Henri Bergson (1859–1941) foi um filósofo francês cujas ideias se concentraram no tempo, na consciência, na liberdade e na criatividade, frequentemente associadas ao vitalismo, intuicionismo e à filosofia do processo.
Nascido em Paris numa família judia culta, Bergson revelou desde cedo um grande interesse pela matemática e, após uma formação filosófica sólida na École Normale Supérieure, concluída em 1881, seguiu a carreira de professor de filosofia. Ao longo das duas décadas seguintes, suas reflexões o levariam a se tornar uma das vozes mais originais e celebradas da filosofia do século XX.
No cerne do pensamento de Bergson está a crítica à abordagem científica predominante de seu tempo. Ele entendeu que a matematização do processo natural, embora proporcionasse extraordinários progressos materiais e uma ampliação sem precedentes do conhecimento da realidade física, deixava escapar algo de essencial, especialmente no que tange à compreensão da vida humana e da consciência. Essa matematização, argumentava Bergson, obrigava a uma “espacialização do tempo”, tratando-o como uma série de pontos discretos e mensuráveis, análogo ao espaço. Para Bergson, o tempo real, o tempo vivido pela consciência, não se fragmenta dessa maneira. Em sua obra seminal Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (1889), ele introduziu o conceito de duração (la durée) para distinguir essa experiência interna e qualitativa do tempo do “tempo do relógio”, o tempo científico e quantitativo. A duração é um fluxo contínuo, onde passado e presente se interpenetram, um fluxo indivisível e irreversível, fundamental para a compreensão da liberdade.
Para apreender essa realidade fluida e dinâmica da duração e da vida, Bergson distinguiu duas faculdades cognitivas: o intelecto e a intuição. O intelecto é analítico, prático e espacializador; ele opera dividindo a realidade em partes estáticas e manuseáveis, sendo a ferramenta por excelência da ciência e da lógica. Embora útil para a ação no mundo material, o intelecto é incapaz de captar o movimento e a continuidade essenciais da vida. A intuição, por outro lado, é um modo de conhecimento mais profundo e imediato, uma simpatia pela qual nos transportamos para o interior de um objeto para coincidir com o que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível. É através da intuição que podemos experienciar a duração e a força criativa da vida.
Essa força criativa foi batizada por Bergson de élan vital (impulso vital), conceito central de sua obra A Evolução Criadora (1907). O élan vital é um impulso evolutivo que impulsiona a vida adiante, uma corrente de criatividade que transcende o mecanicismo darwiniano estrito. Para Bergson, a evolução não é um processo predeterminado ou meramente adaptativo, mas envolve espontaneidade, novidade e um devir criativo constante, em oposição a um ser fixo. Essa força espiritual seria, em última instância, o que sustenta e explica o processo evolutivo.
A compreensão bergsoniana da memória e da consciência, explorada em Matéria e Memória (1896), também é fundamental. Ele distingue entre a memória-hábito, que é automática, repetitiva e motora, e a memória pura, que é a preservação integral de todas as experiências passadas. A consciência emerge como uma interação dinâmica entre a memória e a percepção, onde o passado não está perdido, mas permanece ativo, moldando continuamente o presente. Bergson opunha-se vigorosamente ao materialismo e ao determinismo, argumentando que a realidade não pode ser totalmente explicada pela análise quantitativa; a experiência qualitativa é primordial. Nesse sentido, o cérebro atuaria mais como um filtro ou um mecanismo de seleção para a consciência do que como seu produtor.
A verdadeira liberdade e o livre arbítrio, para Bergson, não se resumem a uma simples escolha entre opções predefinidas, mas consistem na autoexpressão na duração. O determinismo mecanicista aplicar-se-ia apenas aos fenômenos espacializados e externos, não à experiência interna e vivida. Atos verdadeiramente livres emanam da totalidade da personalidade, mergulhada no fluxo da duração, e não de um raciocínio isolado.
Seu pensamento também se estendeu a outros domínios. Em O Riso: Ensaio sobre o Significado da Comicidade, Bergson analisa o cômico como algo que surge da rigidez mecânica imposta à vida, quando o comportamento humano se assemelha ao de um autômato, servindo o riso como um corretivo social. Mais tarde, em As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932), ele explorou a ética e o misticismo, distinguindo entre uma moralidade fechada (estática, baseada em regras, tribal) e uma moralidade aberta (dinâmica, universal, impulsionada pelo amor e pela criatividade). A experiência mística seria uma expansão da consciência em direção ao élan vital. Este trabalho refletia sua busca, intensificada após a mortandade da Primeira Guerra Mundial, por um fundamento para a moralidade ocidental que, sem se vincular diretamente a uma religião específica, preservasse um vínculo espiritual.
Como expositor notável, Bergson tornou suas ideias acessíveis, preservando as conquistas da ciência enquanto restaurava a dignidade da pessoa humana. Isso lhe rendeu enorme fama na França no início do século XX, com suas aulas no Collège de France (onde lecionou a partir de 1900) alcançando sucesso estrondoso, atraindo estudantes, professores, o público em geral e até turistas, a ponto de, em 1911, a instituição ser conhecida como a “Casa de Bergson”. A Evolução Criadora foi traduzida nos principais países, mas também gerou controvérsia: a Igreja Católica, que ainda relutava em aceitar plenamente a teoria da evolução, colocou a obra no Index dos livros proibidos.
A eclosão da Primeira Guerra Mundial levou Bergson a dedicar-se a missões diplomáticas, e, após o conflito, teve atuação destacada na Liga das Nações. No período pós-guerra, publicou também L’Énergie spirituelle (1919) e Durée et simultanéité. A propos de la théorie d´Einstein (1921). Em 1927, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Com a ocupação alemã da França na Segunda Guerra Mundial, Bergson, apesar de sua fama e idade, enfrentou dificuldades. Em fins de 1940, registrou-se como judeu, submetendo-se às restrições impostas, vindo a falecer pouco depois, a 3 de janeiro de 1941.
O legado de Henri Bergson é vasto, tendo influenciado o existencialismo (Sartre, Merleau-Ponty), a filosofia do processo (Whitehead) e o pós-modernismo (Deleuze).

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