Michaelis e a expedição dinamarquesa à Arábia

O século XVIII, a Europa iluminada por uma razão que acreditava poder desvendar os arcanos do mundo, enviava seus emissários a perscrutar as areias bíblicas. Acreditava ser possível decifrar a geografia sagrada mediante seus curiosos mais capacitados. Nem todos retornaram da Expedição Dinamarquesa à Arábia (1761-1767), mas a aventura marcou um início metodológico para a antropologia, arqueologia, linguística, ciências históricas, sem contar suas ramificações políticas no colonialismo e orientalismo.

A Dinamarca do século XVIII, sob o reinado de Frederico V, pai do futuro Cristiano VII, vivia um período de política de neutralidade que, paradoxalmente, facilitou a introdução das ideias iluministas. Cristiano VII, monarca com momentos de lucidez em meio à esquizofrenia, mostrou-se favorável a reformas. Embora o cenário político não tenha motivado diretamente a expedição, permitiu o patrocínio real para essa empreitada científica e intelectual.

A expedição reuniu um grupo de mentes notáveis, incluindo o matemático e cartógrafo Carsten Niebuhr, o naturalista sueco Pehr Forsskål e outros, cada um com expertises específicas para investigar a região sob perspectivas bíblicas, geográficas, naturais e culturais.

O empreendimento foi idealizada pelo erudito orientalista prussiano Johann David Michaelis (1717-1791), radicado em Göttingen. A expedição dinamarquesa à Arábia personificou o Zeitgeist do Iluminismo. Otimistas, seus participantes e organizadores eram impulsionados por uma insaciável busca por conhecimento empírico e pela crença na razão como ferramenta para desvendar os mistérios do mundo. Michaelis, um professor bíblico com vasta erudição em diversas áreas – matemática, medicina, geografia e botânica – concebeu a Arábia como um laboratório natural para testar suas hipóteses bíblicas. Via no trabalho de campo a oportunidade confrontar a especulação teológica com a realidade concreta através de um meticuloso questionário.

Outros participantes eram não menos brilhantes. Carsten Niebuhr (1733-1815), com sua formação em engenharia e rigor matemático, dedicou-se à cartografia e às observações geográficas. Christian von Haven (1727-1763), filólogo e teólogo dinamarquês, demonstrou grande fervor intelectual ao estudar árabe antes da viagem. O fino-sueco Peter Forsskål (1732-1763), educado em Uppsala e discípulo de Lineu, contribuiu com a sistemática da história natural. Era um expoente das liberdades civis — eco do ambiente político da Suécia durante a Era da Liberdade. O médico Christian Carl Cramer (1732-1764) cuidaria da saúde do grupo, enquanto o artista Georg Wilhelm Bauernfeind (1728-1763) registraria visualmente as descobertas.

A Dinamarca, alinhada com essa corrente de pensamento, vislumbrava na expedição uma oportunidade de fortalecer seus tênues laços comerciais e acadêmicos com o Oriente. Simultaneamente, o vasto Império Otomano estava ansioso para estabelecer vínculos com estados não católicos. Embora detentor do controle sobre grande parte do Oriente Médio, a Sublime Porta demonstrava uma relativa abertura à passagem de viajantes europeus. Contudo, prefeeria que os propósitos dos visitantes fossem primordiamente comerciais, científicos ou religiosos. O patrocínio real de Frederico V da Dinamarca, aliado ao apoio intelectual da Universidade de Göttingen, conferiu à expedição o respaldo financeiro e acadêmico para sua realização.

As motivações que impulsionaram essa audaciosa jornada eram tão diversas quanto os talentos de seus membros. Para as ciências bíblicas, a Arábia representava um palco estratégico para confirmar os relatos geográficos e históricos incrustados nas Escrituras Sagradas. O estudo aprofundado das línguas semíticas, como o hebraico e o árabe, era visto como uma chave para uma interpretação textual mais precisa e contextualizada. No campo da geografia e da cartografia, a expedição almejava mapear rotas comerciais e territórios ainda desconhecidos ou mal documentados pelos europeus. A história natural, sob a expertise de Pehr Forsskål, tinha como objetivo catalogar as inúmeras espécies de plantas e animais da região. Por fim, a antropologia e a etnografia nascentes buscavam documentar os intrincados costumes, as leis peculiares e as diversas estruturas sociais das comunidades árabes.

