A obra O Capital: Crítica da Economia Política (Das Kapital), de Karl Marx, é um dos marcos na crítica da economia política e na análise do sistema capitalista. Publicada em um momento de intensas transformações sociais e econômicas na Europa do século XIX, a obra ultrapassou os limites da comunidade acadêmica. Apesar de densa, influenciou movimentos sociais, políticos e intelectuais em escala global. Este resumo busca oferecer uma visão concisa, porém crítica, de seus principais aspectos.

Objeto e Tese Central
O objeto de O Capital é o modo de produção capitalista e as relações de produção e circulação que o constituem. Marx não se limita a descrever o funcionamento do capitalismo; sua intenção é desvendar suas leis imanentes, suas contradições internas e sua dinâmica histórica.
A tese central da obra reside na ideia de que o capitalismo é um sistema intrinsecamente exploratório, baseado na extração da mais-valia do trabalho do proletariado pela burguesia, a classe detentora dos meios de produção. Marx argumenta que o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção, mas o trabalhador recebe apenas uma fração desse valor na forma de salário. A diferença, a mais-valia, é apropriada pelo capitalista, constituindo a fonte do lucro e da acumulação de capital. Essa relação de exploração é, para Marx, a raiz da luta de classes, motor da história.
Métodos de Investigação
Marx emprega um método complexo, frequentemente denominado materialismo histórico-dialético. Este método envolve:
- Análise histórica: compreender o capitalismo como um produto histórico, com origem, desenvolvimento e, crucialmente, um fim potencial.
- Dialética: inspirado em Hegel, mas “virado de cabeça para baixo”, Marx aplica a dialética para analisar as contradições inerentes ao capitalismo (ex: entre o caráter social da produção e a apropriação privada do lucro).
- Crítica da economia política clássica: Marx dialoga criticamente com economistas como Adam Smith e David Ricardo, utilizando seus conceitos, mas subvertendo suas conclusões para revelar a natureza exploratória do sistema.
- Abstração e concretude: a análise parte de categorias abstratas (como a mercadoria) para progressivamente reconstruir a totalidade concreta do sistema capitalista.
Resultados e Conceitos Fundamentais Marxianos
A investigação marxiana em O Capital resulta em uma série de conceitos para a compreensão do capitalismo e para a teoria social subsequente:
- Mercadoria e fetichismo da mercadoria: a mercadoria é a forma elementar da riqueza na sociedade capitalista. Marx analisa seu duplo caráter (valor de uso e valor de troca) e introduz o conceito de “fetichismo da mercadoria”. Por esse conceito, as relações sociais entre os produtores assumem a aparência de relações entre coisas (mercadorias).
- Força de trabalho como mercadoria: no capitalismo, a força de trabalho do proletário é vendida como uma mercadoria, cujo valor é determinado pelo custo de sua reprodução (os meios de subsistência do trabalhador e sua família).
- Mais-Valia (absoluta e relativa): como mencionado, é a diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e o valor de sua força de trabalho. A mais-valia absoluta é obtida pelo prolongamento da jornada de trabalho, enquanto a relativa advém do aumento da produtividade e da intensificação do trabalho.
- Alienação: o trabalhador é alienado do produto de seu trabalho (que não lhe pertence), do processo de trabalho (que não controla), de sua própria essência humana (a capacidade de trabalho livre e criativo) e dos outros seres humanos (devido à competição e à reificação das relações).
- Acumulação de capital: os capitalistas reinvestem a mais-valia para expandir a produção, levando a uma concentração e centralização progressiva do capital.
- Exército industrial de reserva: a acumulação de capital gera, paradoxalmente, uma população trabalhadora excedente, que mantém os salários baixos e disciplina a força de trabalho.
- Infraestrutura e superestrutura: embora mais desenvolvido em outras obras, o conceito permeia “O Capital”, onde as relações econômicas de produção (infraestrutura) condicionam as formas jurídicas, políticas, religiosas e ideológicas (superestrutura) da sociedade.
Esboço Estruturado
Volume 1: O Processo de Produção do Capital
- Introdução
- Propósito e alcance da obra.
- Contexto histórico e metodologia.
- Mercadorias e Dinheiro
- A mercadoria: valor de uso e valor.
- A natureza dupla do trabalho: trabalho concreto e trabalho abstrato.
- A teoria do valor.
- A transformação do dinheiro em capital.
- O Processo de Trabalho e o Processo de Valorização
- O processo de trabalho sob o capitalismo.
- O processo de valorização: a extração de mais-valia.
- A distinção entre mais-valia absoluta e mais-valia relativa.
