Ritos Corporais entre os Nacirema

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Por Horace Miner

 A maioria das culturas apresenta uma configuração ou estilo particular. Frequentemente, um único valor ou parâmetro de perceber o mundo   deixa sua marca em várias instituições na sociedade. Exemplos são o “machismo” nas culturas de influência espanhola ou a “face” na cultura japonesa, e “a poluição feminina” em algumas culturas das terras altas da Nova Guiné.  Aqui Horace Miner demonstra que “atitudes quanto ao corpo” têm influência generalizada em muitas instituições da sociedade Nacirema.[1]

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 O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento as quais os diferentes povos apresentam em situações semelhantes  que é incapaz de se surpreender mesmo diante dos costumes mais exóticos.

De fato, embora nem todas as combinações de comportamento logicamente possíveis tenham sido descobertas em alguma parte do mundo, o antropólogo pode suspeitar que elas devam existir em alguma tribo ainda por descrever. Este aspecto foi expresso, com relação à organização clânica, por Murdock (1949:71)[2]. Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como um exemplo dos extremos a que pode atingir o comportamento humano.

O professor Linton[3], há vinte anos (1936:56), foi o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para o ritual dos Nacirema, mas a cultura desse povo ainda permanece insuficientemente compreendida. Trata-se de um grupo norte-americano vivendo no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e Tarahumare do México e os Carib e Awarak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste…[4].

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida,  evoluida em um rico habitat natural. Apesar de o povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos destes trabalhos são gastos uma considerável porção do dia em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano  cuja aparência e saúde agigantam-se como os interesses dominantes no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a ele associadas são singulares.

A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e  sua tende naturalmente para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características mediante o uso das poderosas influências do ritual do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas.  De fato, a alusão à opulência de uma casa frequentemente é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira toscamente pintadas, mas as câmaras de culto das mais ricas paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas aplicando placas de cerâmica às paredes de seu santuário.

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais associados não são cerimônias familiares, são cerimônias privadas e secretas. Os ritos normalmente são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Contudo, eu pude estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.

O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Estas poções são adquiridas por meio de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros cujo auxílio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Entretanto, os médico-feiticeiros não fornecem a seus clientes poções de cura, só decidem quais devem ser seus ingredientes, então as escrevem em uma linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários quem em troca de outra dádiva  providenciam o encantamento necessário.

Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas o colocam na caixa-de-encantamentos do santuário doméstico. Com estas substâncias mágicas são específicas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas. A caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir o que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a ideia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente da qual são efetuados os ritos corporais,  de alguma forma protegerá o adorador.

Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução[5]. As águas sagradas vêem do Templo da Água da comunidade onde sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por “sagrados-homens-da-boca”. Os Nacirema têm um horror quase que patológico e ao mesmo tempo uma fascinação em relação à cavidade bucal  cujo estado acreditam ter uma influência sobrenatural em todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais, seus dentes cairiam, suas gengivas sangrariam, suas mandíbulas se contrairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral.

O ritual de corpo executados por cada Nacirema diariamente inclui um rito bucal. Apesar tão escrupulosos[6] no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado  que só pode considerá-lo como revoltante. Relatam-me que o ritual consiste na inserção de uma pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos pós mágicos,  então o movimenta numa série de gestos altamente formalizados.[7]

Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos consistindo de brocas, furadores, sondas e agulhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve para o cliente uma tortura ritual quase inacreditável. O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpados para que a substância sobrenatural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações[8] é tolher a degeneração e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, são obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.

Esperamos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema, haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura de personalidade destas pessoas. Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da-boca quando ele enfia um furador num nervo exposto  para se suspeitar que este rito envolva certa dose de sadismo. Se isto puder ser comprovado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas. Foi a estas tendências que o Prof. Linton se referiu na discussão de uma parte específica do rito corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres assam suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista desenvolvera tais especialistas sádicos.

Os médicos-feiticeiros possuem um templo imponente ou “latipso”, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas necessárias para tratar de pacientes muito doentes só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo[9], mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, se movimentam serenamente pelas câmaras do templo.

