A Retórica de Aristóteles, no Livro II, capítulo 23, oferece um mapa das estratégias de raciocínio usadas para convencer. Esse mapa recebe o nome de tópica, conjunto de caminhos argumentativos recorrentes. Cada caminho específico é um tópos (plural: topoi), ou seja, um “lugar comum” do pensamento, uma forma de organizar ideias antes mesmo de se ter uma tese.
Pense nesses topoi como aquelas trilhas marcadas numa reserva ecológica: você pode caminhar de forma livre, mas há percursos batidos que ajudam a orientar o raciocínio. Aristóteles os descreve para que aprendamos a reconhecer, usar e avaliar argumentos — inclusive os ruins.
A seguir, apresento os principais topoi de II.23.
1. Do contrário aos contrários
Se o oposto é verdadeiro a respeito do oposto, a tese se confirma; se não, ela cai.
Aristóteles: A moderação é boa porque o excesso é mau.
Exemplo: Se viver endividado é um azar, economizar é uma sorte.
2. Da mesma palavra em formas diferentes
Se a qualidade vale para o substantivo, deve valer para o verbo; se não vale, a tese é falsa.
Aristóteles: O justo nem sempre é “um bem”, pois punir justamente alguém pode não ser desejável.
Exemplo: A política nem sempre é política. Há políticos que não sabem “agir politicamente”.
3. Dos correlativos (coisas logicamente relacionadas)
Se algo vale para um membro do par, deveria valer para o outro — ou não.
Aristóteles: Se é correto mandar, é correto obedecer.
Exemplo: Se é crime vender mercadoria falsificada, deveria ser crime comprá-la. Mas só porque alguém mereça punição não significa que qualquer pessoa esteja autorizada a puni-lo.
4. Do mais e do menos
Se algo não ocorre no caso mais forte, não ocorrerá no mais fraco; se ocorre no fraco, ocorre no forte.
Aristóteles: Se nem os deuses sabem tudo, muito menos os humanos.
Exemplo: Se um banco falha ao proteger o dinheiro de um milionário, dificilmente protegerá o dinheiro do cidadão comum.
E o inverso: se vale para o menor, vale para o maior.
Exemplo: Se um juiz pode punir um estagiário por assédio, pode punir também um diretor.
5. Do passado ao presente ou ao futuro (argumento a fortiori)
Se era verdade antes, é ainda mais agora.
Aristóteles: Se merecia a estátua antes da grande obra, a merece mais agora.
Exemplo: Se um político já merecia ser retirado do cargo antes do escândalo, agora isso é ainda mais evidente.
6. Virar as palavras do acusador contra ele
O argumento retorna à sua origem.
Aristóteles: Se você não faria isso, por que eu faria?
Exemplo: Como você pode me acusar de não doar, se nunca doou um centavo? Você está falando o quê, exatamente?
7. Da definição
Examinar o semântica da palavra.
Aristóteles: O que é o divino? O que é o nobre?
Exemplo : Dizer que alguém é “histérico” pressupõe um sentido ligado ao útero; por isso, o termo carrega preconceito historicamente embutido.
8. Dos diversos significados de uma palavra
Uma mesma palavra pode enganar por seus usos distintos.
Aristóteles: O “afiado” do som não é o “afiado” da faca.
Exemplo : “Popular” pode significar “muito conhecido” ou “relacionado ao povo”; discutir reformas “populares” pode confundir os dois sentidos.
9. Da divisão
Dividir um conjunto em partes para localizar a questão.
Aristóteles: Há três razões possíveis para o erro; duas são impossíveis, a terceira ninguém afirma.
Exemplo: Por que alguém votou naquele candidato? Ou foi ideologia, ou benefício pessoal, ou desinformação. Se não foi interesse nem ideologia, resta investigar a desinformação.
10. Da indução
Generalizar a partir de casos particulares.
Aristóteles: Todas as mães reconhecem seus filhos.
Exemplo : Todo boteco tem pelo menos um contador de histórias exageradas.
11. Da autoridade
Aceitar o juízo de quem é sábio, experiente ou legitimado.
Aristóteles: Se os juízes sábios decidiram, deve-se acatar.
Exemplo: Se o Inpe aponta desmatamento recorde, não cabe ao governante negar com “achismos”.
12. Das partes
Analisar os elementos que compõem o todo.
