Réquiem para o Museu Nacional

O triste fim de um patrimônio da humanidade

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Esperamos pela luz, mas contemplamos a escuridão. Isaías 59:9b

Perder um HD com fotos ou um ursinho de pelúcia da infância já é devastador a uma só pessoa pela perda afetiva. Agora, sentimos toda a nação o vazio (preenchido pela raiva) da perda de bens de valores afetivos, científicos e econômicos com o incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio.

O século XXI, apesar de todos seus avanços tecnológicos, foi cruel com os artefatos da herança cultural comum da humanidade. No Brasil os incêndios que destruíram Igreja Matriz de Pirenópolis, o Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz, o Instituto Butantã, o Memorial da América Latina. As tragédias nacionais juntaram-se à destruição de Palmira, à explosão dos Budas do Afeganistão, às queimas da biblioteca do Institut d’Egypte e dos manuscritos de Timbuktu. Infelizmente, a barbárie da Quinta da Boa Vista não foi a primeira nem a será a última.

Ao contrário da lenda, a destruição do museu e biblioteca de Alexandria não foi em um único evento, mas gradativa. Resultou do vandalismo de terceiros com ações deliberadas de governantes.  Repete-se em todo o Brasil o mesmo cenário.

Rotineiramente o desprezo do público somado ao descaso do Estado minam com grande parte do patrimônio cultural brasileiro. As bibliotecas e gabinetes de história natural dos jesuítas foram aos poucos destruídos desde a expulsão dessa companhia no regime pombalino.  No final do século XVIII o cronista Luiz dos Santos Vilhena relata que os papéis dos livros do Colégio Jesuítico da Bahia, a maior biblioteca da Colônia, eram usados para “embrulhar adubos e unguentos”. Contam-se que acabaram com os livros da biblioteca do colégio jesuíta do Rio com jatos de água durante a escavação do Morro do Castelo em 1921.

Roubos, chuvas, mofos, traças, fogo, mutilações e outros vandalismos ameaçam vários arquivos, centros de documentações, museus e bibliotecas hoje no Brasil. Lembro-me de uma amiga historiadora, Bia Campos, que visitando os arquivos de Mariana e Ouro Preto, consultava livros raros empilhados no chão ou, quando obras sortudas, empilhadas em sofás e estantes abarrotadas. Recentemente glamourizaram a história de um ladrão de livros, enquanto isso fósseis são fragmentados para aumentarem a renda de traficantes na Chapada do Araripe. Fiz um curso de conservação e restauro de livros no qual os idealistas restauradores faziam vaquinhas para comprar insumos básicos.

Apesar desse cenário, o patrimônio cultural brasileiro não está abandonado. Está sim precário. O Instituto Brasileiro de Museus relata um aumento significativo na última década, o IPHAN está em processo de concursos para vários cargos há tempos desfalcados. Todavia, no caso do Museu Nacional, R$58 mil por mês é risível. Muita repartiçãozinha provinciana gasta isso com viatura. Mesmo que chegasse a verba em tempo, o processo administrativo –  cada vez mais engessado pela desconfiança generalizada e presunção de má-fé – é impeditivo para atender tempestivamente as medidas de prevenção e reparo. Aos que acham que basta privatizar tudo, quais museus privados desse porte se sustentaria no país com captação de doações, entradas e eventos?

O Museu Nacional era um pináculo da emancipação social, cultural, científica e política. Inicialmente era a casa-grande de um traficante de escravo, Elias António Lopes que “doou” (em troca de benefícios, inclusive com lucrativos cargos públicos), o Paço de São Cristóvão para a família real, recém-estabelecida no Rio de Janeiro. Desde 1818 a instituição abrigou artefatos de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, arqueologia, antropologia e etnologia. Por duzentos anos naturalistas visitavam e colaboraram com seu acervo. Para a antropologia brasileira era uma instituição matriz: os materiais etnológicos do século XIX foram organizados por pessoas como Roquette-Pinto e Heloisa Alberto Torres para dar suporte às investigações antropológicas já com um caráter “científico” no século XX.  Vários antropólogos estrangeiros tiveram na Quinta da Boa Vista sua base de trabalho. Nos anos 1960, pela insistência de Roberto Cardoso de Oliveira e Luiz de Castro Faria iniciaram-se os primeiros cursos formais e específicos para a formação em antropologia no país, resultando no atual Programa de Pós-Graduação em Antropologia do Museu Nacional- UFRJ.

Lá estava Luzia, lá estava meteorito do Bendegó, lá estavam os vestígios da megafauna, lá estavam os testemunhos de povos indígenas que já destruímos. Falhamos em nossas responsabilidades. Por todos esses pecados, restou dizer Kyrie, eleison.  ;-(

Uma resposta para “Réquiem para o Museu Nacional

  1. Fato extremamente triste. Isso mostra como os governos brasileiros não ligam para a cultura e como a iniciativa pública brasileira é totalmente incapaz de cuidar do nosso patrimônio cultural. O descaso não é de hoje, já vem de décadas. Temos que tomar cuidado com os oportunistas que surgiram com a situação, ainda mais se tratando de ano eleitoral.
    Abraço.

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