As cerimônias no “latipso” são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperam. Sabe-se que crianças pequenas, com uma doutrinação ainda incompleta resistem às tentativas de levá-las ao templo porque “é lá que se vai para morrer”. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem, mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto não importa quão doente esteja o suplicante ou qual seja a emergência. Os guardiães de muitos templos não admitem um cliente se ele não puder dar uma dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se não fizer ainda outra doação.

O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e das suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no “latipso”, pode  resultar traumas psicológicos. Um homem cuja própria esposa nunca o viu em um ato de excreção acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais em um recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excrementos são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, tem seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhoadas dos médicos-feiticeiros.

Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas. De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espetar agulhas magicamente tratadas em sua carne.

O fato de que estes cerimônias de templo possam não curar, podendo mesmo matar o neófito, não diminui de forma alguma a fé das pessoas no médico-feiticeiro.

Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um “ouvinte”. Este doutor-bruxo tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Naciremas acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-mágica do doutor-bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao “ouvinte” todos os seus problemas e temores, principiando pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum um paciente deplorar a rejeição que sentiu quando bebê ao ser desmamado; uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos efeitos traumáticos de seu próprio nascimento.

Como conclusão, deve-se fazer referências a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão perversiva ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar as magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas as pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos, e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato da forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas com um desenvolvimento hipermamário  são tão idolatradas que podem levar uma boa vida indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

Já fizemos referências ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto  e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual e certas fases da lua. A concepção é na realidade  pouco frequente. Quando grávidas, as mulheres vestem-se de modo a esconder seu estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta os seus infantes.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski[10] quando escreveu (1948-70):

“Olhando de longe e de cima, de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder e orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fez, suas dificuldades práticas, nem poderia o homem ter avançado aos estádios mais altos da civilização.”[11]

REFERÊNCIAS

Linton, Ralph
1936 The Study of Man. New York, D. Appleton-Century Co.

Malinowski, Bronislaw
1948 Magic, Science, and Religion. Glencoe, The Free Press.

Murdock, George P.
1949 Social Structure. New York, The Macmillan Co.


[1]  Publicado originalmente como “Body ritual among the Nacirema,” American Antropologist 58 (1956): 503-507. Notas  adicionadas por Dowell.

[2]  George Peter Murdock (1897-1985), famoso etnógrafo.

[3] Ralph Linton (1893-1953), mais conhecido por estudos de aculturação (afirmando que toda a cultura é aprendida e não herdada, o processo pelo qual a cultura de uma sociedade é transmitida de uma geração para a seguinte), alegando que a cultura é a “hereditariedade social” da humanidade.

 [4] Falta no texto o seguinte:

De acordo com a mitologia Nacirema, sua nação foi originado por um herói da cultura, Notgnihsaw, que é conhecido por dois grandes feitos de força – o lançamento de um pedaço de wampum doutro lado do rio Pa-To-Mac e a derrubada de uma árvore cerejeira em que o Espírito da Verdade residia.

[5]  Lavagem ou de limpeza do corpo ou de uma parte do corpo. Do latim abluere, lavar.

[6] Marcado pela observância precisa dos pontos mais delicados da etiqueta e conduta formal.

[7] Vale notar que, desde a realização da pesquisa original do Prof. Miner, os Naciremas abandonaram quase universalmente as cerdas naturais de seu ritual bucal privado em favor de produtos sintéticos polimerizado à base de óleo. Além disso, os pós associados a este ritual geralmente são semi-liquefeito. Evitaram-se neste documento outras atualizações da cultura Nacirema por razão de parcimônia.

 [8] Tendendo a importantes funções religiosas ou outras.

 [9] Um milagreiro.

 [10]  Bronislaw Malinowski (1.884-1942), famoso antropólogo cultural  conhecido por seu argumento de que as pessoas em toda parte compartilham necessidades biológicas e psicológicas comuns e que a função de todas as instituições culturais é cumprir essas necessidades, a natureza da instituição é determinada por sua função.

[11] Percebeu? Em qualquer caso, tente analisar a declaração de Malinowski no contexto do que veio a ser conhecido como “A Terceira Lei de [Arthur C.] Clarke”: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia

 

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