A expedição, que zarpou da fria Copenhague de janeiro de 1761, traçou uma rota ambiciosa que serpenteava por Constantinopla, pelo Egito, pelas terras inóspitas do Iêmen e até chegar à idealizada Índia. No entanto, a promessa de descobertas científicas logo se viu confrontada com as implacáveis dificuldades do ambiente e as insidiosas ameaças de doenças tropicais. A malária e a disenteria ceifaram a vida de quase todos os membros da expedição. Em menos de três anos, cinco dos seis membros faleceram. Carsten Niebuhr foi o solitário sobrevivente que adotou os costumes árabes. Retornaria à Dinamarca em 1767.

Apesar do trágico destino de seus membros, o benefício científico e cultural da expedição foi de um impacto notável. Nas ciências bíblicas e na nascente arqueologia, os cuidadosos registros de Niebuhr trouxeram à luz inscrições cuneiformes de valor inestimável. Posteriormente, esses dados se mostrariam cruciais para o deciframento dessa antiga escrita. Seus relatos vívidos sobre as ruínas de Petra e Palmira despertaram a imaginação europeia e inspiraram futuras escavações arqueológicas nessas cidades. Na história natural, o legado de Forsskål perdurou através de suas detalhadas descrições de centenas de novas espécies de plantas e animais, publicadas postumamente na influente obra Flora Aegyptiaco-Arabica. Na esfera da antropologia, os registros da expedição descreveram as vidas das tribos beduínas e as complexas estruturas sociais árabes. A cartografia e a geografia também foram significativamente avançadas pelas precisas cartas do Mar Vermelho e da Península Arábica produzidas por Niebuhr. Além disso, a expedição abriu caminho para futuras explorações científicas, como a expedição de Napoleão ao Egito em 1798. Como poderia se imaginar, influenciou o orientalismo europeu do século XIX, moldando a percepção do Ocidente sobre o Oriente.

O legado da Expedição Dinamarquesa à Arábia permanece como a primeira expedição científica moderna ao Oriente Médio. Sua contribuição ao desenvolvimento da arqueologia bíblica e dos estudos orientais como disciplinas acadêmicas ainda a faz ser citada. Além disso, influenciou inegavelmente o orientalismo acadêmico e, de maneira mais controversa, o colonialismo científico do século XIX. Isso porque forneceu conhecimento que poderia ser utilizado para fins políticos, militares e econômicos. A obra de Carsten Niebuhr, Description of Arabia (1772), tornou-se uma referência indispensável para viajantes e estudiosos durante décadas.

Como em outras instâncias do excepcionalismo nórdico, o destino escandinavo repetiu-se: seu pioneirismo científico, comercial, colonial entrou para os rodapés da história, abrindo caminho para outras nações usufruírem os louros do contato Europa-Oriente Médio.

SAIBA MAIS
Said: Orientalismo

Baack, Lawrence J. Undying Curiosity: Carsten Niebuhr and the Royal Danish Expedition to Arabia (1761-1767). Franz Steiner Verlag, 2014.

Forsskål, Pehr. Flora Aegyptiaco-Arabica. 1775.

Guichard, Roger H., Jr. Niebuhr in Egypt: European Science in a Biblical World. Lutterworth Press, 2 May 2014.

Hansen, Thorkild. Arabia Felix: The Danish Expedition of 1761-1767. 1964.

Michaelis, Johann David. Fragen an eine Gesellschaft Gelehrter Männer. 1762.

Niebuhr, Carsten. Description of Arabia. 1772.

Atualizado em 18 de janeiro de 2026.

Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar, PhD pela VID Specialized University, Noruega. Estudou antropologia na Suécia e ciências bíblicas na Noruega, em ambos sentiu o legado dessa expedição.


Como citar esse texto no formato ABNT:

  • Citação com autor incluído no texto: Alves (2012)
  • Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2012)

Na referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Michaelis e a expedição dinamarquesa à Arábia. Ensaios e Notas, 2012. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2012/05/17/michaelis-e-a-expedicao-dinamarquesa-a-arabia/. Acesso em: 18 jan. 2026.

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