- A Produção de Mais-Valia Absoluta
- O alongamento do dia de trabalho.
- A luta sobre a duração do dia de trabalho.
- A regulamentação legal do dia de trabalho.
- A Produção de Mais-Valia Relativa
- A produtividade social do trabalho.
- A cooperação do trabalho.
- A divisão do trabalho e a máquina.
- O desenvolvimento da mais-valia relativa através da mudança tecnológica.
- A Acumulação de Capital
- A transformação da mais-valia em capital.
- A composição do capital: capital constante e capital variável.
- A tendência da taxa de lucro a cair.
- O papel das crises no processo de acumulação.
- A Transformação da Mais-Valia em Lucro
- A taxa de lucro.
- A composição orgânica do capital.
- A lei da tendência da taxa de lucro a cair.
- Tendências contrárias.
Volume 2: O Processo de Circulação do Capital
- As Metamorfoses do Capital e Seus Circuitos
- A circulação do capital monetário.
- Os circuitos do capital industrial.
- As diferentes formas de capital: capital monetário, capital produtivo, capital-mercadoria.
- A Rotação do Capital
- A rotação do capital fixo e do capital circulante.
- O impacto do tempo de rotação no processo de produção.
- O papel do crédito na aceleração da rotação.
- A Reprodução e Circulação do Capital Social Total
- Reprodução simples: a reprodução do capital na mesma escala.
- Reprodução ampliada: o crescimento do capital.
- O papel do dinheiro no processo de reprodução.
- A interdependência entre diferentes ramos de produção.
- O Papel do Dinheiro na Circulação do Capital
- As funções do dinheiro: meio de circulação, medida de valor, reserva de valor.
- A velocidade da circulação do dinheiro.
- A relação entre a oferta de dinheiro e a atividade econômica.
- As Contradições da Circulação Capitalista
- A crise de sobreprodução.
- A desconexão entre produção e consumo.
- O papel do crédito e da finança na agravamento das crises.
Volume 3: O Processo de Produção Capitalista como um Todo
- A Transformação da Mais-Valia em Lucro e a Taxa de Lucro
- A taxa de lucro geral.
- A igualização da taxa de lucro entre diferentes indústrias.
- O papel da competição na formação da taxa de lucro geral.
- A Transformação do Lucro em Lucro Médio
- A formação do lucro médio.
- O papel dos preços de mercado na distribuição do lucro.
- O impacto das diferentes composições orgânicas de capital.
- A Transformação dos Valores das Mercadorias em Preços de Produção
- A relação entre valor e preço.
- O papel da oferta e demanda na formação de preços.
- A desvio dos preços dos valores.
- A Teoria da Renda
- As diferentes formas de renda: renda diferencial, renda absoluta, renda de monopólio.
- O papel da terra na economia capitalista.
- O impacto da renda na distribuição da mais-valia.
- O Papel do Crédito e da Finança
- O desenvolvimento do sistema de crédito.
- O papel dos bancos e instituições financeiras.
- O impacto do crédito na acumulação de capital.
- A Lei Geral da Acumulação Capitalista
- A tendência para a centralização do capital.
- O aumento da concentração de riqueza e pobreza.
- O papel das crises no processo de acumulação.
- A Tendência Histórica da Acumulação Capitalista
- As contradições do capitalismo.
- O potencial para a revolução social.
- A transição para um novo modo de produção.
Cada volume se baseia no anterior. Em conjunto, fornece uma análise abrangente do modo de produção capitalista, suas contradições e sua eventual transformação.
Recepção e críticas à obra
Sem dúvida, é uma obra massiva. Conta com mais de 1 milhão de palavras, o que requer cerca de 140 horas para sua completa leitura ponderada. Em comparação, uma edição protestante da Bíblia tipicamente tem por volta de 800 mil palavras e leva cerca de 90 horas de leitura para finalizá-la. Desde sua publicação, O Capital tem sido objeto de intenso debate.
A obra forneceu uma base teórica para os movimentos socialistas e comunistas emergentes. Influenciou sindicatos, partidos políticos e revoluções ao redor do mundo.
O Capital inspirou diversas escolas de pensamento marxista, marxiana e neomarxista. Essas escolas buscaram aplicar, expandir e revisar suas teorias. Mesmo entre não marxistas, seus efeitos são sentidos: o conceito de capital tal como o conhecemos passa pela teoria de Marx.
A obra também enfrentou inúmeras críticas, que podem ser agrupadas em algumas linhas gerais:
- Teoria do Valor-Trabalho: questionamentos sobre sua validade empírica e sua capacidade de explicar os preços no capitalismo contemporâneo.
