Trabalhar menos por mais

Quais seriam os benefícios de trabalhar menos? O Programa de Proteção ao Emprego é uma chance para testar isso.

As campanhas de redução de jornada de trabalho no início do século XX que apregoavam “8 horas para trabalho, 8 horas para lazer, 8 horas para descanso” — já não são válidas hoje.  Em um século, as condições e meios laborais mudaram drasticamente.

Segundo o Censo 2010, 31% dos trabalhadores de São Paulo gastam  diariamente mais de uma hora em trânsito para o local do emprego. Entre preparativos, trânsito, intervalo compulsório do almoço e jornada do expediente, um trabalhador médio provavelmente dedica 10 horas diárias ao trabalho. E segundo a Teoria do Ócio Produtivo somente 6 horas dessas foram realmente produtivas. Além disso, algumas funções permitem trabalho remoto enquanto outras requerem viagem ou tarefas de um dia para o outro.

Os males resultantes dessa overdose de trabalho são assustadores: trabalhadores alienados, insatisfeitos, com baixa qualificações, ônus familiares, fraca rede social de apoio, baixa participação social e política, estresse e a lista continua.

Há algum tempo o sociólogo Domenico de Masi advoga a redução de jornadas de trabalho. Sua proposta do Ócio Criativo ou Ócio Produtivo aponta benefícios como redução de custos de saúde, aumento de produtividade, oportunidade do trabalhador investir em qualificação contínua ou dedicar à outras atividades. Um trabalhador satisfeito é potencialmente mais produtivo.

O filósofo Bertrand Russel em seu ensaio Em louvor ao ócio (1935) já propunha regimes de emprego semelhantes. Isso em uma época em que se trabalhava normalmente por mais de 10 horas por dia em sociedades industriais e quantidade de trabalho era sinônimo de produtividade. Russel criticou o discurso que o trabalho árduo seria mais virtuoso. Assim, advogava o trabalho mais inteligente, humano e produtivo.

Há quem se empolgue, como o blogueiro Tim Ferris, cuja proposta é trabalhar 4 horas por semana.

Macroeconomicamente, tal proposta reduziria o desemprego, diminuiria a informalidade e aumentaria o dinheiro circulante entre as classes assalariadas. Isso não é argumento da janela quebrada. A premissa que o empregador teria que contratar mais gente com jornadas menores elevaria o custo de produção não considera o cômputo agregado. Sendo a produtividade a mesma para, por exemplo, seis horas diárias, além da redução de custos operacionais a empresa terá funcionários mais produtivos, com mais tempo de se qualificar e consumo mais planejado. Com isso aumentaria eficiência global de um sistema econômico, com expectativas de crescimento do emprego a médio prazo.

Agora o recém-criado Centro Max Planck Odense para a Biodemografia do Envelhecimento no sul da Dinamarca propõe deveríamos trabalhar somente 25 horas por semana e trabalhar até os 80 anos.

O estudo, notando que a longevidade saudável aumentou, contrasta a necessidade de trabalhadores de idade ente 20-30 anos dedicarem mais tempo aos filhos, esportes, qualificação e voluntariado. Os benefícios sociais, psicológicos e de saúde pública são grandes. Na contramão, hoje os idosos têm bastante tempo de sobra, menor oportunidade de contato com seus familiares, baixa auto-estima de produtividade.

A extensão da vida ativa é um modo de remediar o colapso dos sistemas previdenciários.

O tempo gasto em família é outro benefício apontado pelo estudo. Seria possível mitigar danos pela falta de atenção qualitativa aos filhos e cônjuges.

Há outros benefícios recorrentes. Por exemplo, a participação de brasileiros em associações voluntárias é mínima. Enquanto nos países escandinavos, 90% da população faz parte de alguma forma de associação — desde grupo de tricô, clube de retórica, membresia em partido político, participação ativa em gestão de igrejas e ONGs — no Brasil praticamente inexiste tais participações. Seria um meio de fortalecer a democracia, treinar a negociação em espaço público e garantir redes sociais sólidas.