Aristóteles: De quais deuses ele descrê?
Exemplo: Em qual item do edital a candidata errou? O conhecimento específico ou a redação?
13. Das consequências
Julgar uma ação por seus efeitos previsíveis.
Aristóteles: Como a educação gera sabedoria, ela é boa.
Exemplo: Toda vez que ele aparece na reunião, vira confusão. Não o convidemos.
14. Das alternativas
Dilemas: qualquer opção tem custos.
Aristóteles: Governar com justiça atrai ódio; governar com injustiça atrai punição divina.
Exemplo: Se eu denunciar o esquema, vou perder o emprego; se não denunciar, compactuo com o crime.
15. Das contradições entre o público e o privado
Dizer uma coisa em público e outra em privado cria prova contra si.
Aristóteles: O que se elogia em público nem sempre é o que se admite em privado.
Exemplo: O político grava vídeos defendendo austeridade, mas negocia emendas secretas a portas fechadas.
16. Das consequências por analogia
Extensão lógica de um absurdo.
Aristóteles: Se meninos altos forem contados como homens, homens baixos serão contados como meninos.
Exemplo: Se todo “influenciador” vira jornalista, logo qualquer boato de internet vira notícia.
17. Dos resultados idênticos
Mesmos efeitos, mesmas causas.
Aristóteles: Dizer que deuses nascem é tão ímpio quanto dizer que morrem.
Exemplo: Um cálculo errado é ruim tanto quando falta quanto quando sobra verba. Erro é erro.
18. Da mudança de posição
Contradição entre o antes e o depois.
Aristóteles: Lutar para voltar para casa e depois preferir o exílio.
Exemplo: Apoiou a lei quando estava na oposição, mas a rejeitou ao assumir o governo.
19. Do motivo atribuído
Interpretar uma intenção a partir do resultado.
Aristóteles: Se alguém causou dano, era esse o objetivo.
Exemplo: “Meus pais foram duros para me ensinar disciplina.” Talvez sim; talvez só reproduzissem o que aprenderam.
20. Dos incentivos e desincentivos
Agimos conforme vantagens e desvantagens percebidas.
Aristóteles: Quem tem motivo e oportunidade, age.
Exemplo: Ninguém paga propina por esporte; se pagou, achou que ganharia algo.
21. Da improbabilidade
O improvável pode parecer verdadeiro exatamente por ser improvável.
Aristóteles: Peixes precisam de sal para não apodrecer.
Exemplo: A história é tão improvável que ninguém teria coragem de inventá-la. Talvez seja mesmo verdade.
22. Das contradições circunstanciais
Datas, fatos ou declarações que não “batem”.
Aristóteles: Acusa litígio, mas nunca provei ação.
Exemplo: Diz que estava doente, mas postou foto na praia no mesmo dia.
23. Da falsa impressão
Mostrar que a aparência engana.
Aristóteles: O abraço carinhoso pode ser entre mãe e filho, não amantes.
Exemplo: O filantropo pode não ser interesseiro; às vezes alguém faz o bem porque acredita nele.
24. Da causa necessária
Sem causa, não há efeito.
Aristóteles: Não houve tentativa de encobrimento porque não houve crime.
Exemplo: Se não houve chuva, não pode ter havido enchente natural. Algo mais provocou aquilo.
25. Das alternativas melhores
Comparar com um plano superior.
Aristóteles: —
Exemplo: Se essa política pública falhou por anos, talvez seja hora de buscar outro modelo.
26. Da comparação entre ações possíveis
Avaliar qual é coerente.
Aristóteles: Não se pode tratar Leucoteia como deusa e como mortal ao mesmo tempo.
Exemplo: Se a escola diz que valoriza diversidade, não pode manter um currículo que exclui culturas inteiras.
27. Dos erros passados
Usar o que já aconteceu para acusar ou defender.
Aristóteles: Medeia não mataria os filhos se nem matou o traidor Jason.
Exemplo: Ela nunca perdeu documentos importantes; não faria isso logo agora num caso decisivo.
28. Do nome
O nome pode sugerir um sentido argumentativo.
Aristóteles: Se foi chamada Sidero, não é por acaso.
Exemplo: “Raimundo Justiceiro” brigando contra multas de trânsito parece piada involuntária; o nome sugere ironia.

Deixe uma resposta