Gayatri Chakravorty Spivak, uma das vozes mais incisivas dos estudos pós-coloniais, inaugura com Can the Subaltern Speak? (1985, revisado posteriormente) uma crítica devastadora às condições de produção do conhecimento sob o imperialismo global.
Autora de grande erudição e rigor teórico, Spivak argumenta que o “subalterno” — termo que expande a noção gramsciana para incluir todos os sujeitos à margem das estruturas hegemônicas, especialmente mulheres colonizadas — é incapaz de falar dentro dos sistemas de representação dominantes. Esta impossibilidade não é física: trata-se de um bloqueio estrutural, inscrito nos próprios mecanismos pelos quais o Ocidente e as elites nativas produzem, filtram e legitimam o discurso.

O ensaio, longe de um exercício teórico abstrato, é uma intervenção política sobre como se constrói a “voz” no mundo contemporâneo — e como certos sujeitos são sistematicamente impedidos de participar dessa construção.
Crítica aos intelectuais ocidentais: o mito da representação transparente
Spivak inicia seu argumento desmontando uma tendência entre intelectuais europeus, particularmente Michel Foucault e Gilles Deleuze, de supor que o oprimido pode simplesmente “falar por si”. Ambos rejeitam a ideia de que o intelectual represente politicamente o subalterno, acreditando que as lutas locais se autoexpressam sem mediação.
Spivak identifica nesta posição uma ingênua crença em representação transparente — um erro teórico que ignora:
- A geopolítica do próprio intelectual, situado no Norte global;
- A distinção crucial entre vertreten e darstellen:
- vertreten: falar por, representar politicamente;
- darstellen: retratar, descrever artisticamente.
Ao confundir esses dois níveis, os intelectuais produzem uma nova forma de autoridade “limpa” que perpetua a violência discursiva. Assim, o intelectual ocidental, mesmo bem-intencionado, não apenas falha em representar; ele reforça, pela via teórica, a formação do Outro como sombra e confirmação de seu próprio privilégio.
Violência epistêmica: o caso do sati como disputa entre patriarcados
Para demonstrar a eficácia destrutiva da produção colonial de conhecimento, Spivak analisa a prática hindu do sati — a autoimolação da viúva na pira do marido — como um campo de disputa simbólica.
Confrontam-se dois discursos patriarcais:
- O discurso colonial britânico, que enquadrava o sati como barbárie e justificava sua abolição sob a narrativa “white men saving brown women from brown men”.
- O discurso nacionalista indiano, que frequentemente reconfigurava a prática como dever sagrado, heroísmo ou fidelidade extrema da esposa.
Ambos falavam sobre a mulher, mas nenhum permitia que ela falasse por si. Ela surge como objeto, nunca como sujeito. Esse apagamento é o exemplo paradigmático do que Spivak denomina violência epistêmica — a destruição das formas prévias de saber e a imposição de categorias coloniais que reorganizam completamente a possibilidade de enunciação.
A impossibilidade da fala: o caso de Bhuvaneswari Bhaduri
O exemplo mais pungente de Spivak, extraído de sua própria história familiar, é o suicídio de sua tia-avó, Bhuvaneswari Bhaduri, em Calcutá, no início do século XX. Envolvida em uma célula revolucionária anti-imperialista, Bhuvaneswari tinha recebido uma missão de assassinato político, da qual não conseguiu participar. Antes de se matar, ela esperou até menstruar — uma tentativa cuidadosamente codificada de impedir que seu ato fosse lido como resultado de gravidez ilegítima.
Seu corpo, portanto, tornou-se um texto político, um esforço desesperado de significar.
Mas esse esforço falhou. Sua comunidade reinterpretou o suicídio dentro da narrativa dominante do amor frustrado — exatamente a história que ela tentou impedir. A mensagem que ela buscou deixar — a única possível para uma mulher subalterna — não encontrou um regime de escuta capaz de reconhecê-la.