- Determinismo econômico: acusações de que Marx reduziria todos os fenômenos sociais a fatores econômicos, negligenciando a autonomia de outras esferas como a cultura e a política (uma crítica que muitos marxistas consideram uma simplificação do pensamento de Marx).
- Previsões falhas: críticos apontam que algumas previsões de Marx, como o empobrecimento absoluto do proletariado ou o colapso iminente do capitalismo, não se concretizaram da forma esperada.
- Problemas de implementação: as experiências históricas dos chamados “Estados socialistas” no século XX, muitas vezes autoritárias e economicamente problemáticas, foram usadas para criticar a própria teoria marxiana, embora muitos teóricos argumentem que esses regimes se desviaram significativamente dos princípios de Marx.
- Complexidade e dificuldade: a densidade teórica e a linguagem abstrata são frequentemente citadas como barreiras à sua compreensão por um público mais amplo.
Apesar das críticas e dos debates, sua relevância para a análise das dinâmicas capitalistas, das desigualdades sociais e das crises econômicas permanece inegável. O livro permanece continuamente revisitado por acadêmicos, ativistas e formuladores de políticas.
Histórico Editorial
A trajetória editorial do livro é complexa e reflete as dificuldades enfrentadas por Marx durante sua vida.
- O Primeiro Volume: O Livro I, intitulado “O Processo de Produção do Capital”, foi o único publicado em vida por Marx, em 1867, em Hamburgo, pela editora Otto Meissner. Marx dedicou anos de pesquisa exaustiva, principalmente na biblioteca do Museu Britânico em Londres, para sua elaboração. Possuía cerca de 500 mil palavras.
- Os volumes póstumos: Marx deixou uma vasta quantidade de manuscritos e notas para os Livros II (“O Processo de Circulação do Capital”) e III (“O Processo Global da Produção Capitalista”). Seu amigo e colaborador Friedrich Engels dedicou-se à tarefa monumental de editar e publicar esses volumes após a morte de Marx em 1883. O Livro II foi publicado em 1885 com cerca de 350 mil palavras e o Livro III em 1894, contando cerca de 400 mil palavras.
- Teorias sobre a Mais-Valia (Livro IV): Posteriormente, Karl Kautsky editou e publicou o que é frequentemente considerado o Livro IV, “Teorias sobre a Mais-Valia” (entre 1905 e 1910), a partir de outros manuscritos de Marx.
- Edições resumidas e condensadas: Dado a amplitude da obra, logo surgiram versões resumidas, extratos e condensadas. Algumas foram feitas quando Marx estava ainda vivo (Cafiero e Deville), outra por seu colaborador direto (Engels).
- Traduções e edições críticas: O Capital foi traduzido para dezenas de línguas e teve diversas edições ao longo dos anos. Edições críticas, como a MEGA (Marx-Engels-Gesamtausgabe), buscam apresentar os textos de Marx e Engels com o máximo rigor filológico, incluindo variantes e materiais preparatórios.
SAIBA MAIS
Borchardt, Julian. O Capital, de Karl Marx, resumida por Julian Borchardt. Rio de Janeiro: LTC, 2018. 400 páginas.
Browne, Alfredo Lisboa. Leitura Básica de O Capital: Resumo e Crítica da Obra de Marx. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
Cafiero, Carlos. “O Capital”: um resumo popular. São Paulo: Nova Cultura, 2024. 114 páginas.
Deville, Gabriel. O Capital: versão condensada e autorizada por Karl Marx em vida. Tradução de Albano de Moraes orignalmente publicada em Recife em 1912. São Paulo: Edipro, 2017.
Engels, Friedrich. Resumo de O Capital. Feita por seu colega e coautor. São Paulo: Boitempo, 2023. 144 páginas.
Fortuny, Liliana, e Joan R. Riera. Capital para crianças. São Paulo: Boitatá, 2018. 36 páginas.
Lafargue, Paul. O Capital – Extratos. São Paulo: Veneta, 2017. 198 páginas.
Marx, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Coordenação e revisão: Paul Singer. Tradução: Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
Marx, Karl. O Capital. Traduzido por Paul Singer. 5 vols. Coleção Os Economistas. Editora Nova Cultural, 1988.
Marx, Karl. O Capital. Tradução: Flávio Kothe e Regis Barbosa. São Paulo: Ubu, 2025. 2384 páginas.
Segrillo, Angelo. KARL MARX’S “CAPITAL” (VOLS. 1,2,3) ABRIDGED. São Paulo: Laboratório de Estudos da Ásia – LEA-USP – Publicações, 2020. 450 páginas. O notório é que foi feita em inglês, mesmo que no Brasil.

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