Também, as jornadas curtas permitiriam ter mais de um trabalho nos momentos de apertos familiares. A renda extra reduziria a dependência a um só empregador.

Como implantar isso no Brasil?

As legislações trabalhistas são um tanto rígidas no Brasil, além de empregadores e empregados desconfiarem que estão no prejuízo caso haja uma redução de horas e aumento da idade de aposentadoria. Não seria fácil implantar tais iniciativas no Brasil, mas não impossível. E não dependeriam das morosas intervenções estatais se  adotar esses pontos:

  • Recrutadores atrairem candidatos com contratos de trabalho com jornadas menores.
  • Convenções coletivas de trabalho poderiam criar alternativas de redução de horas de trabalho ao invés de aumento salarial.
  • Planos de previdência privadas poderiam oferecer planos de aposentadoria tardia.
  • Mudança de sistema de valores: trabalhar menos não implica ser preguiçoso.

Iniciativas simples como essas fariam possível uma transformação duradora para a melhora do trabalho. Não é uma panaceia social, mas um meio de aumentar a qualidade de vida.

ADENDO: PPE Programa de Proteção ao Emprego 

A Medida Provisória 680/2015 instituiu o Programa de Proteção ao Emprego que permitirá a redução da carga horária do trabalho com uma redução salarial proporcional complementada pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador, o FAT. Essa medida (ainda deve ser apreciada se converterá em lei pelo Congresso Nacional) é  temporária e aplicável somente para algumas empresas e setores.

Em um ambiente político hostil e maniqueísta, é raro ver alguma política que seja colaboracionista entre o Capital e o Trabalho. Mas, o PPE servirá de laboratório para ampliar essas mudanças nas relações laborais.

Entretanto, vale ponderar os prós e contras:

  • Macroeconomia:  o crescimento econômico diminui sua dependência no endividamento público. Isto é, se o FAT aguentar. Na pior das hipóteses pode haver estagnação ou recessão e alto desemprego ou subemprego. Em um melhor cenário, a economia ganha um fôlego maior.
  • Empregadores: pontos fracos: dificuldade de gerenciar uma equipe com escalas variadas. Interrupção da coesão organizacional. Pontos fortes: redução de passivos trabalhistas exatamente em momentos de riscos, menor rotatividade e absenteísmo, redução de custo com folha de pagamento.
  • Empregados: a grana fica mais curta, mesmo com o benefício do FAT. O ruim é que pode aumentar a pressão para crescer a produtividade em menor tempo. Por outro lado, se mantém o emprego. Também há maior tempo livre para família, hobby (o quanto a grana curta permitir) e qualificação profissional. Possibilidade de complementar a renda com um segundo trabalho (o que também é uma desvantagem: trabalhadores mais exaustos). Possibilidade de consumo consciente, pois o trabalhador terá mais tempo para avaliar preços e deslocar para compras.
  • Sociedade em geral: melhores cuidados para crianças, familiares doentes e idosos. Redução da emissão de carbono e do consumo de energia elétrica. Melhoras no tráfego com redução de trabalhadores em trânsito todos nos mesmos horários.

Com esses fatores e outros por virem, é importante deixar antagonismos políticos para refletir na qualidade de vida e relações laborais a médio e a longo prazos.

P.S: reduziram suas horas de trabalho e não sabe o que fazer com o tempo livre?

Durma.

O psicólogo K. Anders Ericsson estudou os violinistas na Academia de Música de Berlim e descobriu que os melhores violinistas ensaiavam mais. Entretanto, o uso do tempo desses violinistas era mais eficiente, pois conciliavam diversão e prática, além da atitude prazerosa em relação ao trabalho. Um elemento chave: havia uma correlação entre dormir e desempenho. Os melhores violinistas frequentemente tiravam um cochilo à tarde, como também dormiam mais à noite. Para uma boa performance, Ericsson argumenta que um bom sono é mais importante que a alimentação.

Programa de Proteção ao Emprego

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