Perséfone

O rapto de Prosérpina, Bernini, Galeria Borghese

Uma moça colhe flores num prado quando a terra se abre. Hades, irmão de Zeus e de Posêidon, a toma em seu carro e a leva para o mundo de baixo. Só Hécate e Hélio veem a cena, e o pai da moça, Zeus, já havia consentido. Deméter, a mãe, procura a filha durante nove dias e nove noites e abandona as tarefas de deusa da colheita. Quando Hélio lhe conta quem decidiu o rapto, ela se retira do Olimpo e a terra deixa de dar fruto.

Zeus então manda Hermes buscar Perséfone. Hades a deixa subir, mas ela comeu sementes de romã, e isso a prende ao reino dos mortos. O acordo que resulta divide o ano em duas partes. Com a mãe, Perséfone traz a primavera e o verão, e com o marido, o outono e o inverno. Os romanos contaram a história com outros nomes, Ceres e Prosérpina, e chamaram Plutão ao raptor. A explicação das estações é a que se aprende na escola e cabe em duas linhas. Um relato que dura mais de dois milênios e meio deve ter outra razão para durar.

A fonte principal é o Hino Homérico a Deméter, um poema em hexâmetros composto entre os séculos VII e VI a.C. É o único sobrevivente de um grupo maior de hinos sobre o tema, e parece ter sido escrito para um concurso no festival de Elêusis ou para uso dos mistérios, pelas mãos do hierofante. Hesíodo despacha o rapto em três versos na Teogonia. O hino traz o relato mais completo, com as errâncias de Deméter em Elêusis, a tentativa de tornar imortal o menino Demofonte e a fundação dos ritos. Só nele o mito se liga ao culto e a uma promessa sobre o destino dos iniciados.

Os mistérios de Elêusis duraram quase dois mil anos e se celebravam todo outono, a partir da busca de Deméter por sua filha. Termos do hino, como dromena, o drama ritual, e deiknymi, o ato de mostrar as coisas sagradas, remetem a etapas da iniciação. Um verso do poema declara feliz quem viu essas coisas, e a frase fala diretamente do privilégio do iniciado. Os estudiosos situam no fim do século VII ou no início do VI a.C. uma mudança no culto, que deixou de ser uma celebração agrária da fertilidade e passou a prometer aos iniciados uma vida bem-aventurada depois da morte. A morte simbólica de Perséfone e seu retorno serviram de modelo para o renascimento simbólico de quem se iniciava.

Uma leitura antropológica apontaria para a instituição do casamento. A semente de romã prende Perséfone ao mundo subterrâneo do mesmo modo que o casamento prendia a filha à casa do marido, e o mito serve de carta de fundação tanto para o calendário agrícola quanto para a passagem de uma família a outra. Em Elêusis a leitura vai além. A história garante ao iniciado que a morte é um trânsito, e que quem desce pode voltar.

Depois da Antiguidade, o hino religioso sumiu de vista e a versão de Ovídio, nas Metamorfoses, virou o modelo dos escritores. Ovídio tirou da história o peso do culto e a deixou como narrativa de sedução e perda. Na Idade Média e no início da era moderna, Perséfone, ou Prosérpina, aparece como figura decorativa ou alegórica. A Proserpina de Chaucer, no Conto do Mercador, nada conserva de grande deusa. Milton, no Paraíso Perdido, subordina o mito clássico à narrativa cristã.

O Romantismo muda o quadro. Quando o sentido da experiência espiritual se desloca, o mito ganha força nova e começa a sair da sombra do outro grande relato de morte e ressurreição, o da Paixão de Cristo. No século XIX, Perséfone passa de metáfora decorativa a deusa viva, portadora dos aspectos mais espirituais da religião grega. Essa revivescência andou junto com as teorias sobre o matriarcado e com a discussão do casamento patriarcal. As poetas vitorianas Jean Ingelow e Dora Greenwell insistiram no laço entre mãe e filha e na tensão do casamento, enquanto homens como Swinburne se aproximaram da figura por um ângulo mais pessimista e mais distante deste mundo. Margot Louis argumenta, em Persephone Rises, que a própria mitografia vitoriana se formou sob tensões de gênero e que modernistas e modernistas mulheres lidaram de maneira distinta com mito e ritual.

A crítica literária do século XX e do atual explorou o mito por vários caminhos. Na coletânea Images of Persephone, de 1994, Elizabeth T. Hayes lê a história como expressão dos arquétipos da mãe amorosa e terrível e de um rito de passagem das mulheres nas culturas patriarcais. Os ensaios seguem a relação entre Deméter e Perséfone da Grécia de Homero à França pós-moderna de Cixous. A leitura psicanalítica vê no mito a ambivalência diante do crescimento feminino. Holly Blackford encontra o padrão de descida e retorno parcial na ficção fantástica para meninas, de Mulherzinhas a Crepúsculo, onde ele transmite o papel do amadurecimento feminino na renovação da cultura por meio de um casamento sagrado. C. Kerényi, em Eleusis, de 1967, vê na busca de Deméter a busca de cada pessoa por identidade, e na filha reencontrada a imagem de uma completude. Atwood e Alice Walker retomaram a história, e ela chega até Coraline, de Neil Gaiman.

Ceres foi sempre adorada como deusa da terra e protetora do trigo, o cereal que alimentava os gregos e a maior parte dos povos da Europa. O Novo Testamento herdou a associação entre trigo e alimento no pedido do pão de cada dia. É algo paralelo com o mito dionísico. Ceres simbolizaria o progresso material, quando o homem aprende a cultivar o solo. Já Prosérpina simbolizaria o progresso espiritual, a busca de conhecimento das forças do subconsciente, algo dos mistérios. A mesma semente que se enterra para dar pão serve de imagem para quem espera nascer de novo depois da morte.

Perséfone desce porque comeu um fruto, e a mãe a espera porque o grão precisa de tempo debaixo da terra. Quem lê o mito hoje encontra uma filha entregue pelo pai, uma mãe que recusa o mundo e um acordo que ninguém escolheu por inteiro. A romã continua na mão da moça.

Deixe um comentário

Um site WordPress.com.

Acima ↑

Conteúdo licenciado para IA via RSL Standard. Uso comercial e treinamento sujeitos a tarifação.