição, mas a rejeitou ao assumir o governo.

19. Do motivo atribuído

Interpretar uma intenção a partir do resultado.

Aristóteles: Se alguém causou dano, era esse o objetivo.
Exemplo: “Meus pais foram duros para me ensinar disciplina.” Talvez sim; talvez só reproduzissem o que aprenderam.

20. Dos incentivos e desincentivos

Agimos conforme vantagens e desvantagens percebidas.

Aristóteles: Quem tem motivo e oportunidade, age.
Exemplo: Ninguém paga propina por esporte; se pagou, achou que ganharia algo.

21. Da improbabilidade

O improvável pode parecer verdadeiro exatamente por ser improvável.

Aristóteles: Peixes precisam de sal para não apodrecer.
Exemplo: A história é tão improvável que ninguém teria coragem de inventá-la. Talvez seja mesmo verdade.

22. Das contradições circunstanciais

Datas, fatos ou declarações que não “batem”.

Aristóteles: Acusa litígio, mas nunca provei ação.
Exemplo: Diz que estava doente, mas postou foto na praia no mesmo dia.

23. Da falsa impressão

Mostrar que a aparência engana.

Aristóteles: O abraço carinhoso pode ser entre mãe e filho, não amantes.
Exemplo: O filantropo pode não ser interesseiro; às vezes alguém faz o bem porque acredita nele.

24. Da causa necessária

Sem causa, não há efeito.

Aristóteles: Não houve tentativa de encobrimento porque não houve crime.
Exemplo: Se não houve chuva, não pode ter havido enchente natural. Algo mais provocou aquilo.

25. Das alternativas melhores

Comparar com um plano superior.

Aristóteles: —
Exemplo: Se essa política pública falhou por anos, talvez seja hora de buscar outro modelo.

26. Da comparação entre ações possíveis

Avaliar qual é coerente.

Aristóteles: Não se pode tratar Leucoteia como deusa e como mortal ao mesmo tempo.
Exemplo: Se a escola diz que valoriza diversidade, não pode manter um currículo que exclui culturas inteiras.

27. Dos erros passados

Usar o que já aconteceu para acusar ou defender.

Aristóteles: Medeia não mataria os filhos se nem matou o traidor Jason.
Exemplo: Ela nunca perdeu documentos importantes; não faria isso logo agora num caso decisivo.

28. Do nome

O nome pode sugerir um sentido argumentativo.

Aristóteles: Se foi chamada Sidero, não é por acaso.
Exemplo: “Raimundo Justiceiro” brigando contra multas de trânsito parece piada involuntária; o nome sugere ironia.

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