Este é o cerne do argumento de Spivak: não é que o subalterno não fale, mas que não há lugar estrutural para que sua fala seja ouvida como fala.
O subalterno não pode falar — e o que isso significa
A famosa conclusão — “o subalterno não pode falar” — não é uma sentença de desespero, mas um diagnóstico político sobre a arquitetura global da representação. A fala é silenciada não pela falta de voz, mas pela mediação obrigatória através de estruturas (coloniais, capitalistas, patriarcais, nacionalistas) que selecionam o que é inteligível ou aceitável.
O papel do intelectual, portanto, não é “dar voz aos sem voz” — proposta paternalista e ilusória —, mas:
- interrogar constantemente os próprios instrumentos teóricos;
- desmascarar a cumplicidade entre conhecimento e poder global;
- praticar o que Spivak chama de “desaprender o próprio privilégio como uma perda” — desfazer as certezas que constituem o observador como sujeito soberano.
Conceitos centrais
- Subalternidade: posição estrutural fora das redes hegemônicas de poder e representação.
- Violência epistêmica: destruição e reconfiguração colonial dos modos nativos de saber.
- Representação (vertreten/darstellen): distinção entre falar por e retratar — erro recorrente na teoria ocidental.
- Estratégico essencialismo: uso tático de identidades coletivas para ação política, sabendo que são construções.
- O nativo informante: figura fantasmática desejada pelo Ocidente — um sujeito “autêntico” que fale a verdade sobre sua cultura.
Recepção
O ensaio “Pode o Subalterno Falar?” de Gayatri Chakravorty Spivak se consolidou como um texto fundador dos estudos pós-coloniais. Todavia, desencadeou uma recepção marcada pela controvérsia e pela produtividade intelectual que perdura por décadas. Desde sua publicação inicial em 1985 (com o subtítulo Speculations on Widow Sacrifice) até sua inclusão revisada em A Critique of Postcolonial Reason (1999), a obra tem sido central para o debate sobre representação, poder e a constituição do conhecimento.
O ponto mais comum de confusão e, consequentemente, de crítica ao ensaio é a famosa afirmação de Spivak de que “o subalterno não pode falar”. Leitores e críticos frequentemente interpretam essa tese de forma literal, como se o subalterno fosse fisicamente incapaz de emitir a fala. No entanto, a obra esclarece que a preocupação não é com o ato físico da fala, mas com a inteligibilidade estrutural do discurso.
Apesar da influência do ensaio, Spivak não foi imune a críticas severas quanto à sua própria posicionalidade. Alguns críticos, especialmente aqueles que abordam a questão sob a perspectiva Bahujan (Dalit) na Índia, levantaram questionamentos sobre a legitimidade de Spivak.
Essa linha de crítica desafia como uma intelectual de elite e brâmane (historicamente a casta dominante) pode falar autoritariamente sobre o silenciamento dos grupos mais marginalizados (os Dalits), que foram oprimidos pela mesma estrutura de casta à qual Spivak historicamente pertence. Essa crítica levanta o debate sobre a responsabilidade e a cumplicidade de quem fala, mesmo dentro da teoria pós-colonial.
A recepção do ensaio de Spivak é inseparável de sua própria força crítica. Ele é lido, contestado, revisitado e reescrito porque insiste em um ponto desconfortável: não se trata apenas de dar espaço para que o subalterno fale, mas de transformar as condições que tornam sua fala inaudível. Essa inquietação continua a impulsionar tanto seus admiradores quanto seus críticos, garantindo ao ensaio uma presença constante — e necessária — no pensamento contemporâneo.
A ponderar
Spivak redefine as bases dos estudos pós-coloniais ao mostrar que a opressão não é apenas econômica ou política, mas discursiva. Sua crítica expõe as zonas cegas da teoria ocidental e desafia intelectuais, acadêmicos e ativistas a repensarem profundamente suas próprias posições.
O que está em jogo não é simplesmente a voz do subalterno, mas as condições de possibilidade da própria significação no mundo pós-colonial.
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